Mercado de valores
Tempo - Tutiempo.net

“A banca deve melhorar o nível de serviço aos clientes”

A afirmação é do Presidente da Deloitte Angola, José António Barata, que na entrevista ao Mercado faz uma análise realista do actual sistema financeiro angolano, sem perder de vista o desempenho da instituição que representa

Luanda /
27 Jul 2021 / 17:51 H.

O mercado angolano ainda é atractivo para Deloitte Angola, tendo em conta a recessão que afecta a economia angolana?

A Deloitte está presente em Angola desde 1996, e é hoje uma marca incontornável do panorama socioeconómico nacional, e pretendemos reforçar o nosso compromisso com Angola neste momento particularmente desafiante. A nossa aposta em Angola mantém-se e prova disso é que temos, sistematicamente, vindo a aumentar a nossa presença local, com a contratação e capacitação de recursos humanos nacionais, contando hoje com cerca de 300 colaboradores na Firma. Em resumo, “viemos para ficar”, porque acreditamos muito no potencial de crescimento de Angola e queremos dar o nosso contributo para manter Angola na rota das maiores economias de África. Não obstante esta nossa visão, não estamos imunes aos ciclos económicos, e também sofremos como agentes económicos quando o ciclo económico é menos favorável, mas mantemos a resiliência.

O contexto macroeconómico obrigou a redefinição da estratégia da Deloitte Angola?

Mais do que o contexto macroeconómico, o último ano foi influenciado pela pandemia da Covid-19, que alterou profundamente a forma de trabalho e como as pessoas se relacionam entre si. Neste contexto de mudança, tivemos que nos reinventar e os nossos colaboradores deram uma prova cabal da sua maturidade e da sua capacidade de trabalho em situações adversas, com uma resposta muito satisfatória. A este facto não foi alheio, a Deloitte ter já implementadas um conjunto de plataformas tecnológicas que facilitam o teletrabalho. Mesmo neste regime de teletrabalho e trabalho semi-presencial (no escritório, com o cumprimento das regras sanitárias em vigor), conseguimos continuar a servir os nossos clientes e a entregar projectos nos timings acordados. Apesar dos constrangimentos, foi possível graças ao esforço e empenho de todos (inclusivamente dos nossos clientes) manter o fluxo e a qualidade de entrega do nosso trabalho. Mas podemos confirmar que o tema da pandemia teve um impacto significativo naquilo que é a nossa operação, não só em Angola, como no mundo inteiro.

A crise afectou o negócio da Deloitte, mas pôde manter o número de clientes?

Na Deloitte apostamos em relações duradouras, e não apenas numa lógica transaccional de executar um projecto e a relação terminar após a conclusão desse projecto. Somos parceiros dos nossos clientes, mais do que uma lógica de vender projectos, ajudamos com soluções para ultrapassarem os problemas de forma duradoura e que criem impactos na actividade dos nossos clientes. Portanto, como parceiros, acompanhamos o ciclo que os nossos clientes estão a viver, tendo sido mantida quase inalterável a base dos nossos principais clientes.

Para além da consultoria e auditoria, quais são as outras actividades da Deloitte em Angola?

A Deloitte é uma empresa multidisciplinar e estamos organizados por linhas de serviço, ou seja, para além de serviços de auditoria e consultoria, prestamos serviços de finanças, consultoria de risco e consultoria fiscal, com uma cultura partilhada que se mantém igual. Adicionalmente, também estamos divididos por indústria, atendendo à exigência dos nossos clientes, para os servir cada vez melhor, sendo que dispomos das seguintes indústrias: (i) Bens de Consumo e Produtos Industriais, (ii) Energia e Recursos, (iii) Serviços Financeiros, (iv) Ciências da Vida e da Saúde, (v) Sector Público, (vi) Tecnologia, Media e Telecomunicações e (vii) Transportes, Infra-estruturas e Serviços. A Deloitte pretende ser reconhecida pela busca permanente da excelência, pela focalização no serviço ao cliente e capacidade de antecipação de tendências. Para tal, e tendo em conta as exigências e os desafios perspectivados, a Firma angolana integra uma rede de firmas que permitem que os nossos profissionais desenvolvam competências, segundo os padrões internacionais, de uma estrutura líder nos serviços que presta.

Porquê o interesse da Deloitte na auditoria do sistema financeiro angolano, sobretudo a bancária?

A banca em todo mundo é um pilar fundamental para o desenvolvimento da economia. É o que faz chegar às empresas e às pessoas o crédito para poderem desenvolver a sua actividade. De forma muito resumida, desenvolver a actividade bancária é, no fundo, recolher poupança dos aforradores e fazê-las chegar a quem necessita para desenvolver as suas ideias e os seus projectos, sob a forma de crédito, e canalizar esta poupança para a economia. Em todo o mundo a banca é um sector chave, e fundamental, para as empresas de consultoria e auditoria. Em Angola, obviamente, que também o é sendo, desde a abertura do nosso escritório em Luanda, uma aposta clara da Deloitte, estarmos presentes no sector bancário, em virtude de ser um dos nossos principais vectores de actuação e um dos sectores mais vibrantes, que exige estar sempre numa constante mutação, nomeadamente, mais recentemente, na sua transformação digital.

Qual é a razão de ser do estudo da Deloitte Angola sobre o sistema bancário angolano, intitulado “Banca em Análise”?

Começo por relembrar que o estudo “Banca em Análise” já vai na sua 15.ª edição, e tem-se assumido como uma das principais iniciativas da Deloitte Angola, sendo já uma referência incontornável e um contributo sólido, e independente, para uma reflexão dos agentes económicos nacionais. Como é do conhecimento público, apresentamos recentemente a 15ª edição do estudo e convido todos os leitores do Jornal MERCADO a fazer download da página de internet da Deloitte Angola, porque acredito que é uma leitura interessante e vai contribuir para o enriquecimento do conhecimento do sector bancário nacional. Neste estudo o que fazemos é compilar a informação financeira tornada pública pelos bancos a operar no mercado, bem como informação relevante disponibilizada pela Associação Angolana de Bancos (ABANC) e pelo Banco Nacional de Angola. Compilamos informação por forma a que esta possa ser comparável, de modo a obter um panorama geral do estado e funcionamento do sector bancário nacional. Note-se que este estudo, ano após ano, tem tido uma repercussão também a nível internacional, o que nos orgulha bastante, por colocarmos os bancos nacionais no radar internacional. Por outro lado, o estudo também inclui entrevistas com os responsáveis das principais instituições financeiras e das entidades de maior relevância para o sector, onde efectuam um balanço da actividade das instituições que dirigem, bem como partilham as suas expectativas para o futuro do sector bancário nacional, em particular na edição deste ano, no que se refere ao papel das pessoas e da tecnologia.

Qual é avaliação que a Deloitte faz do sistema financeiro angolano, tendo em conta o estudo da banca em análise que tem feito anualmente?

Aquilo que temos vindo a notar é que os bancos, na sua esmagadora maioria, estão todos a apostar nas mesmas operações, nos mesmos clientes e não há aqui uma especialização. Alguns bancos podiam dedicar-se a determinados nichos de mercado que existem e que fazem sentido também serem servidos, que, eventualmente, não estão. Os bancos estão todos muito concentrados, quer nas mesmas zonas urbanas, quer nos mesmos clientes. Isto necessariamente vai fazer com que a operação fique mais cara, ano após ano. E tendo em conta a actual realidade, esta pandemia veio induzir que uns bancos repensem o seu modelo de negócio, sendo que alguns estão já a fazer reflexões estratégicas tendentes a revisitar o seu posicionamento, elaborando assim um plano estratégico para os próximos anos, com objectivos claros de reposicionamento. Esta situação pode acelerar alguns processos de concentração, o que é perfeitamente normal, e que foi uma tendência que aconteceu noutros países.

Onde a banca angolana deve melhorar?

Quando falamos em melhorias da banca, é inevitável associar este processo aos diversos desafios com que o sector se depara. Onde destacaria a necessidade de melhoria do nível serviço aos clientes, porque ainda assistimos a longas filas de espera à porta de cada instituição bancária e, frequentemente, vemos que o nível de serviço não é aquele que as pessoas anseiam e necessitam. Para dar resposta a este desígnio, o sector deverá fazer investimentos significativos em tecnologia, acelerando os seus processos de transformação digital, tendo sempre bem presente a crucial capacitação das pessoas para o efeito. Na visão da Deloitte, estes dois pilares são fundamentais para a banca demonstrar a sua capacidade de adaptação e a resiliência do sector. Por outro lado, a banca está muito circunscrita àquilo que é hoje o casco urbano, e temos uma larga fatia da população que não é servida fisicamente por balcões. Os bancos vão ter que procurar diversificar as suas fontes de receita e, hoje em dia, a tecnologia já permite servir essas populações, ir ao encontro destas franjas populacionais.

A Deloitte Angola considera normal a exposição da banca à dívida pública?

A dívida pública é, em todo mundo, um instrumento financeiro sempre atractivo por ter um nível de risco mais reduzido, tornando mais apetecível aos bancos a alocação dos seus recursos em títulos de dívida pública, do que na concessão de crédito a clientes. No que diz respeito ao crédito, pese embora as políticas de incentivo à concessão de crédito empreendidas pelo Executivo e Banco Nacional de Angola, os bancos têm que, necessariamente, analisar e chegar à conclusão de que os projectos são sustentáveis e vão gerar no futuro fluxos necessários para serem amortizados a médio/ longo prazo. Importa salientar que os bancos estão a aplicar as poupanças de aforradores em crédito à economia, sejam elas às empresas, aos particulares ou ao Estado, pela via de títulos. Portanto, a análise de risco tem aqui um papel fundamental, e os bancos têm vindo a reforçar as suas unidades orgânicas de gestão de risco, uma vez que se os activos não tiverem a qualidade desejada, podem estar em causa os depósitos dos clientes, e nenhuma instituição deve incorrer neste risco, de modo a evitar situações semelhantes aquelas que foram apuradas no exercício de Avaliação da Qualidade dos Activos (AQA), realizado em 2019, onde os bancos foram forçados a efectuar reforços significativos nas perdas por imparidade associadas a créditos cuja a sua recuperabilidade era reduzida. Em 2020 a banca teve de registar imparidades em função da baixa do rating da dívida soberana de Angola. Isso mostra que nem sempre a dívida pública é tão segura como se fala... Efectivamente a descida do rating de Angola pela Moody’s e pela Fitch foi um dos momentos marcantes do ano de 2020 e em função daquilo que são as normas internacionais de contabilidade e de relato financeiro (IAS/IFRS), o nível de imparidade subiu e, consequentemente, os bancos tiveram que registar perdas por imparidade adicionais associadas aos títulos de dívida pública. Ainda assim, quando comparamos a dívida pública com o crédito a clientes, obviamente que os níveis de imparidade são mais baixos, em função do risco ser menor.

A banca mostra-se pouco favorável a intermediação bancaria, sendo a Deloitte uma consultora e ao mesmo tempo auditora, que estratégia orienta para que se melhore a relação da economia com a banca?

De facto, os bancos vão ter que repensar um pouco o seu modelo de negócio, por forma a estarem mais próximos da economia e dos seus clientes. É verdade que historicamente o modelo de negócio dos bancos está assente na existência de um balcão físico e pessoas a visitálo. Porém, hoje estamos a assistir a uma rápida mudança cultural que, necessariamente, deve ser assimilada pelos bancos na forma como vêem o negócio bancário e a relação com os seus clientes, que procuram cada vez mais uma experiência personalizada, ou seja, procuram uma oferta de produtos e serviços única e direccionada. Actualmente, por todo o mundo, temos vindo a assistir que as instituições bancárias estão a ir ao encontro dos seus clientes, dos seus negócios e ao local onde a economia está a acontecer e enaltecemos o esforço que está a ser levado a cabo. E isto é uma mudança cultural, que, obviamente, vai, e já está a exigir, um investimento forte em tecnologia e na capacitação de pessoas. O certo é que o progresso e desenvolvimento do sector passam, claramente, pelo nível de serviço, e pela forma deste se relacionar com a economia e com os clientes.

Como a Deloitte Angola encara o sistema bancário angolano no contexto africano e sobretudo da SADC?

Angola tem 25 licenças bancárias activas, e durante o ano de 2020, como ficou patente no estudo “Banca em Análise”, se não considerarmos o prejuízo A banca está muito circunscrita àquilo que é hoje o casco urbano, e temos uma larga fatia da população que não é servida fisicamente por balcões “1 4 MERCADO 23.07.21 “A Deloitte Angola tem actualmente três sócios de nacionalidade angolana. É com particular satisfação que reitero o compromisso de formar profissionais de excelência significativo que o BPC teve fruto do seu Plano de Recapitalização e Reestruturação e daquilo que foi a sua limpeza da carteira de crédito por via da transferência de crédito mal parado para a RECREDIT, o sector, como um todo, enfrentou ainda assim um decréscimo face ao ano anterior, cerca de 32% face a 2019. Ainda assim os bancos analisados apresentaram um resultado agregado líquido positivo, e isto deve ser realçado. Obviamente que existem um conjunto de desafios significativos pela frente e que, necessariamente, vão exigir investimentos significativos. Destaco que, neste momento, já está atribuída uma licença para um operador de pagamentos móveis (Mobile Money), não bancário e, à semelhança daquilo que vimos a assistir noutros países em África, este tema dos pagamentos móveis pela facilidade que tem, terá, certamente, uma rápida adesão por parte da comunidade, permitindo potenciar os níveis de inclusão financeira da população, bem como combater a informalidade dos mercados. Isto é negócio que os bancos hoje têm e vão deixar de ter. Há aqui um conjunto de ameaças de entidades que hoje ainda não estão presentes, mas que vão estar. E isto faz com que os bancos tenham que repensar muito bem o seu modelo de negócios e os investimentos que vão fazer, sob pena de ficarem ultrapassados por algumas entidades que hoje ainda não estão presentes, mas que não devem demorar, e que nem sequer são bancos (i.e. fintechs).

É normal o número de bancos no sistema, tendo em conta a estrutura da economia angolana?

Angola é um país com um território muito vasto, com uma dispersão geográfica bastante significativa. E, como já referi, o número de licenças bancárias para fazer as mesmas operações, pode, de facto, ser alto. Mas existem nichos de mercado que podem (e devem) ser explorados. O número per si não deve ser um indicador, mas sim as ofertas de produtos e serviços diferenciadas, os modelos de negócios e as perspectivas a curto, médio e longo prazo. Acreditamos que existe espaço no mercado para bancos com um carácter mais regional, sectorial, mais dedicados para o sector da agricultura ou das infra-estruturas. Mais, a especialização de bancos, como vemos em muitas geografias, pode fazer a diferença, sendo que isto pode justificar a existência de um maior número de bancos. Na Europa temos centenas de bancos regionais em alguns países, e isto pode ser um modelo adaptável em Angola.

Se houvesse fusões e aquisições, haveria alguma melhoria no que está a dizer?

A banca é um negócio de escala onde as margens tendem, cada vez mais, a diminuir. E com o aumento dos custos, da exigência de regulação, da aposta em tecnologia e da capacitação das pessoas, estes investimentos só conseguem ser diluídos em escalas maiores. Portanto, ter instituições bancárias com maiores dimensões poderá ser uma tendência natural.

É normal para um sistema bancário ser dominado por cinco bancos?

Isso é uma tendência que não é de Angola, é mundial. Em todas as geografias os maiores têm um forte grau de concentração. A concentração não é um tema específico de Angola. Adicionalmente, de acordo com o estudo “Banca em Análise” no final de 2020, os cinco maiores Bancos representavam 71,9% do total dos activos dos Bancos em estudo e o seu activo registou um aumento de cerca de 18,5%. Em 2019, este indicador ascendeu 72,4%, o que demonstra uma ligeira redução no indicador de concentração dos activos.

Como o processo de digitalização pode ajudar no processo de inclusão financeira em Angola?

Os investimentos tecnológicos vão possibilitar uma nova forma de relacionamento entre Bancos e clientes. Existem hoje muitas tecnologias que já estão ao dispor das populações e que minimizam a deslocação dos clientes aos balcões. Isto melhora muito a percepção que as pessoas têm, a sua experiência com o banco e a facilidade com que é possível fazer um negócio bancário. Em países como a China, há pessoas com menos de 40 anos que nunca foram a um balcão, a tecnologia está disponível e a população pode interagir sem ter a necessidade física de se dirigir a um banco. Penso que nos próximos anos será uma tendência natural.

Como a Deloitte encara o processo de reforma tributaria em Angola?

Angola tem levado um conjunto de reformas que importa assinalar. Assistimos a uma reforma cambial com impacto positivo, quer na vida das pessoas, quer das empresas. Hoje a previsibilidade a este nível é muito grande. Em termos fiscais, quando estamos em programas de ajustamentos, é natural que o Estado necessite de mais arrecadação fiscal. É uma tendência que se tem verificado em todas as geografias e Angola não foge a este padrão, com algumas consequências sociais que daí advêm.

Como é feito o processo de selecção de quadro na Deloitte Angola?

A Deloitte tem uma forte presença nacional, o que se traduz numa marca forte e que os jovens angolanos ambicionam desenvolver a sua carreira. Por estarmos no mercado nacional há cerca de 25 anos, conseguimo-nos inserir com bastante sucesso no ecossistema académico, tendo relações próximas com as principais universidades do país. Somos reconhecidos no mercado, e muito se deve a que os nossos colaboradores e ex-colaboradores considerem a Deloitte como uma escola. Anualmente recrutamos um número bastante significativo de recém-licenciados. Óbvio que tentamos sempre recrutar os melhores, formá-los e retê-los de modo a potenciar o talento nacional. Este é o nosso desígnio.

Quer com isso dizer que em breve teremos administradores angolanos na Deloitte Angola?

Este é um dos objectivos que ambicionamos e que nos motiva, e estamos no processo evolutivo para lá chegarmos. Em todas as geografias a Deloitte prima por capacitar, formar e elevar o talento. E aqui em Angola é este o caminho que estamos a fazer. Está na génese do nosso ADN preparar os nossos profissionais para serem os melhores, e estamos certos que a médio prazo conseguiremos atingir estes objectivos. Por outro lado, gostaria de destacar que a Deloitte Angola tem actualmente três sócios de nacionalidade angolana. É com particular satisfação que reitero o nosso compromisso de formarmos profissionais de excelência que sabemos que irão dar o seu contributo para criarem um impacto relevante em Angola e no mundo.