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Standard & Poor’s mantém Angola no “lixo” e prevê estagnação

Agência de classificação de risco de crédito diz que os acordos de reestruturação da dívida com os credores oficiais permitem ao país respirar até 2023, mas alerta que depois do fim da moratória o serviço da dívida volta a disparar. Previsão de crescimento foi cortada de 3% para 0,3%.

Luanda /
18 Fev 2021 / 11:03 H.

A agência de notação financeira Standard & Poor’s (S&P) manteve o “rating” de Angola no nível CCC+, com perspectiva de evolução estável, ao mesmo tempo em que revê em baixa a previsão de crescimento económico em 2021 de 3% para apenas 0,3%.

A classificação CCC+ significa que quem empresta dinheiro a Angola, por exemplo comprando eurobonds, corre um risco substancial. Na gíria económica dizse que os títulos angolanos são “lixo”.

A perspectiva estável significa que a S&P não prevê alterar o rating - ver caixa. “A perspectiva de evolução estável equilibra os riscos associados com as grandes necessidades de financiamento externo e os requisitos de serviço da dívida de curto prazo no seguimento dos acordos de reestruturação alcançados com os credores bilaterais”, aponta a nota apesar de indicar uma “estimativa de crescimento em baixa para 2021, para 0,3% do PIB, devido a uma nova queda esperada na produção de petróleo”, depois de prever em Agosto de 2020 um crescimento de 3% para este ano. “

Standard & Poor’s mantém Angola no “lixo” e prevê estagnação

Os preços baixos do petróleo, a rápida depreciação da moeda e elevada dívida externa levantam preocupações sobre a sustentabilidade da dívida de Angola a médio prazo”, escrevem os analistas da agência.

Segundo a instituição, os acordos de reestruturação da dívida com os credores oficiais oferecem algum espaço para respirar até 2023. “A reestruturação da dívida bilateral de Angola com credores chineses e membros do G-20 como parte da Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI) provavelmente criará algum espaço para o serviço da dívida comercial ao longo de 2020- 2022”, prevê a S&P.

Recorde que a decisão tomada no âmbito da DSSI, obriga Angola a usar as poupanças resultantes da suspensão do pagamento da dívida na mitigação dos efeitos económicos e sociais da COVID-19, em particular no sector da saúde.

O Governo comprometeu-se a obter de todos os outros credores oficiais bilaterais um tratamento do serviço da dívida que esteja em linha com o acordado com o Clube de Paris. Em causa está fundamentalmente a China, o principal credor de Angola, que não faz parte do Clube de Paris, mas integra o G-20 no âmbito do qual foi adoptada a DSSI.

De acordo com os critérios da S&P, estes acordos, nomeadamente o alcançado com a China, não constituem um evento de Incumprimento Financeiro, ou ‘default’, ao contrário do que aconteceria se Angola iniciasse negociações com os credores dos títulos de dívida pública (Eurobonds).

“As necessidades de serviço da dívida externa do Governo em empréstimos chineses e outros (após a reestruturação) ainda são consideráveis, com uma média de cerca de 4,8 mil milhões USD em 2021-2022 e aumentando acentuadamente para 7,2 mil milhões USD em 2023 e 6,3 mil milhões em 2024”, apontam os especialistas. Entretanto, “a menor produção de hidrocarbonetos e o crescimento moderado não petrolífero continuarão a pesar nas posições fiscais e externas de Angola, apesar de um aumento esperado de 15% nos preços do petróleo este ano”, alertam os especialistas da agência de notação financeira.

“Os fracos fluxos de investimento estrangeiro directo restringirão as reservas de moeda estrangeira e a taxa de câmbio, e manterão altas as necessidades de financiamento externo bruto”, acrescentam. A S&P acredita que a dívida do Governo deve cair gradualmente para 94% do PIB até 2024, que considera ainda alto.

“Esperamos que as reservas em moeda estrangeira aumentem apenas ligeiramente nos próximos quatro anos e permaneçam abaixo dos níveis de 2019 até 2023 devido ao investimento estrangeiro moderado e aos fluxos de dívida externa líquida”, perspectivam.

Na classificação a S&P apresenta dois cenários, em que num cenário negativo rebaixaria “a classificação se o acesso do Governo a fundos externos enfraquecesse, o que poderia limitar sua capacidade de serviço da dívida comercial externa, ou se a deterioração adicional no ambiente externo, como preços mais baixos do petróleo, aumentasse as pressões externas e fiscais”.

Num cenário positivo, a instituição elevaria “o rating se as reformas económicas e fiscais, apoiadas por um ambiente externo em melhoria, reduzissem a carga do serviço da dívida, estabilizassem a taxa de câmbio e aumentassem as reservas cambiais além de nossas projecções atuais”.