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Pessimismo no seio das famílias cai pela sétima vez consecutiva

“A melhoria deve-se a evolução da inflação, estabilidade da moeda associada ao fim da recessão económica, os aumentos dos salários na função pública, realização de concursos de ingresso à função pública, dão forma às expectativas das famílias”

Luanda /
26 Set 2022 / 07:53 H.

Os consumidores e as famílias mostraram-se menos pessimistas quanto à perspectiva da economia do País no curto prazo pelo sétimo trimestre consecutivo, apontam os dados do Indicador de Confiança dos Consumidores (ICC) do segundo trimestre de 2022, divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

De acordo com o ICC, a confiança das famílias angolanas continuou a aumentar, apesar de permanecer em terreno negativo e atingiu o valor mais alto desde o início da série -3 pontos.

O indicador, aponta o documento, caiu no primeiro trimestre de 2020 para 16 pontos negativos, tendo atingido o valor mais baixo de -23 pontos no terceiro trimestre de 2020. Nos três primeiros trimestres de 2020 o indicador apresentou sucessivas quedas e operou em terreno negativo, ou seja, os pessimistas venceram os optimistas.

Depois de sucessivas quedas, no quarto trimestre de 2020 o pessimismo voltou a baixar, tendência que se prolongou até o segundo trimestre de 2022.

Para o Docente Universitário, César Marcelino, a melhoria da avaliação dos consumidores deve-se a evolução da inflação, estabilidade da moeda nacional face às principais divisas que associados ao fim da recessão económica, os aumentos dos salários na função pública, realização de concursos de ingresso à função pública, dão forma às expectativas das famílias.

“Os dados apontam para uma melhoria na confiança das famílias, mas é preciso entender que muito ainda precisa ser feito para que seja materializada as expectativas das mesmas”, acrescentou.

O coordenador do Centro de Investigação Económica e Social da Universidade Agostinho Neto (UAN), Fernandes Wanda, concorda com a opinião de César Marcelino ao afirmar que a opinião das famílias reflecte o que se tem observado, quanto à apreciação do Kwanza e a redução dos preços de produtos da cesta básica.

“As famílias, segundo dados também do INE, gastam 55% do rendimento em bens alimentares. Logo, uma redução tem um impacto na composição da despesa, bem como pode permitir fazer poupanças”, sustentou.

César Marcelino afirma ser possível poupar dinheiro, mas são cada vez menos as pessoas que podem fazê-lo, devido as desigualdades económicas que segregam as famílias pois, pouco mais de 40% da população angolana vive em situação de pobreza.

Segundo o Inquérito de Despesas e Receitas do INE, a receita média mensal por pessoa em Angola é de 15 454 Kwanzas por mês e existem diferenças entre as áreas de residência, sendo que na área urbana a receita média por pessoa é praticamente o dobro da área rural (19,090 kz e 9,149 kz, respectivamente). Por isso, não é correcto afirmar que é possível poupar dinheiro, acrescenta.

De acordo ainda com o INE, o aumento da confiança das famílias resulta da evolução das variáveis que compõem o indicador (situação financeira das famílias, desemprego, situação económica, situação económica actual das famílias nos próximos 12 meses).

“Na opinião das famílias, nos últimos 12 meses, o desemprego diminuiu, nota-se ainda uma queda dos preços de bens e serviços. Para os inquiridos, tanto a situação económica do País, como a das famílias evoluíram, face ao mesmo período de 2021”, lê-se no relatório.

Quanto às expectativas dos preços de bens e serviços, de acordo com o INE, prevê-se uma queda nos próximos 12 meses”.

César Marcelino afirma que os indicadores que estão na base do cálculo do ICC têm importância, mas numa economia com alta informalidade e para uma população maioritariamente jovem, cujo desemprego incide sobre pouco mais de 50% dos mesmos, os resultados podem apenas traduzir um viés matemático, pois, pese embora o desemprego esteja em queda, a informalidade quase sempre esteve em alta, deixando claro a precariedade dos mesmos.

Relativamente à situação financeira das famílias, César Marcelino aponta, com base nos dados do INE, as perdas associadas pela carga fiscal e pela inflação entre 2002 e 2019, que estiveram à volta dos 20%, sobre o rendimento nacional das famílias, impossibilitando, para muitas, a constituição de poupanças.

“Já a situação económica do País pode traduzir a falsa sensação de melhorias, mas num País onde as desigualdades sociais são tão flagrantes, não me parece ser o melhor indicador”, afirmou.

“Antes deveriam ser relevados indicadores que mensurassem os níveis de desigualdades económicas e sociais, bem como os níveis de informalidade e precariedade dos salários, como instrumentos de mensuração das expectativas das famílias”, acrescentou.

Um em cada 100 inquiridos irá comprar um carro nos próximos 2 anos

No segundo trimestre 2022, constatou-se que 22,6% dos inquiridos afirmaram que com a actual situação económica do País é possível poupar dinheiro. Comparativamente ao mesmo período de 2021, nota-se uma diminuição de 0,4 pontos percentuais, segundo o INE.

No que diz respeito à realização futura de compra de carro, comparado ao mesmo período do ano transacto, menos inquiridos afirmaram com certeza absoluta que não tencionam comprar um carro, ou seja, um em cada 100 inquiridos, afirmaram ter a certeza absoluta que irá comprar um carro nos próximos 2 anos. Nota-se ainda que aproximadamente sete em cada 100 entrevistados, afirmaram que provavelmente irão comprar um carro nos próximos 2 anos, aponta o estudo.