Mercado de valores
Tempo - Tutiempo.net

Pensar fora ou dentro da caixa?

BAI promove debate sobre o impacto da COVID-19 e oportunidades geradas pela pandemia na economia angolana. O diagnóstico está feito e a roda já foi inventada. Diversificação da economia, reforço do ensino, mais crédito da banca e diálogo entre empresários e Governo são parte da receita. Mas não há milagres e a luta é de todos

Luanda /
21 Jun 2020 / 16:00 H.

A pandemia de COVID-19 reforçou a evidência de que a economia angolana é frágil e está numa encruzilhada, e não é líquido que se tenha aprendido com os erros do passado. Mas há sinais do lado dos empresários que revelam que há progressos na produção nacional, ainda que sem grande ajuda da banca, e do exterior chega a percepção de que a credibilidade do País está mais forte, por causa de medidas do Governo e da presença do Fundo Monetário Internacional (FMI).

São estas, em traços gerais, algumas conclusões possíveis de um webinar promovido nesta quarta-feira pelo BAI, que juntou em debate o CEO do banco, Luís Lélis, Luís Marques Mendes, partner da sociedade portuguesa Abreu Advogados, Manuel Alves da Rocha, professor da Universidade Católica de Angola, Carlos Rosado de Carvalho, jornalista, José Moniz da Silva, CEO da Moniz Silva International, Paulo Pinto de Andrade, CEO da Vovó Xica, e Elizabeth Dias dos Santos, CEO da Fazenda Pérola do Kikuxi.

COVID-19: desafios e oportunidades para a economia de Angola foi o tema do evento, onde, a par de algumas soluções, se apontaram sobretudo problema do País, muitos dos quais antigos e recorrentes. O CEO do BAI apelou ao surgimento de “ideias fora da caixa” num momento especial como este, em que, disse Luís Lélis, Angola “precisa de muito rapidamente reiniciar o desenvolvimento económico”.

O banqueiro destacou a necessidade de um “diálogo mais aberto” entre Estado, empresários, banca e sociedade civil, numa altura em que “os diagnósticos estão todos feitos” e Angola precisa de “criar cadeias de valor” e pensar em “criar complementaridades” entre os diversos sectores de actividade.

“Os angolanos são muito empreendedores”, disse Luís Lélis, destacando a necessidade de as pessoas serem “bem orientadas” e de serem eliminadas “barreiras ao negócio”. O gestor admitiu que há um problema com o crédito da banca às empresas (ver caixa), que é escasso face ao que é emprestado ao Estado – mas manifestou-se optimista com o facto de vermos já “alguma produção nacional e muita substituição de importações no consumo”.

A “preguiça” que traz o petróleo

“É possível [diversificar a economia]”, disse o CEO, que lembrou que a dependência do petróleo tem criado “preguiça na criatividade”.

Mais pessimista – ou realista – esteve Alves da Rocha, que lembrou que o Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade de Angola (CEIC) aponta para uma recessão de 7% neste ano, e de 2,5% a 3% em 2021, num País onde a taxa de pobreza monetária, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), é de 41% e a taxa de pobreza multidimensional, de acordo com o Banco Mundial, é de 52%.

A taxa de desemprego, segundo o INE, lembrou o académico, é de 32%, mas no caso dos jovens (dos 15 aos 24 anos), é de 57% a 58%, segundo os últimos dados do INE.

Se a isto somarmos uma inflação elevada e a desvalorização do kwanza, a par de elevadas taxas de juro, conclui-se que “não podemos contar com o consumo interno” para animar a economia quando o pior passar, como sucedeu, por exemplo, em Portugal.

“O investimento directo estrangeiro e nacional não estão a acontecer e o Estado não tem dinheiro e tem metas a cumprir por causa do acordo com o FMI”, disse o académico, que vê também com preocupação a “instabilidade institucional”, com nomeações e exonerações a um ritmo fora do comum, problema que, sublinhou alves da Rocha, não é novo.

“Nunca vi em lado nenhum do mundo”, disse o economista, que defendeu que combate contra a corrupção “não deve ser feito a favor de ninguém”, disse, reiterando a sua posição crítica em relação à presença do FMI, que “não quer saber de problemas sociais” e usa a mesma “receita” em todo o lado, sem distinguir as particularidades de cada país.

Igualmente pessimista esteve o jornalista Carlos Rosado de Carvalho, que, com ironia, pediu ao Executivo para “não pensar mais fora da caixa”, para evitar danos maiores. “O Governo precisa de pensar dentro da caixa”, afirmou o também economista, lembrando que os temas-chave da agenda do FMI – e do Governo – são a consolidação orçamental, políticas monetárias e cambiais, fortalecimento das instituições financeiras e reformas estruturais.

Novo IRT deveria ser adiado

Carlos Rosado de Carvalho reconheceu que é necessário abrandar o ritmo de consolidação orçamental, dado o contexto. “Acelerar seria terrível para as pessoas, dada a elevada taxa de pobreza”, alertou, apelando a um adiamento da entrada em vigor das novas tabelas do IRT, que penalizam escalões que auferem, por exemplo, 200 mil Kz por mês.

O jornalista lamentou – e deu como exemplo de “pensar fora da caixa” pelo Executivo – que o orçamento para o combate à pobreza seja de 88 mil milhões de Kz, quando os custos da segurança do PR rondam os 79 mil milhões por ano. Também “fora da caixa” é a substituição do pagamento de atrasados no valor de 334 mil milhões Kz em títulos do Tesouro, quando a ideia era os pagamentos serem em cash.

“Parem de pensar fora da caixa”, insistiu, criticando a banca por preferir emprestar dinheiro ao Estado, em detrimento das empresas, num País que está “num co lete de forças”.

Bem mais optimista esteve o advogado e antigo ministro da Presidência do Conselho de Ministros português, Luís Marques Mendes, que disse não duvidar de que “Angola vai superar esta fase, como superou outras” no passado. “Devemos estar preparados para o pior, esperando o melhor”, defendeu, reforçando que este é “um tempo de incertezas” em todo o mundo, e que em Angola há uma “tempestade perfeita” que pode demorar a passar.

A crise da pandemia e da queda do preço do petróleo, lembrou, surge após cinco anos de recessão, numa altura em que a inflação é alta, tal como as taxas de juro, e o kwanza perde valor. “A situação é delicada”, admitiu, mas “este não é tempo para desarmar e baixar os braços”.

As privatizações são “um bom sinal”, defende o jurista, que disse haver melhor imagem do País lá fora por causa das reformas do Presidente João Lourenço e da presença do FMI, que “traz credibilidade”, apesar de a instituição, lamentou como Alves da Rocha, não ter sensibilidade para matérias de pendor social. A renegociação da dívida angolana – que deve chegar aos 111% do PIB neste ano, segundo o FMI, é um ponto assente para o jurista, que defendeu o investimento no agro-negócio como ferramenta para baixar as importações e se mostrou favorável ao modelo de parcerias público-privadas em Angola, mas com os riscos do Estado acautelados.

O crédito que quase não há

José Moniz da Silva deu conta das dificuldades que o sector das farmácias tem enfrentado, mas destacou que se mantiveram em funcionamento ao longo destes meses. Entre os problemas, a par das divisas, estão os elevados custos de transporte e o facto de o crédito às empresas “quase não existir”.

Também a educação é um problema, alertou. “Não temos um sistema de ensino voltado para o mercado de trabalho”, afirmou o empresário, que admitiu que gostaria de desenvolver em Angola uma indústria de medicamentos.

“A industrialização do País na área dos medicamentos é um desejo”, disse José Moniz da Silva, alertando que um projecto destes “tem de ter o apoio do Estado”, nem que seja pela garantia de compra de produtos. “O Estado também tem de correr riscos”, defendeu o gestor.

Elizabeth Dias dos Santos afirmou que a crise trazida pela pandemia veio tornar mais evidentes os problemas do País, e sublinhou que em Angola “é preciso mudar as mentalidades” a vários níveis. “Político é político, empresário é empresário”, destacou, elegendo as dificuldades de acesso ao crédito e a elevada informalidade da economia como dois dos problemas que devem ser ultrapassados. “Importamos quase tudo”, lamentou a empresária, que lamentou ainda que os problemas que viveu nos anos 80 sejam os mesmo que, agora, os seus filhos enfrentam – falta de luz, água, etc..

Procurar oportunidades

A dependência das importações, de resto, ajudou o empresário Paulo Pinto de Andrade a ter a ideia de criar marcas próprias de produtos de consumo nacional, mas importados, como, por exemplo, o óleo de palma. “Vamos estar confrontados com uma nova realidade que é a transição para nós próprios, mais compromisso dos angolanos consigo mesmos”, defendeu o CEO da Vovó Xica. “Com todas estas dependências [do exterior], como é que o Pais vai avançar?”, questionou, insistindo na ideia – partilhada pelos restantes – de “olharmos para dentro” e de se reforçar um “diálogo permanente entre Governo e empresários”.