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INE fura prazo de divulgação dos dados do desemprego do primeiro trimestre de 2021

Até ao fecho da edição 281 do Jornal Mercado, o inquérito ao emprego que devia ter sido publicado na terceira semana de Maio ainda não tinha visto a luz do dia. Atraso contribui para avolumar as suspeitas sobre se o INE não está a manipular os números para agradar ao Governo.

Angola /
08 Jun 2021 / 09:33 H.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) não divulgou o relatório do Inquérito ao Emprego em Angola (IEA) do primeiro trimestre de 2021 nem avançou qualquer explicação para o atraso que pelas contas do Mercado já vai em três semanas.

De acordo com o calendário do INE, os dados trimestrais sobre o emprego em Angola devem ser publicados 45 dias após o término do trimestre. Assim sendo, o relatório do IEA do primeiro trimestre de 2021 devia ter sido divulgado na terceira semana de Maio.

A demora na divulgação se deve a atrasos verificados no processo de recolha das informações, por dificuldades na aquisição dos materiais de biossegurança para os inquiridores, disse ao Mercado fonte do Instituto. Questionado pelo jornal o INE não avançou qualquer justificação.

O IEA fornece um conjunto de informações que permite analisar o mercado de trabalho enquanto realidade dinâmica e constitui um ponto de partida para a definição de políticas socioeconómicas.

O economista Heitor Carvalho alerta para o problema do descaso que é dado ao incumprimento do “dever” das instituições.

“Não creio que possamos dizer mais nada que não seja que não cumpriram os seus compromissos. O problema é que não cumprir o seu dever parece ser tido por todos como um mal menor”, assevera.

“Quem, por culpa própria, não for capaz de cumprir os prazos a que está obrigado deve sair e dar lugar a quem consiga fazê-lo”.

Para o também economista Wilson Chimoco, os atrasos do INE são recorrentes e prejudicam a credibilidade que se quer da instituição. “Existem sempre imprevisto nos processos de colheita de dados. Mas creio que deverá ser alguma questão meramente operacional que esteja a atrasar a divulgação”.

Qualquer que seja a razão os atrasos do INE avolumam as suspeitas dos utilizadores que receiam que o instituto esteja a manipular os dados para agradar ao poder político. Suspeitas que se agravaram com a divulgação na semana passada pelo Ministro da Economia e Planeamento de estimativas contas nacionais trimestrais do primeiro trimestre de 2021 cuja divulgação só está agendada para 15 de Julho.

Taxa de desemprego é maior na zona urbana

De acordo com Heitor Carvalho que dirige o centro de investigação económica (Cinvestc) da Universidade Lusíada, a taxa de desemprego total tem muito pouco significado. No campo, a taxa de desemprego é muito reduzida e incide sobre os mais habilitados que, não encontrando emprego compatível, fogem para as cidades.

“Os camponeses, fora de situações de catástrofe, como a seca, conseguem, em geral, encontrar um local para fazer uma lavra e sobreviver. Com o critério de emprego da Organização Internacional de Trabalho (OIT), estes camponeses estão empregados e, por isso, o desemprego rural em países como o nosso é muito reduzido”, justifica.

No IV trimestre de 2020, a taxa de desemprego na área urbana era de 41,7%, cerca de 3 vezes superior aso 15,6% da área rural, com uma diferença de 26,1 pontos percentuais. “Estes números revelam que o desemprego só é um drama nas cidades”, reforça.

Em Angola, a grande maioria das pessoas empregadas têm emprego informal 80,8%. Ou seja 8 685 676 pessoas vivem dos mais diversos expedientes (venda ambulante, roboteiro, etc), menos 20% conseguem um emprego formal. “Esta é a verdadeira situação do emprego”, resume o director do Cinvestec.

Questionado sobre o impacto que o processo de reconversão da economia informal terá no número de empregos, Heitor avança que a formalização da actividade urbana reduzirá o número de empregos, mas pode melhorar a situação das famílias.

“O emprego formal é, em geral, mais produtivo do que o informal, que é um emprego de mera subsistência. Portanto, se as actividades informais forem substituídas por formais haverá uma redução do número de pessoas necessárias para produzir o mesmo valor. Mas não significa que aumente o desemprego”, garante o economista.

A taxa de actividade da população com 15 ou mais anos foi estimada em 90,5%. “A taxa que Angola apresenta é sinónimo de emergência social. Como cada emprego só dá para a subsistência de uma pessoa, todos têm de trabalhar! Mais empregos formais permitem reduzir a taxa de actividade. Menos pessoas quererão trabalhar, mais pessoas se dedicarão a apoiar os filhos e mais jovens prosseguirão os seus estudos. Sendo menos as pessoas a querer trabalhar a taxa de desemprego pode reduzir-se”, considera.

“O problema não pode ser só formalizar; terá de significar mais capacidade de investimento e produtividade. De outra forma a taxa de actividade e o produto final mantêm-se. Formalizar só será positivo se der condições de liberdade de acção para que se invista mais, se crie uma divisão do trabalho mais eficiente e se aumente o valor acrescentado de forma que haja mais riqueza por cada angolano. Aí podemos ter mais jovens a estudar em vez de vaguearem pelas ruas à procura de uma oportunidade de ganhar um dinheiro qualquer”, conclui Carvalho.