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“Guerra de preços não era esperada, mas havia riscos”

O impacto do Coronavirus não se tem feito sentir assim tanto no preço de outras commodities para além do petróleo. Destaque apenas para a subida do preço do ouro acima dos 1.700 USD nas últimas semanas.

China /
16 Mar 2020 / 13:07 H.

A guerra entre a Rússia e a Arábia Saudita por causa do prolongamento do corte na produção de petróleo era expectável, ou impensável neste cenário?

Não creio que fosse expectável, mas havia esse risco. A Rússia referiu antes do encontro da OPEP+ que estava confortável com o actual nível do preço do crude, dando a entender que não estaria disposta a baixar a sua produção - como pretendia a Arábia Sáudita - para tentar reduzir a oferta de crude no mercado internacional. Esta posição da Rússia poderá também ter por detrás um outro objectivo: atacar a indústria de petróleo de xisto nos EUA que está fortemente endividada e precisa de um preço relativamente mais alto para continuar a operar. Ao inundar o mercado com petróleo e ao criar esta “guerra de preço”, a estratégia da Rússia e da Arábia Sáudita deverá levar a um corte de produção de petróleo de xisto por parte dos produtores norte-americanos (e possivelmente à falência de alguns) e permitir que os dois países recuperem quota de mercado.

O preço do petróleo é uma das vítimas colaterais do efeito do Coronavírus sobre a economia. Este efeito pode espalhar-se a outras commodities de forma sensível? Quais?

O impacto do Coronavirus não se tem feito sentir assim tanto no preço de outras commodities para além do petróleo. Destaque apenas para a subida do preço do ouro acima dos 1.700 USD nas últimas semanas. O ouro é considerado pelos investidores como um activo de refúgio num contexto de turbulência ou incerteza nos mercados e já valorizou quase 9% desde o início do ano

Os mercados de capitais, incluindo bolsistas, também são afectados. Quais os sectores que podem ser mais propensos a ser ‘contaminados?

O Coronavírus tem um impacto generalizado nas economias e em diversas indústrias devido aos problemas que causa na oferta de vários produtos vindos de países como a China e também à quebra na procura de diversos serviços, como viagens. O impacto desta epidemia no sentimento e na confiança dos agentes económicos afecta também a actividade económica. Alguns dos sectores mais penalizados são o turismo, hoteleiro e viagens, dado haver uma forte quebra na movimentação de pessoas. O sector tecnológico também tem sido afectado, dado que uma parte significativa dos bens é produzida na China. Por outro lado, esta epidemia traz oportunidades para sectores como o da saúde, onde a procura por alguns produtos disparou nas últimas semanas e onde se espera o desenvolvimento de uma nova vacina nos próximos meses.

O facto de África ter ainda poucos casos de infecção, comparativamente a outras regiões, é um alívio para as economias locais?

Não creio que seja um alívio para as economias africanas, tendo em conta o elevado risco de propagação que este vírus parece ter. Como tal, torna-se crucial para as autoridades de cada país tomaram medidas preventivas para conter o contágio

Quais os principais riscos do Coronavírus sobre as economias africanas? E que oportunidades pode trazer, nalguma medida?

Para além das questões de saúde da população, existe também o risco que pode trazer para as perspectivas de crescimento das economias africanas. Existem vários países africanos bastante dependentes da exportação de matérias-primas e, como tal, uma redução da actividade económica mundial deverá arrefecer a procura por estas commodities. Por exemplo, países como Angola e a Nigéria continuam muito dependentes do petróleo. A forte queda no preço do crude nos últimos dias levou o preço para níveis não esperados pelas autoridades locais. Se estes preços persistirem por muito mais tempo, e se se confirmar uma de redução na procura de crude este ano, então o crescimento económico destes países vai ser, com certeza, afectado.