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Especialistas dizem que o problema da inflação em Angola é económico e não administrativo

A suspensão temporária dos direitos aduaneiros é uma medida “palhativa” que não resolve o problema. O Governo deve criar condições para que os operadores económicos trabalhem.

Luanda /
13 Set 2021 / 11:52 H.

O problema da inflação em Angola é económico e não regulamentar ou administrativo, defendem especialistas ouvidos pelo Mercado, em reacção a suspensão do pagamento dos direitos aduaneiros aos produtos da cesta básica, aprovado na sessão do Conselho de Ministros, orientada pelo Presidente da República, João Lourenço.

A decisão do Executivo em suspender o pagamento dos direitos aduaneiros dos produtos da cesta básica com o objectivo de aliviar os preços, deixa os especialistas pouco optimistas quanto aos resultados desejados.

O economista Wilson Chimoco, considera que estas medidas vêm para criar mais incertezas ao mesmo tempo anular os mecanismos de mercado.

Acrescenta ainda que os impactos económicos desta medida são residuais e não se vai assistir à redução nos níveis de preços.

Já o administrador executivo da empresa Carrinho SA, Samuel Candundo, diz que a medida que considerou “precipitada” poderá colocar em risco o investimento feito em vários sectores da produção nacional, numa fase incipiente e emergente.

“Os empresários olham para o negócio, o Executivo para o País. Achamos que esta decisão tem que ser na base de estudos bem sustentados. Há vários factores que concluem para o aumento dos preços, não são só os direitos alfandegários”, disse.

O empresário reconhece que a retirada dos direitos alfandegários vai aliviar, mas no geral os consumidores não sentirão porque os preços das commodities estão a subir no mercado internacional.

A título de exemplo, disse, uma tonelada de trigo era comprada a 180 mil USD, agora está a 400 mil USD no mercado internacional por causa da COVID-19, o preço quase que duplicou. A produção baixou, a procura aumentou e os preços dispararam, este preço reflecte na mesa do consumidor final.

Samuel Candundo, defende que os direitos alfandegários têm que estar a um nível que protege o produtor nacional.

Eduardo Manuel, também economista, considera que a medida terá impacto na redução dos preços da cesta básica. Mas, numa primeira fase não será significativa porque a evolução dos preços dos produtos importados depende da evolução da taxa de câmbio.

Acrescentou ainda que a evolução dos preços depende da capacidade dos empresários em adquirir divisas para compra dos produtos importados.

“Os produtos importados não estarão ao alcance de toda a população, sobretudo as de baixa e média renda, visto que serão vendidos a um preço que não terá só em conta o custo de importação, baseado na taxa de câmbio, mas também os custos de transporte e outras despesas, isso para que os empresários possam recuperar o valor investido, bem como ter margem de lucro”, disse.

No que diz respeito à perda das receitas fiscais, Eduardo Manuel avança, o que o Estado vai deixar de ganhar corresponde ao valor global das taxas cobradas, pela importação dos produtos, mas esta perda será compensada pelas receitas fiscais provenientes das grandes empresas importadoras e abrangidas pelo IVA.

Por outro lado, Wilson Chimoco não acredita que o Estado vá perder tanto por se tratar de uma suspensão temporária de três meses.

Causa vs medidas implementadas

Para o empresário, problemas estruturais como a dificuldade no acesso à energia eléctrica, mau estado das estradas, fraca distribuição de água e o baixo investimento na educação afectam a produção nacional e não favorece a actividade económica do País.

Apelou para o Executivo a criação de condições estruturais que permitam que os negócios corram na normalidade e considerou a suspensão temporária dos direitos aduaneiros uma medida “palhativa” que não resolve o problema.

Wilson Chimoco é de opinião que o Executivo deve deixar o mercado funcionar, ser menos intervencionista e criar as condições para que os operadores económicos trabalhem. Nada mais do que isso.

Já o economista Eduardo Manuel, defende que o Governo deve tomar as seguintes medidas administrativas para estabilizar os preços da cesta básica: fixação dos preços, eliminar as taxas aduaneiras, aumentar o investimento na produção nacional, revisão da taxa de câmbio e reforçar os acordos comerciais com outros países.

Também alerta para maior fiscalização dos estabelecimentos comerciais, a fim de evitar a subida de preços.

Inflação descontrolada

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que a inflação em Angola aumentou 25,7%, maior registo nos últimos 4 anos quando se fixou nos 26,3% em termos homólogos. Já em termos mensais, a subida foi de 2,1% elevando a taxa acumulada para 14,5%, estes dados só mostram que a inflação no País está fora de controlo.