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Economistas divididos sobre impacto do aumento da procura de petróleo

A procura global de petróleo está a recuperar a um ritmo forte em Junho e deve continuar a crescer nos próximos trimestres para atingir os níveis pré-crise no final de 2022, afirmou a AIE.

Luanda /
11 Jun 2021 / 17:28 H.

Economistas angolanos reagiram entre o ceticismo e o optimismo face ao aumento da procura global de petróleo na economia do País, admitindo que poderá ter impacto reduzido devido à queda da produção e desinvestimentos no sector.

Para o economista Yuri Quixina, as previsões da Agência Internacional de Energia (AIE) são insignificantes para Angola na perspectiva do aumento de receitas, na medida em que a produção está em queda e não há investimento no sector petrolífero angolano.

“Sem investimento, o preço e a procura podem aumentar, mas não é um grande estímulo". "É preciso investir, é preciso aumentar a produção e eliminar as barreiras, a não liberdade que o sector também tem", acrescentou.

"Se há pouco investimento, Angola não tem como aumentar a produção, a produção depende do investimento e do aumento de estímulos", afirmou Quixina.

O especialista em macroeconomia considerou que o preço do barril de petróleo "pode aumentar e vai continuar a acelerar, na medida em que vão desconfinando os países e as respectivas economias", devido à pandemia da COVID-19, mas o problema da economia de Angola permanece face à queda de produção.

A produção no sector petrolífero angolano, insistiu Quixina, "está em queda há mais de 10 anos, isto é, desde 2008 em que a produção caiu consideravelmente e não há grandes inovações no sector petrolífero angolano".

"Não há novas descobertas, há pouco investimento e quando não há investimento, por mais que o preço aumente, as receitas arrecadadas são menores em função da queda de produção", notou.

A procura global de petróleo está a recuperar a um ritmo forte em Junho e deve continuar a crescer nos próximos trimestres para atingir os níveis pré-crise no final de 2022, afirmou a AIE.

No relatório mensal sobre o mercado petrolífero, a AIE insiste novamente, como fez em Maio, que a OPEP (Organização de Países Exportadores de Petróleo) deve abrir mais as suas torneiras para que o mundo seja devidamente abastecido.

O principal argumento da AIE é que, a menos que haja mudanças nas políticas energéticas, até ao final do próximo ano o mundo absorverá 100,6 milhões de barris por dia em comparação com 82,9 milhões no segundo trimestre de 2020, no auge da crise.

Em 2021, o aumento da procura será de 5,4 milhões de barris por dia, para uma média de 96,4 milhões de barris por dia, o que representa uma revisão marginal descendente de 50.000 barris em relação ao que tinha sido calculado no mês passado.

Yuri Quixina, também membro do Conselho Económico e Social criado em 2020 pelo Presidente João Lourenço, disse ainda que o sector petrolífero angolano "está condenado a decrescer se não existir investimentos nos diversos poços e descoberta de novas reservas", acompanhados de incentivos do ponto de vista tributário.

Angola, que preside à Conferência de Ministros da OPEP, é o segundo maior produtor de petróleo da África subsaariana atrás da Nigéria e tem nesse produto a maior fonte de receitas do país.

Já a economista Dalva Ringote congratulou-se com as projecções da AIE, considerando tratar-se de um "sinal positivo" para Angola, porque "o mercado está a reagir favoravelmente à sinalização que os países da OPEP deram".

"Para nós, enquanto país dependente de petróleo também é positivo. Do ponto de vista das finanças públicas, penso que o executivo deve avaliar a pertinência de proceder uma revisão do Orçamento Geral do Estado ", disse a economista.

"Desta forma, e com esta subida, aquilo que é o diferencial deverá criar um espaço fiscal para a acomodação de despesas, sobretudo a amortização do serviço da dívida", realçou.

Dalva Ringote reconhece, no entanto, que ao longo dos últimos anos o sector petrolífero nacional "não fez investimentos necessários para poder dar aquela pujança na sua produção".

Apesar de estar a ser feito um investimento gradual, frisou, "ainda não é o desejável, porque os investimentos desse sector estão na ordem de milhões" e o País tem vivido escassez de recursos.

"Tem de priorizar as áreas que estão definidas como nevrálgicas para atender as necessidades do país, mas vamos acompanhar se essa procura poderá se reflectir numa poupança para auxiliar o investimento do sector", concluiu.

Angola exportou 97,8 milhões de barris de petróleo bruto, no primeiro trimestre de 2021, e arrecadou 6,03 mil milhões USD (5 mil milhões de euros), registando, no entanto, uma redução nas exportações de 5,96% face ao trimestre anterior.

Segundo os resultados das exportações de petróleo bruto e gás de Angola, referentes aos primeiros três meses de 2021, tornados públicos em maio, o País registou igualmente uma queda no volume exportado de 17,42% face ao período homólogo de 2020.