Mercado de valores
Tempo - Tutiempo.net

Bancos grandes financiam cada vez menos a economia

A apetência da banca em dívida pública, segundo a crítica, prejudica a economia porque o sector privado (gerador de emprego) fica com pouca margem para conseguir financiamento bancário

Luanda /
28 Jun 2022 / 08:30 H.

O rácio de transformação (agregado) de três (dos cinco) maiores bancos do sistema bancário fixou-se em 20%, no primeiro trimestre de 2022, concluiu o Mercado, após análise dos balancetes trimestrais das respectivas sociedades, excepto do BIC e BPC que estão indisponíveis ao público, quando faltam seis dias para o penúltimo trimestre do ano.

O conjunto das três instituições bancárias de grande dimensão que (até ao fecho da presente edição) disponibilizaram os balancetes do primeiro trimestre de 2022 é composto pelo Banco Angolano de Investimentos (BAI); Banco de Fomento Angola (BFA) e Banco Millennium Atlântico (ATL). Tentamos contactar o BIC e BPC, mas sem sucesso.

Quanto ao rácio de transformação, a taxa demonstra que os três bancos de grande dimensão concederam pouco crédito à economia no primeiro trimestre do presente exercício económico, mantendo a tendência dos anos anteriores, apesar da ‘censura’.

O montante concedido em crédito, segundo especialistas, deve no mínimo representar 46% dos recursos captados de clientes (depósitos), podendo no máximo chegar a 75%.

“Há mercados em que a taxa de transformação de depósito em crédito chegou a ultrapassar 100%, Portugal é o exemplo mais próximo. Estamos longe de exigir que se chegue a este índice, por representar um perigo à banca, mas os bancos devem fazer mais para alavancar economia”, disse Diógenes Tavares, economista e consultor.

O economista afirmou que seria preocupante para uma instituição bancária, principalmente sistémica, que o é caso do trio de bancos citados, se o rácio de transformação chegasse aos 120%. “Este ‘fenómeno’ ocorre (normalmente) quando o volume de crédito concedido supera a quantidade de depósitos captados de clientes”.

Pela taxa do rácio no primeiro trimestre, continuou, é possível perceber que os três bancos captaram recursos suficientes, mas preferiam manter certa prudência, quanto à aplicação do dinheiro emprestado de clientes em crédito. “Aliás, é preciso compreender que os bancos são muitos avessos ao risco, excepto o BPC, por isso quase faliu”.

Relativamente ao indicador individual dos três bancos no período em análise, a taxa do rácio de transformação do Banco ATL foi de 34%, BFA - 20% e do BAI - 13%.

Os números demonstram que os bancos em causa financiam (cada vez) menos operações, impõem mais condições e juros altos. Diógenes Tavares considera esta situação normal, face à política monetária (restritiva) adoptada pelo Banco Nacional de Angola (BNA), em meados de 2015 com o acentuar da crise económica e financeira.

“O BNA elevou a taxa de juro de referência (TAXA BNA), este facto desestimulou os bancos a socorrerem-se do redesconto bancário (outro instrumento monetário responsável pelo controlo da economia), facto que obrigou as instituições financeiras (bancos) a disponibilizar menos créditos. Em consequência, a economia desacelerou”, disse.

À semelhança dos últimos sete anos, os bancos citados investiram mais em dívida pública. A taxa do rácio (agregado) dos títulos e valores mobiliários representa 46% dos recursos captados de clientes (calculou o Mercado). Justamente o índice mínimo (ideal) indicado para o rácio de transformação de depósitos em crédito.

A apetência da banca em dívida pública, segundo a crítica, prejudica a economia porque o sector privado (gerador de emprego) fica com pouca margem para conseguir financiamento bancário, “comprometendo assim o crescimento económico que muito se deseja”.

No primeiro trimestre de 2022, o BFA manteve a tradição de ser o maior investidor em títulos da dívida pública. O rácio de títulos e valores mobiliários representou 61% dos depósitos; o BAI (como sempre) seguiu a passada (46%). O Banco ATL ficou nos 24%.

“O BFA e BAI, no ano passado, viram-se obrigados a registar imparidades nos respectivos balanços, porque as principais agências de notação de risco reviram em baixa a dívida soberana de Angola”, lembrou Diógenes Tavares, para mais adiante afirmar queo investimento em títulos da dívida pública também pode gerar prejuízo para os investidores.