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Bancos convidados a redireccionar financiamento ao sector não petrolífero

O 10º Fórum Economia e Finanças da ABANC, realizado pela ABANC, teve como tema central o “O Papel dos Bancos na Recuperação Económica de Angola” ficou marcado pelas intervenções de José de Lima Massano, que fez referência ao futuro sector bancário que vai enfrentar o “grande desafio” das alterações climáticas, com implicações relevantes no sector.

Luanda /
22 Nov 2021 / 10:27 H.

O governador do Banco Nacional de Angola (BNA), José de Lima Massano, considera que o grande desafio futuro do sector bancário são as alterações climáticas, e que têm implicações relevantes para os bancos que estão submetidos a uma pressão crescente no que respeita ao financiamento das actividades petrolíferas, por isso, adverte o redirecionar do financiamento ao sector não petrolífero.

José de Lima Massano, que interveio, via Zoom, na abertura do X Fórum Economia e Finanças, organizado pela Associação Angolana de Bancos (ABANC), considera que o tema não é novo, mas nos últimos anos tem vindo a ganhar maior protagonismo, e hoje, as alterações climáticas e ambientais, e a promoção do desenvolvimento sustentável são questões de importância incontestável na agenda dos governos, empresas, instituições.

“O que acabei de referir torna óbvio que as instituições financeiras internacionais que actualmente financiam as actividades petrolíferas estarão submetidas a pressão crescente. Aliás, existem já várias instituições financeiras e investidores muito relevantes, incluindo fundos de investimento, que não financiam nem investem no sector petrolífero”, disse.

Assim, o Governante do banco central, garante que este contexto serve também para reforçar a necessidade de diversificação da economia nacional no mais curto espaço de tempo possível.

“Faço referência ao sector petrolífero, por ser o que directamente mais nos afecta, mas as actividades de risco elevado no âmbito das alterações climáticas e ambientais são bem mais abrangentes, reforçou.

Massano refere também que, dentre as entidades com a atenção focada no tema das alterações climáticas e ambientais estão vários bancos centrais e supervisores dos sistemas financeiros, pelo papel preponderante que as instituições financeiras têm no desenvolvimento económico e pelos riscos que estas alterações trazem para a resiliência dessas instituições e consequentemente a estabilidade do sistema financeiro.

“No sector financeiro, os riscos são cobertos pelo capital, e assim, uma consequência inevitável da identificação destes riscos é a atribuição, pelos bancos centrais e supervisores, de requisitos de capital para cobertura dos riscos climáticos e ambientais nas carteiras de crédito das instituições financeiras, como o fazem para todos os outros riscos”, apontou.

Entretanto, Maria Uini Baptista, presidente do Conselho de Administração da Comissão do Mercado de Capitais (CMC), que aponta cinco pontos chaves, convida os bancos comerciais a reflectir e agir sobre a forma como gerem os seus balanços, propondo-os a procurar outras formas de investimento para além dos títulos da dívida pública.

“Os últimos dados do BNA mostra-nos que cerca de 35% dos activos da banca estão concentrados em título da dívida pública, portanto, essa informação denota a necessidade de mudança, a necessidade de reflexão a nível dos boards da banca sobre como alterar a forma de investimento e de diversificação dos activos”, apontou.

Outro ponto levantado por Uini Baptista, tem a ver com a zona de conforto. A Líder da CMC entende que poucos bancos têm investido em iniciativas de digitalização e simplificação de produtos e serviços financeiros, sendo que não são conhecidas as percentagens dos investimentos da banca na inclusão financeira.

A comunicação também é outro ponto que precisa ser melhorado. “A comunicação necessária não só a nível dos bancos e dos reguladores, mas também entre bancos no sentido de gerirem as expectativas regulatória e o desenho de uma framework de desenvolvimento económico do País que inclua a banca de forma activa”, explica.

Em termos de Compliance, Maria Uini Baptista esclareque que, mais do que o comprimento da lei e das responsabilidades da banca, é necessário que o comprimento seja operacional e factual, tendo em conta os impactos e os riscos associados.

“Bancos a actuarem num ambiente de restrição”.

“Os bancos actuam num ambiente de muita restrição, e sendo restritiva, o regulador da actividade monetária passa uma mensagem de que o momento não é propício para responder o crédito, afirmou Juvelino Domingos, Director Coordenador do Banco Angolano de Investimento (BAI) Ainda assim, segundo Juvelino Domingos, os bancos têm feito um esforço no sentido de mesmo diante das restrições continuarem a atender as solicitações de crédito por parte dos clientes.

Entretanto, o Director Coordenador do BAI, refere que não se pode, simplesmente, olhar para aquilo que os bancos fizeram, mas é necessário que se tenha em conta o impacto do crédito concedido até ao momento.

“É necessário que os tomadores de créditos apliquem os fundos nos projectos preconizados que nos garantem aumento das receitas e conseguem fazer o reembolso de crédito para que o banco consiga ter condições de financiar novos projectos, e assim fazer com que o dinheiro circule na economia”, rematou.

“A participação dos bancos vai sempre passar pela intermediação, captação de depósitos e concessão de crédito, é a razão pela qual os bancos existem”, interviu Calisto dos Santos Ebo, Administrador Executivo do Banco Yetu.

“O que nós podemos trazer de novo é discutir um sistema. Nós precisamos na verdade discutir o modelo de crescimento económico que contempla também a intervenção dos bancos, e seria através deste modelo que nós conseguiríamos garantir a participação ou a intervenção da banca como se quer”, acrescentou.

Segundo Calisto dos Santos Ebo, o nível de poupança no sector financeiro bancário diminuiu mais de 40% nos últimos dez anos, colocando em causa a capacidade dos bancos de concederem crédito à economia real.

O Administrador do Yetu afirma que as empresas precisam perceber que os bancos em Angola actuam com o mesmo rigor que outros bancos no exterior, apesar de os nacionais não terem os mesmos recursos.

Digitalização

O Presidente da Comissão Executiva (CEO) do Banco de Fomento Angola (BFA), Luís Gonçalves considera que a digitalização é um processo inevitável, aponta como exemplo o mercado europeu, em que se verifica a redução da rede de balcões nos últimos tempos.

“No caso de Angola, os balcões são muito caros e o processo é bem mais complexo. Há uma série de serviços que deveriam ser fornecidos por entidades públicas ou por outros parceiros, mas que não estão disponíveis e acabam por ser os bancos no dia-á-dia a terem que suprir este desafios, e isto encarece brutalmente a operação e a qualidade do atendimento a nível do balcão”, sustentou.

Luis Gonçalves esclarece que é necessário entender que o controlo de custos é importante.

“Se se quer que os bancos sejam uma parte importante e activa na economia é preciso que sejam sólidos, e para ter solidez é preciso que tenham bastante capital, que com que faz a componente mais digital seja aquela que nos permite chegar mais rápido de uma forma menos onerosa seja para o cliente acima de tudo para própria organização”, apontou.

Já o Presidente da Comissão Executiva (PCE) do Banco Caixa Geral Angola, João Pires, considera que o sector bancário está a avançar decididamente, como um todo, no campo da digitalização através de iniciativas que estão a ser desenvolvidas a nível de todo o sector.

Maria Uini Baptista considera que a digitalização dos serviços financeiros é um caminho inevitável que o País tem de percorrer, sendo que os indicadores de recuperação demonstram a necessidade deste desenvolvimento a uma escala mundial.

“Esta digitalização poderá promover alterações organizacionais bem como impulsionar actividade na bolsa de valores”.

O X Fórum Economia e Finanças, foi realizado, esta semana, pela Associação Angolana de Bancos (ABANC) sob o tema, “O Papel dos Bancos na Recuperação Económica de Angola”.

A mesa redonda do Fórum foi constituída por Luís Gonçalves, PCE do Banco de Fomento Angola (BFA), Calisto Ebo, Administrador Executivo do Banco Yetu, Juvelino Domingos, Director Coordenador do Banco Angolano de Investimento (BAI) e João Pires (BCGA), com moderação de Marco Souto, representante do FMI em Angola.

Bancos desembolsam 680,78 milhões USD Os 24 bancos que cumprem o Aviso n.º10/2020, de 03 de Abril, concederam até o mês de Outubro crédito correspondente ao total de 593,09 mil milhões kz, cerca de de equivalente a 993,44 milhões USD.

Deste montante, foram desembolsados 406,43 mil milhões Kz (equivalente a 680,78 milhões USD), representando um acréscimo de 20,39 mil milhões Kz (5,28%) face a Setembro de 2021.

No mês Outubro deste ano foram desembolsados um total de 22 novos créditos ao sector real da economia, perfazendo um total de 345 créditos concedidos, dos quais 250 com desembolsos efectivos. Dez bancos destacam-se ao concentrar 76% dos projectos aprovados, nomeadamente, o BAI (31); BNI (26); BIC (22); YETU (21); KEVE (19); SBA (17); BCGA (14); BCS (14); BFA (14) e BMA (12).

Relativamente ao montante desembolsado por dimensão de empresa destaca-se as Grandes empresas com 189,01 mil milhões Kz (48,70%), seguida das Médias empresas com 166,75 mil milhões KZ (42,96%) e das Micro e Pequenas empresas com 16,91 mil milhões Kz (4,36%) e 15,48 mil milhões Kz (3,99%), respectivamente, desde a entrada em vigor do Aviso.

Em termos de número de projectos realça-se as Médias empresas com 113 projectos (46,50%), seguida das Pequenas empresas com 64 projectos (26,34%) e das Micro e Grandes empresas com 34 projectos (13,99%) e 32 Projectos (13,17%), respectivamente.

Relativamente ao número de novos postos de trabalho, até Setembro de 2021 foram criados um total de 27.500 novos postos de trabalho, com realce à “Indústria de bebidas”, “Indústria alimentar” e “indústria de transformação”, responsáveis por 63,32% do total de novos postos de trabalho.

Em termos gerais, até o mês de Outubro de 2021 o montante aprovado pelo sector bancário correspondia a 333,78% do valor mínimo a conceder até o final do ano de 2021, sendo que o efectivamente desembolsado representava 228,73%.