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A vez de África: lições e contributos da crise

O Dia de África foi instituído há 57 anos, e a pandemia de COVID-19 traz (ainda mais) à superfície as dificuldades particulares do continente e das suas empresas e economias. Mas há bons exemplo a seguir e lições a retirar,
para que, depois da tempestade, África fique mais resiliente.

Luanda /
29 Mai 2020 / 14:02 H.

O Dia de África faz 57 anos segunda-feira, 25 de Maio, mas sem muito para celebrar em termos do desenvolvimento de infra-estruturas e progresso socio-económico previstos pelos fundadores das independências, defende ao Mercado o ex-ministro dos Assuntos Presidenciais da Gâmbia, Momodou Sabally. Em declarações exclusivas, o orador internacional assume que, apesar do contexto, não há dúvida de que o continente é a nova fronteira para o desenvolvimento económico global. E as superpotências mundiais lutam pela influência na região.

“As taxas de natalidade e os dividendos entre a população jovem e o povo africano representam um futuro mais promissor para África, pois a inovação nas tecnologias modernas, especialmente nas TIC, permite que o continente dê um salto no processo de desenvolvimento”, defende.

Na medicina, as empresas africanas têm uma oportunidade soberana para explorar a riqueza da flora com fins medicinais, até para acudir outras regiões. A pandemia da COVID-19 traz à luz essa realidade, ainda que os especialistas prevejam taxas de mortalidade e sofrimento massivos no continente. Contra as espectativas, os índices de infecções e mortalidade na região ‘berço da humanidade mantêm-se abaixo das apresentadas na Europa e América.

“Encontrámos a primeira cura plausível para a COVID-19 em Madagáscar, e o Senegal celebra a invenção do kit de teste mais rápido ao menor preçobaixo”, realça acrescentando que “podemos ser o farol da esperança”, tal como estes países “provaram ser nestes tempos sombrios”.

O responsável alerta que, caso a cura malgaxe seja aceite pelo mundo, África poderá alcançar enormes ganhos económicos, associados aos proveitos que os testes senegaleses já colhem no mercado global. Estes lucros podem alavancar a Investigação e Desenvolvimento no continente e criar o ambiente para introduzir as invenções e serviços africanas nas plataformas comerciais globais.

Entretanto, a indústria da aviação nos países africanos, como em todo o mundo, foi muito afectada, assim como os serviços que lhe estão associados, com uma situação de paralisação, nota o economista tanzaniano Bernard Msekwa. Para o também analista de aviação, o efeito é “tão grande que, quando a COVID-19 desaparecer, alguns prestadores de serviços da indústria poderão não voltar a funcionar de forma eficiente”.

A maioria das companhias, com excepção da Ethiopia Airlines, enfrenta, enormes prejuízos, tendo de receber subsídios governamentais para sobreviverem. A crise levou a que muitos hotéis mandassem trabalhadores para casa por tempo indeterminado com o pagamento de apenas um mês de salário. Muitos foram persuadidos a solicitar o despedimento, esperando benefícios de regimes de pensões.

Também os fornecedores de alimentos viram o negócio derrapar, perdendo clientes directos e de grande impacto, como hotéis e empresas de catering para aviões.

O tremor da indústria da aviação abalou todos os serviços da cadeia turística, incluindo o serviço de transporte, forçado a reduzir drasticamente frotas e a aguardar pelo relançamento da indústria da aviação. “Esperemos que a pandemia desapareça, para bem de todos os sectores da economia, mas a indústria da aviação levará não menos de seis meses a estabilizar nos diversos níveis”, antecipa.

De acordo com o economista da RDC residente na Alemanha, Emmanuel Alexandre, embora os Estados africanos tenham avançado rapidamente com medidas de prevenção semelhantes às do resto do mundo para controlar a propagação do vírus, evitando assim o pior cenário, as empresas em África fazem depender a sua sobrevivência da manutenção de tais medidas por um longo período, sobretudo caso de o nível de infecção comece a aumentar.

Na Europa, potências como a Alemanha e a França não só concederam fortes subsídios de compensação salarial a empresas privadas (por exemplo, até 67% do salário-base na Alemanha), como também propuseram um pacote de recuperação de pouco mais de 500 mil milhões de euros para os países (concedidos sob a forma de subsídios e não de empréstimos) para manter a economia da região.

Um momento decisivo

“É evidente que África, não estando numa posição tão privilegiada, é deixada, por um lado, para contar com a remissão da dívida dos grandes credores (China, Banco Mundial, FMI, etc.) e, por outro, para contar com a ajuda dos países parceiros (UE, China e EUA, principalmente)”, assinala Emmanuel Alexandre.

Com as perturbações comerciais e a falta de ajuda por parte dos governos, as empresas atravessam um momento particularmente decisivo durante a pandemia, o que as coloca num estado específico em que todas as partes interessadas internas (accionistas, gestores e trabalhadores) devem liderar a partir da frente “pensando fora da caixa”, mas de forma sustentável.

“No futuro, assistiremos a três tipos de empresas, dependendo da forma como pensam, se comportam e seguem em frente. Em primeiro lugar, as ‘empresas que aguardam’, aquelas que simplesmente resolverão numa abordagem de ‘esperar para ver’, pois esperam que tudo volte a ser o que era antes”, diz. Depois, as empresas ‘discípulos’, que reconhecem que as coisas têm de mudar, mas preferem seguir as tendências do sector ou o que os seus pares estão a fazer à medida que são tomadas novas medidas. Por último, as ‘visionárias’, as líderes, que abraçam a mudança, adaptam-se e transformam a situação numa oportunidade de serem ‘melhores’ para as pessoas, o planeta e o lucro (por ordem de importância).

“As empresas africanas, nas actuais circunstâncias, devem esforçar-se por ser as visionárias, para assegurar uma existência sustentável a longo prazo, sendo empresas ‘melhores e adoptando novos comportamentos”.

Integração: o velho dilema do futuro do continente.

Quando se fala de integração regional, o destaque recai sempre sobre o comércio livre, um tema bastante controverso que, por um lado, é o favorito dos economistas e dos decisores políticos, mas, para o público em geral, pode até ser difícil de compreender, pois grande parte das pessoas nem sequer compreende como funciona, os seus prós e os contras, destaca o economista do Congo Brazzaville, Dom Bachibonge.

“A integração regional pode ser uma vantagem importante para as empresas africanas, pode ajudá-las a ter acesso a um enorme mercado e a praticar economia em grande escala e, assim, melhorar os seus rendimentos, pode ajudá-las a aceder facilmente às novas tecnologias”, elucida.

“Pode ajudá-las a reduzir custos de produção e a desenvolver novos produtos, porque terão fácil acesso a produtos, matérias-primas e culturas acessíveis apenas em outros países da região”, acrescenta.

O economista alerta para as desvantagens, apelando a uma forte reflexão sobre o tema, principalmente para o impacto sobre as pequenas empresas, porque, mesmo que os benefícios pareçam substanciais e atractivos, a grande desvantagem que as empresas africanas terão de enfrentar é a concorrência desleal. Muitas não podem competir com as grandes multinacionais, mesmo no mercado nacional, e como existe uma grande falta de infra-estruturas de transportes em África, incluindo infra-estruturas nacionais internas, as multinacionais irão beneficiar ou lucrar mais com a integração do que as pequenas empresas, afirma.

“É mais fácil viajar de Pretória, África do Sul, para Luanda, Angola, do que de Goma, na RDC, para Kinshasa, na RDC, ou atravessar duas províncias rurais de Angola. As grandes empresas também podem usar as suas influências para comprar terras e expulsar os camponeses e pequenos empresários que se encontram na pobreza”, alerta.

O responsável sugere que os governos e os responsáveis políticos utilizem as leis que há, ou aprovem leis contra a concorrência desleal, para ajudar as pequenas empresas a competir com as grandes multinacionais. “Isto ajudá-las-ia a tirar partido das muitas vantagens oferecidas pela integração, porque o objectivo da criação destas zonas é, acima de tudo, permitir a circulação dos bens produzidos pelos produtores da zona e, consequentemente, uma melhoria das condições de vida de muitas pessoas locais, é injusto que um país da zona possa consumir peixe da China quando há um país ou região onde é abundante” conclui.

No caso de Angola, o economista Lello Francisco realça que, sobre o assunto muito já foi dito. Contudo, o debate continua aceso: de um lado posicionam-se os optimistas, defensores da adesão imediata de Angola à zona de livre comércio da SADC, que argumentam não haver mais tempo a perder, o País já esperou demasiado, as condições não foram criadas – é evidente que pouco ou nada foi feito neste sentido; e, do outro, estão os cépticos, que entendem que as empresas angolanas não possuem músculos suficientes para aguentarem a passada, própria da alta competição, e participarem, de forma exitosa, numa zona de livre comércio bastante exigente, com empresas experientes, competitivas, com níveis elevados de produtividade, em muitos casos similares às das economias do primeiro mundo e que apresentam já uma boa inserção nas cadeias globais do comércio.