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47 anos depois da “Tomada da Banca” intervenientes do sector apontam preocupações e desafios

Do lado da banca, uma das preocupações tem que ver com a relação de correspondência com os bancos internacionais e a solicitação da equivalência de supervisão feita pelo BNA à União Europeia. Para os trabalhadores bancários, as privatizações e fusões têm causado apreensão, mas apontam a digitalização como um grande desafio a enfrentar, que por vezes desemboca em descontinuidade de postos de trabalhos. Já o consumidor, queixa-se da má qualidade do atendimento e dificuldade no acesso ao crédito.

Luanda /
15 Ago 2022 / 09:03 H.

Passados 47 anos desde a “Tomada da banca”, o Mercado colheu as principais dificuldades e desafios dos intervenientes do sector bancário.

A “Tomada da Banca” deu-se em 14 de Agosto de 1975, em preparação à proclamação da independência de Angola . P ara salvaguardar os interesses económicos e financeiros do País, o Governo de Transição de Angola, através do Despacho Conjunto nº. 80/75, dos Ministérios do Planeamento e Finanças e da Economia, suspenderam os Órgãos Sociais dos Bancos Comerciais, nomeando-se Comissões de Gestão que passou a gerir os bancos comerciais em substituição da administração de cada banco (Comissão Coordenadora da Actividade Bancária – CCAB).

De lá para cá, os intervenientes do sector citam melhorias significativas, mas também apontam preocupações que devem ser tomadas para o melhor desempenho do “gigante” do sistema financeiro.

Para o presidente da ABANC - Associação Angolana de Bancos, Mário Nascimento, a banca angolana tem registado melhorias e avanços significativos no papel que tem exercido para o desenvolvimento económico do País e na prestação de serviços aos seus clientes.

“ Tem se registado melhorias no aumento do crédito à economia, quer ao Estado e ao sector Privado, bem como no aumento dos serviços e produtos bancários ( canais de distribuição)”, refere.

O responsável aponta que a nível das instituições bancárias, o País tem registado também melhorias significativas, na capitalização dos bancos, nos sistemas de controlo interno, na governação corporativa, bem como na prestação de informação. Mário Nascimento, diz que estas melhorias têm tornado os bancos angolanos mais sólidos e resilientes.

O Presidente da ABANC cita três grandes preocupações dos bancos que operam no sistema financeiro nacional: “a primeira é relativa a implementação e materialização da Nova Lei das Instituições Financeiras, da qual resultaram impactos na capitalização dos bancos, no sistema de controlo interno ou ainda na Governação corporativa; a segunda preocupação dos bancos angolanos é a sua relação de correspondência com os bancos internacionais, principalmente os seus correspondentes dólares”.

A terceira preocupação é a precessão de solicitação da equivalência de supervisão solicitada pelo BNA a União Europeia, o impacto que a mesma tem no sistema financeiro angolano, trazendo novas exigências mais rigorosas e complexas aos bancos, bem como ao próprio regulador (Banco Nacional de Angola - BNA).

Por sua vez, o presidente do SNEBA – Sindicato Nacional dos Empregados Bancários de Angola, Filipe Makengo, afirma que as preocupações e necessidades dos bancários são iguais aos dos demais trabalhadores do País, referindo que a inflação e instabilidade de preços de bens e serviços, também “apoquentam os bancários”.

“A instabilidade do emprego que o mundo vive e se assiste em todas as geografias, também aflige o trabalhador bancário. A redução de postos de trabalho, o estabelecimento de metas abusivas na banca, tira o sono e o sossego ao trabalhador bancário, que vive dias de incertezas, porque não sabe se amanhã voltará a entrar na mesma porta e sentar-se na mesma cadeira”, aponta.

Segundo Filipe Makengo, a digitalização é um outro problema “que a miúdo vai criando situações desagradáveis”, por vezes desembocando em descontinuidade de contratos de trabalho, por virtude da redução de postos de trabalho.

Por outro lado, segundo Filipe Makengo, as fusões e privatizações, também vão propiciando os despedimentos. “Logo, são situações que não deixam o bancário sossegado”.

Já o presidente da ACONSBANC - Associação de Defesa do Consumidor de Serviços e Produtos Bancários , Nelson Prata, enumera seis grandes preocupações: Má qualidade do atendimento; Dificuldade no acesso ao crédito; falta de domínio ou conhecimento por parte dos funcionários bancários, sobre os produtos e serviços disponibilizados pelos Bancos; Falta de critério no bloqueio de contas ou cativo de saldo; Incumprimento reiterado do dever de informação por parte dos bancos e Violações constantes do dever de sigilo bancário.

Os desafios

Para o representante dos banqueiros, Mário Nascimento, os próximos anos, a banca vai continuar a ter vários dos desafios que actualmente já enfrenta, como o processo de solicitação de equivalência de supervisão, a temática da correspondência, a digitalização na banca, de processos e de canais de distribuição, a adaptação dos anexos ao surgimento de outras instituições financeira não bancárias que prestam serviços que os bancos prestam aos seus clientes, gerando também por esta via um ambiente mais competitivo e concorrencial.

“ Continuará a ser preocupação e desafio dos bancos o aumento da disponibilidade e da qualidade de serviços e produtos aos seus clientes”, apontou.

Já os trabalhadores bancários esperam formar um sistema financeiro/bancário à altura da banca dos países mais desenvolvidos, organizada e credível na arena internacional.

“Uma banca ao serviço da economia nacional e da sociedade, que responda às preocupações do tecido empresarial nacional, que apoie organizadamente os projectos do Executivo e com com gestores que respeitem as Leis do País e convenções internacionais que regem a actividade bancária mundial”, aponta Filipe Makengo.

O presidente do sindicato dos trabalhadores, espera ainda ter uma banca que ajuda o “Banco dos bancos” na acção de supervisão, que respeita o instrumento que regula as relações laborais no sector, o ACT- Acordo Colectivo de Trabalho ( um instrumento fundamental para redimir os conflitos e de justiça da defesa dos interesses dos trabalhadores).

Nelson Prata, representante do consumidor bancário, aponta que os 47 anos da tomada da banca, são comemorados sobre o manto de uma banca angolana cada vez mais robusta e sólida.

“Todavia, não podemos esquecer que não existe banco sem clientes. O grande desafio, que deixamos para os bancos comerciais e para o BNA, é de olharem cada vez mais para as preocupações dos seus principais Activos , que são os clientes”, referiu.

O que a “Tomada da banca” representa para o sistema financeiro.

Para o representante dos bancos, Mário Nascimento, a data de 14 de Agosto representa para a banca angolana e para os bancários angolanos o dia em que nós enquanto país independente assumimos o controlo do sistema financeiro.

“Esta data tem um significado que extrapola o sistema bancário, foi a tomada da banca, como é conhecido o acto de transferência e controlo dos bancos para governo da República de Angola, agora enquanto país independente, representa a materialização de um dos eixos do exercício da nossa soberania”, afirmou.

Para o Sindicato Nacional dos Empregados Bancários, a “tomada da banca” é uma data indelével que não pode ser esquecida e que todo o bancário deve ter em conta e rever-se nela, o que não acontecesse Angola, uma vez que também é celebrado o dia do trabalhador bancário.

“O 14 de Agosto de 1975, criou as premissas que permitiram que o então Banco de Angola, se mantivesse em pleno funcionamento, sob coordenação de quadros angolanos, apesar de inexperientes, mais responsáveis no acatamento das orientações que os órgãos superiores dos pais naquele período de transição emanavam”, disse.

Por sua vez, o presidente da ACONSBANC, Nelson Prata, afirma a “Tomada da Banca” será sempre um marco para o Sistema Financeiro Angola e, em particular para o sector bancário.

“É uma data importante não só para os Bancos e para os funcionários bancários, tendo em conta, que na mesma data se comemora o dia do trabalhador bancário. Para a ACONSBANC, enquanto representantes dos clientes bancário, nos associamos as fesctividades, não apenas para criticar, mas, também para reflectir com todos os intervenientes do sector, sobre as conquistas e sobre o que deve ser melhorado de modo a se elevar cada vez mais, os níveis de satisfação dos clientes bancários de um modo geral”, apontou.