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“Regresso a UNAP representa uma homenagem à paz e ao amor”

Angola /
29 Jul 2019 / 10:42 H.

Pela primeira vez no Camões, trata-se de um convite da casa ou uma iniciativa da sua curadoria?

Sei que o Dominick Tanner (Co-Curador desta exposição junto com Nefwani Jr e Evandro Guia) já teve várias conversas com a Dra Teresa Mateus no passado. Mas também sei que a agenda do Camões é muito disputada. Em 2019, finalmente, proporcionou-se esta primeira oportunidade de expor neste Centro Cultural Português. Por terem acolhido esta exposição, agradeço a Dra Teresa Mateus em particular, assim como a sua equipa: Iolanda, Helena, Rosa, Emanuel e Sacerdote por todo o apoio.

Decidiu homenagear a UNAP fora da UNAP por ser o que faria mais sentido ou a mera perspicácia de Kapela?

Esta exposição ´Regresso a UNAP´ representa uma homenagem à Paz e ao Amor (´Luvuvamu + Nzola´ em Kikongo). Um regresso espiritual ao lugar que para mim era a ´Casa dos Artistas´. Mesmo com os problemas que lá encontrei e aonde por vezes fui tratado como clandestino e aonde os meus livros e algumas obras foram roubadas, fui muito feliz na UNAP. Sou ainda membro da UNAP, e trago ainda a UNAP dentro de mim, dentro do meu espírito, e levo a memória da UNAP para todo o lado, assim como a minha identidade.

Trata-se de uma exposição inédita. Quanto tempo levou a prepará-la?

Sim, tento com que cada exposição seja diferente da anterior. Esta demorou cerca de cinco a seis meses a preparar, em residência artística no ELA por quem sou representado e onde tenho o meu atelier. No passado, nem sempre o meu espírito foi bem compreendido, mas nunca julguei quem me tentou cortar e mesmo destruir, e quem me exilou para o Beiral. Sobretudo, nunca deixei de fazer o meu trabalho - o trabalho que Jah (Deus) me deu o dom de fazer. Esta exposição é graças a Ele. E tenho novos projectos previstos para 2020.

É conhecido pela sua forma única de produção de arte através da combinação de objectos díspares para a criação de novos contextos. Do que é feita esta exposição?

Prefiro citar a Professora Teresa Matos Pereira que escreveu: “o acúmulo e mistura de objetos pertencentes a uma esfera quotidiana (... revistas, fragmentos de espelhos, ... publicidade, ... ícones da cultura popular, objetos kitsh, ... , etc.) símbolos religiosos e políticos (crucifixos, estatuetas nkisi, máscaras, imagens de santos católicos, retratos de Agostinho Neto, Eduardo dos Santos ou Che Guevara...), propõe uma recriação, transfiguração e singularização contantes do espaço vivencial ao mesmo tempo que religa diferentes dimensões do ser no mundo.”. Os seis retratos que falam sobre os três Presidentes de Angola e suas familiares, retratam sistemas de liderança e poder através da alegoria das mascaras tribais Chihongo (homem) e Mwana Pwo (mulher), que são nossas. Os meus auto-retratos falam sobre o ser humano na sua pluralidade. Existe influência da Escola ´Poto-Poto´ na escolha das cores e das auréolas, assim como obras desta minha primeira técnica.

Como se entende o único vídeo da exposição?

Este vídeo é do Cineasta Angolano Nguxi dos Santos, feito em 2002 e que me dá imenso prazer em ver e rever porque sou transportado de volta para a UNAP, e a quem agradeço pela camaradagem. Uma nota de agradecimento também à fotografa Malocha pela cedência das sete fotos nesta exposição.

O que tem a dizer sobre a exposição colectiva, “Pai grande nosso, tu és”, um singelo tributo a si pelo seu renascimento e instinto peculiar de sobrevivência?

Já foram feitas duas edições, dois tributos. Sou muito agradecido ao Dominick e a todos que me visitam e me homenageiam. É um milagre.

É assim que se considera, o “Pai grande”?

Eu não peço, nem espero nada. Deixo tudo para Jah (Deus). O público e a história é que irá responder a isso. Mas “Pai Grande” é um termo que o meu galerista e Amigo Dominick Tanner cunhou. Fico muito contente com essa homenagem. Acredito que seja porque na UNAP cheguei a conviver com muitos Artistas Angolanos com quem interagi e colaborei. Numa primeira fase: António Gonga, Lino Damião, Kabis Lemos, e Marcela Costa. Numa segunda fase: Ihosvanny, Marco Kabenda, Kiluanje Kia Henda, Rasta Congo e Fernando Alvim. Entre outros. Mais recentemente Binelde Hyrcan e Francisco Vidal.

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