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Exposição colectiva cruza problemática histórico-sociais de um “Sul Global”

Promovida em simultâneo pela Galeria “This Is Not a White Cube” e a sul africana “MOMO Gallery”, a exposição “Intersections – Within the Global South” une energias, sinergias, geografias e diferentes práticas artísticas na galeria do Banco Económico. Em vésperas da inauguração, Sónia Ribeiro e Graça Rodrigues descortinaram todo o processo de curadoria desta “polinização” cultural cruzada entre os dezasseis artistas.

Brasil /
02 Dez 2019 / 10:43 H.

Como surge o projecto “Intersections - Within the Global South”?

A elaboração da proposta cultural do Banco Económico, que serve como condutor para a definição do programa anual da Galeria Banco Económico, tem em conta o contexto socio-cultural e político que a suporta, procurando responder aos desafios e necessidades presentes. Paralelamente procura contribuir para um diálogo mais abrangente com o resto do continente numa visão pan-africana, positiva, integradora, que se traduz nas questões de identidade e transculturalidade. Este projecto foi proposto tendo em conta esta dinâmica e foi pensado numa perspectiva de estabelecimento de parcerias institucionais entre Angola e África do Sul, numa partilha de ideias e recursos, e onde, pela mostra, se subentende o impacto da nova geração de artistas africanos e Brasil, de países como Angola, Moçambique, África do sul, Brasil, Burquina Faso, República Democrática do Congo e Namíbia, que procuram promover, através da sua obra, uma reflexão abrangente sobre algumas das mais relevantes problemáticas histórico-sociais vivenciadas nos seus territórios geográficos de origem.

Fale-nos do processo de selecção de artistas?

O processo de selecção destes artistas baseia-se numa visão curatorial inerente ao projecto, fundada na noção de existência de múltiplas intersecções e afinidades históricas, sociais e políticas no território geográfico a que a exposição reporta: o “Sul Global”, onde se integram os países em vias de desenvolvimento. A representatividade de alguns temas chave transversais a este território foi uma das principais preocupações no momento da selecção. Procurámos por isso reunir artistas que, de alguma forma, têm vindo a desempenhar um papel significativo na redefinição da paisagem visual do “Sul Global” e que contextualizam através do seu trabalho temas chave como: Afrofuturismo, memória colectiva, identidade, urbanidade e paisagens urbanas, recursos naturais, economia circular, ecologia, espaços domésticos, as idiossincrasias sociais ou a mobilidade inerente às grandes migrações e aos movimentos de ocupação.

Do ponto de vista curatorial, como é trabalhar com 17 artistas de diferentes backgrounds?

É um enorme desafio e simultaneamente uma experiência profundamente enriquecedora. A vastidão territorial envolvida possibilita uma produção múltipla de diálogos entre artistas de dentro e fora de áfrica. Esse factor permitem-nos lançar localmente estruturas mais robustas para enriquecer a visão dos públicos e das instituições sobre a obras de uma geração emergente de artistas que se vê a si mesmo como “global” mas que permanece atenta às premências dos seus territórios de origem.

Será uma exposição em regime rotativo? Não! A exposição é temporária, mas as obras em exibição estarão em permanência na Galeria do Banco Económico até ao encerramento da mostra em Janeiro de 2020. A nossa equipa curatorial tem vindo a explorar através da obra de alguns artistas a mutação performática dos espaços como modelo de exibição, estabelecendo a relação entre performance e instalação como paradigma de transformação formal dos espaços expositivos e de transformação relacional com o público. Interessa-nos estabelecer através desse modelo, novas pontes e fazer do espaço expositivo um espaço desafiante, dinâmico e quase interactivo, para quem o visita. Esta dimensão ficou alheada desta mostra. Não nos pareceu relevante reforçar um sentido que é já latente nas múltiplas leituras que a exposição propõe. Fazê-lo de forma directa poria também em causa uma noção de coesão que entendemos ser necessária à sua leitura.

Quais as técnicas e até quando estará patente a exposição?

A exposição procura explorar criticamente os mecanismos de criação de cânones no meio artístico ocidental, privilegiando por isso a apresentação de obras que materialmente e tecnicamente se distanciam dos suportes e dos géneros artísticos mais convencionais, como por exemplo a pintura. A ideia materializa-se objectivamente numa ausência quase total de trabalhos de pintura stricto sensu, para enfatizar este género artístico como elemento chave para a desconstrução das linguagens mais tradicionalmente instaladas no sistema global da arte contemporânea. Há por isso mesmo uma profusa diversidade de géneros, patentes na fotografia a preto e branco de

Andrew Tshabangu; na exploração de suportes e processos pictóricos e fotográficos de Luís Damião, Saïdou Dicko e Dillon Marsh, nas esculturas em aço e em papel de Pedro Pires; nas instalações em madeira de Bete Marques, inspiradas na plasticidade visual dos musseques da América do Sul; nas colagens e têxteis de Alida Rodrigues e Lizette Chirrime; nas esculturas produzidas a partir de armamento obsoletos de Gonçalo Mabunda ou nas instalações escultóricas de «objet trouvé» de Stephané E. Conradie.

Qual é a leitura que faz sobre a recepção da arte angolana na cena cultural internacional?

A arte angolana, assim como a arte do continente africano e da diáspora em geral, encontram, neste momento no território internacional um ecossistema muito propenso à sua afirmação. Essa afirmação tem-se vindo a verificar quer por via do mercado da arte, quer através da produção de um posicionamento discursivo disruptivo no contexto de um debate intelectual, pós-colonial. Os discursos sobre África permaneceram ao longo de décadas transversalmente marcados por um certo eurocentrismo cego. Uma teorização enraizada que decorre dos processos de ocupação e partilha dos territórios africanos pelos povos colonizadores, que produziram no passado uma leitura unilateral sobre a sua influência na constituição cultural e artística dos países colonizados.Reflecte-se hoje sobre a emersão de uma visão crítica do colonialismo e a importância que a diáspora africana, o mercado da arte, as colecções, as exposições, os projectos curatoriais, a investigação e o estudo de fundos documentais assumem na produção de uma renovação do discurso histórico da arte na contemporaneidade.