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“Encaro 2020 como ano intrínseco para as artes”

Cristiano Mangovo fala em entrevista exclusiva sobre a sua carreira e dos temas que o inspiram, quer ao nível da pintura quer na escultura contemporânea. Uma paixão imensa por dar uma segunda vida aos produtos que seriam descartados para o lixo, que traz a tona uma preocupação manifesta pela preservação do ambiente. Vencedor de muitos prémios, o artista plástico partilha em poucas linhas o seu trajecto e projectos.

Luanda /
17 Dez 2019 / 09:05 H.

Quem realmente é o Cristiano Mangovo Brás?

Sou um jovem angolano que representa uma nova geração de artistas socialmente focados em contribuir para uma África melhor e cada vez mais auto-consciente. Nasci na província de Cabinda em 1982. Sou o terceiro de uma família de sete filhos, família esta onde paira o dom de desenho herdado pela mãe, pois lembro-me muito bem quando o meu irmão mais velho fazia desenhos lindos, aquilo cresceu em mim e motivou-me também a desenhar, sendo que o primeiro desenho e pintura a realizar foi de capas de vídeo-cassetes e quando mostrei para a minha mãe ela adorou e incentivou-me a ter aulas de desenho.

Como foi a sua trajectória até chegar em Luanda?

Ainda criança, a minha mãe decidiu inscrever-me na escola de Artes em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, onde passei toda a minha infância e adolescência devido a instabilidade política e social que Angola enfrentava na altura. Lá fiz o médio em Escultura & Design e tive o meu diploma de graduação em Pintura na Faculdade de Belas Artes de Kinshasa. A primeira ideia que tinha era de fazer o curso de Publicidade, mas antes tive a oportunidade de visitar as faculdades de Pintura e de Publicidade, interagi-me com alguns estudantes e por fim acabei escolhendo a Pintura, porque é o que mais me identifica. Quando comecei a estudar sempre tive a preocupação de encontrar uma coisa diferente dos outros, o objectivo era de diferenciar o meu trabalho e torná-lo único, até porque o trabalho de conclusão de curso foi sobre a “Diferença entre Técnica e Estilo” e hoje vivo o meu sonho. Depois da reconciliação nacional, em 2009 os meus pais optaram por regressar para a nossa terra natal, concretamente em Cabinda e lá mesmo comecei a trabalhar como artesão. Entretanto, achei que em Cabinda estava tudo fechado e não tinha oportunidade, até aparecer um técnico da TPA que me convidou a vir para Luanda, aceitei a proposta e encontrei a ocasião para trabalhar com vários artistas mestres.

Descreva com algum detalhe o seu percurso profissional e desafios que teve de superar.

Quando cheguei em Luanda fiz uma formação de uns meses no atelier do artista plástico Narciso Nsimambote. Em seguida trabalhei com o mestre António Ana Etona e Patrício Mawete em Arte Plástico e participei em vários trabalhos sobre a cenografia urbana e performance. Comecei por participar na Copiarte fazendo trabalhos de pintura e outras artes, depois senti a necessidade de já fazer uma exposição individual, pois já aglomerava vários trabalhos, porém, não foi possível concretizá-lo devido a falta de financiamento e os altos custos que este incorporava. Tinha a minha colecção em casa e não sabia onde expor, entretanto, num belo dia ouvi um amigo que falava sobre a Fundação Arte e Cultura que apoia artistas e outros projectos, fui lá ter, apresentei o meu portefólio, fui aceite e a partir daí começou tudo. Considero a Fundação Arte e Cultura a minha casa, porque contribuiu muito para o meu desenvolvimento, assim, pela qual, sou professor desta rica instituição, onde encorajo e ensino os artistas que vão emergindo.

Quantos e quais prémios já conquistou?

As minhas obras são multifacetadas e na minha carreira promissora destaca-se a exposição individual em 2013 na Fundação Arte e Cultura, em Luanda, na qual surgiu o convite do Banco BAI, para expor no BAI Arte nesse mesmo ano. Em 2014 venci o prémio “Mirella Antognoli Argelá” da Embaixada de Itália e o prémio Ensa Arte da Alliance Française, que me ofereceu uma bolsa de estudo em Paris. Conto, portanto, actualmente com várias exposições colectivas e individuais a nível nacional e internacional como em Portugal, França, Itália, África do Sul, Estados Unidos da América e entre outros. Em 2015 exibi as minhas esculturas no Pavilhão de Angola da Expo Milão, durante os meses de Julho e Agosto, no âmbito da exposição “Seeds of Memory”. Ainda nesse período, segui para Paris, onde realizei trabalhos na Cité Internationale des Arts, no âmbito da residência artística que constituiu o Prémio Ensa Arte. A Cité Internationale des Arts dá-me a inspiração para a Colecção “Guiadores”, que expus este ano no Memorial Dr. Agostinho Neto, em Luanda.

Quem apoia os seus trabalhos artísticos?

Eu tenho tido amplamente o apoio de várias organizações, assim como obtive o apoio da Pro- Helvetia, Suisse Arts Council, Fundação Suíça para a Cultura para realizar uma instalação e performance público em Cape Town, África do Sul em 2016 no âmbito do Festival Infecting the City, ITC Sessions. Em 2017 também fui apoiado pelo Trust Bank e a Pro – Helvetia, Joanesburgo para uma residência artística na Galeria First Floor Gallery em Harare, Zimbabwe. Já em 2018 fui apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian à propósito do projecto Luanda para uma residência artística no Centro de Investigação artística, Hangar em Lisboa, Portugal. Ainda no ano de 2018, mais uma vez recebi o Prémio Ensa Arte, na categoria de grande prémio de pintura a nível nacional em Angola.

Quais são as suas ambições e o que perspectiva para o próximo ano?

Não gosto muito de falar sobre os meus planos para o futuro, porque prefiro sempre surpreender as pessoas. Quando eu preparo uma exposição individual, fecho sempre as portas do meu atelier e já não recebo mais pessoa alguma. O que posso adiantar aqui nesta entrevista é que estão a ser desenvolvidos novos projectos e no próximo ano pretendo explorar outros países como os Estados Unidos novamente e em algumas regiões da Ásia, o que me vai permitir dar um passo maior na minha carreira. Portanto, encaro o ano de 202 0 como positivo para novos projectos, um momento importante para as artes e não pretendo falar deles por enquanto.