E lá fomos nós ao Matabicho...

Uma conversa descontraída com a CEO da recém inaugurada rede de cafés Matabicho, uma degustação pelo meio e...mais não dizemos. A experiência fala por si.

15 Abr 2019 / 17:41 H.

Fomos ao Matabicho. No day after à inauguração. Todo o aparato e frenesim, próprios de um dia que se quer perfeito, deixou-nos com água na boca para descobrir um pouco mais sobre o projecto e sobre esse café que nos sorri com o seu logotipo, arrancando a boa disposição no primeiro minuto.

Combinámos às dez da manhã. Chegámos dez minutos antes e fizemos um round de “cliente mistério” para atestar a “excelência de serviço” que a marca quer comunicar como um dos seus cavalos de batalha. Resistimos à esplanada, super convidativa, acreditamos que vá estar cheia, mas entrámos decididos a ‘matar o bicho’ com algo substancial. O espaço é cosy, decorado em tons terra, com mobiliário rústico, cestos e sacos de serapilheira a apelar ao vintage, tendência que corre pela Europa, pelas Américas e pelo mundo fora. Recuperar o conforto do antigamente com um toque, muito subtil, de requinte é o que parece estar em voga.

Em frente, a vitrine. Farta. Bolos de um lado, salgados do outro, num divórcio amigável a disputar a gula de quem por ali passa. Olhámos indecisos e sentimos o sorriso da jovem Carolina. Ficamos na dúvida. Terá sido ela a inspirar a chávena. Ou vice-versa. Sorrimos também. E olhámos para o lado esquerdo onde os pães, de diferentes tipos e tamanhos, chamavam por nós, um apelo irresistível ao som de um jazz de fundo naquele que é o primeiro Matabicho da cidade.

Aguardávamos o serviço quando o wall, cheio de molduras, chamou-nos a atenção. Entre filmes e pinturas, O Padrinho e a Mona Lisa, fomos despertados pelo bom dia da ceo. Cláudia Silva chegou a tempo de tomar o café connosco, hoje já sem o vestido à Grace Kelly com que inaugurou o seu espaço, hoje já de mangas arregaçadas num casual chic de quem quer pôr o serviço a andar..” Já estão servidos? Ah vejo que sim...vou pedir um chá para mim”, disse decidida, enquanto nos indicava um recanto mais confortável para o nosso tête a tête Não resistimos à pergunta “Stressada...?”. “Já não. Já está aberto, agora é seguir em frente”.

Pedimos um flashback. Resumido, entenda-se, para encontros informais, conversas informais. E não queríamos sair desse registo bom. O pão veio quentinho e o chá de frutos vermelhos da nossa entrevistada também. “O desafio foi-me lançado em Abril, faz agora um ano. Em Maio aprovámos a marca, depois veio o espaço que acertámos em Setembro e desde então, tem sido uma loucura, entre fornecedores, equipamentos, produtos, degustação e tudo o que se possa imaginar que está por trás desta cafeteira”. Abre os braços e aponta à volta. Atrás do balcão o staff continua a trabalhar num ritmo monocórdico de quem já está rotinado...será? “Apostámos muito na formação, de outra forma seria impossível”, explica, “os gerentes fizeram formação on the job na Jerónimo Martins, em Portugal, como sabem, eles têm uma grande experiência nesta área, e a restante equipa fez diversos workshops com uma empresa local especializada em atendimento público. Fomos também cuidadosos no recrutamento, no perfil do candidato, preferencialmente já com alguma experiência, para além de promovermos estágios aos finalistas da Escola de hotelaria”.

Cláudia revela-nos que em Fevereiro já estava tudo a postos para a abertura, mas um mês é fundamental para fazer testes, afinar procedimentos e prestar o melhor serviço ao cliente.

Croissants com chocolate, caracol com frutos secos e passas, queques, mil folhas, palmiers de fodas as formas e feitios e pastéis de nata. Ou então, croquetes, chamuças, empadas, coxas de galinha. E ainda refeições para take-away ou consumo na loja, desfrutando de um ambiente que se pretende diferenciador em Angola. ”Não temos espaços como este no nosso país. Respeito muito a concorrência, mas não poderíamos fazer mais do mesmo. Queríamos um espaço para pais e crianças desfrutarem e a esplanada proporciona esses momentos. Queríamos um espaço onde se pudesse falar de negócios e temos recantos privados, como este onde estamos, ideais para meetings. No fundo, queríamos um espaço simpático para todos.” Aproveitámos a deixa da simpatia e foi inevitável falar do logotipo e do ...smile. “O único briefing que fiz foi pedir que usassem uma chávena e assim que vi a proposta da equipa de designers foi amor à primeira vista. Sabia que tinha força para comunicar a marca”, esse era o seu principal foco, um defeito de formação, conforme nos confessa a licenciada em gestão e administração publica, com especialização em marketing. A aposta no digital vai ser o passo que se segue na divulgação e promoção dos produtos e serviços, como por exemplo, os menus diários a 2 mil kwanzas, os gelados e crepes aos fins-de-semana e, numa fase posterior, pequenos eventos à medida dos 72 lugares distribuídos por 160 metros quadrados de loja.

E em algum momento pensou em deitar a toalha ao chão? “Nunca. Houve momentos muito frustrantes como atrasos nas obras, não cumprimento de datas e as taxas de importação que continuam muito altas em produtos que não existem em Angola...não faz sentido, então como podemos diversificar a nossa economia...”, gesticula, chamando a atenção para aquilo que considera um handicap nos procedimentos actuais em negócios desta natureza.

A mesma garra com que diz que ainda não consegue delegar, que discute cada tostão e que está sempre no corre-corre. O seu telemóvel não pára e nós, nós terminámos o pequeno-almoço e pedimos-lhe uma sugestão, um ‘menu ceo’ para degustarmos, desta vez, no segundo Matabicho que já está a caminho. A resposta, na ponta da língua, “Batido de beterraba com maçã e cenoura, pão com chouriço e queijo e... saladas, as melhores do mundo”, brinca, não deixando de reiterar a importância da sustentabilidade e da responsabilidade social nos dias que correm: “Tudo o que não é consumido na cafetaria, nós oferecemos, diariamente, a uma instituição, porque damos valor ao alimento e sabemos as necessidades de muitos.”

Um gesto nobre que, ao final do dia, faz toda a diferença para ‘matar o bicho’ a quem precisa. É a cereja em cima do bolo...