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Nobel de Literatura renasce com dois vencedores

Depois de ter sido entregue ao japonês, Kazuo Ishiguro, em 2017, o prémio interrompe o interregno de um ano, com dois nobéis num ano, como que a compensar o defeso, provocado pelo escândalo de corrupção e assédio no interior da Academia Sueca.

Japão /
11 Out 2019 / 09:13 H.

As casas de apostas para o Nobel da Literatura 2019 falharam ao colocar a poeta e ensaísta canadiana Anne Carson em primeiro lugar entre os favoritos, numa lista que colocava a escritora e activista polaca, Olga Tokarczuk, na quarta posição. Mas, além de surpreender a todos, ao sagrar-se vencedora do prémio mais prestigiante da literatura, a escritora vence o nobel de 2018, e um outsider, Peter Handke, um escritor austríaco que ninguém dava por ele, arrebata o nobel de 2019.

Os vencedores do prémio Nobel da Literatura referentes a 2018 e 2019, foram anunciados ontem, em Estocolmo. O motivo da duplicidade de troféus está ligado ao cancelamento da cerimónia em 2018, após a prisão do marido de uma integrante da Academia, após diversas confusões internas e renúncias resultadas de acusações de má conduta sexual, negligência financeira e diversos vazamentos de informação. A decisão veio após 117 anos de premiações anuais ininterruptas.

Olga Tokarczuk e Peter Handke devem receber, além da estatueta, o 914 mil USD. Antes do anúncio dos vencedores havia uma expectativa à volta da escolha, porque a Academia queria evitar mais controvérsias. Os autores foram nomeados por antigos laureados. Depois disso, o grupo de membros da Academia foram convidados para duas votações, além de uma extra feita por um comité especial.

Tokarczuk é décima quinta mulher a receber o Nobel de Literatura desde a criação do prémio em 1901. Foi premiada pela “sua imaginação narrativa que, com uma paixão enciclopédica, simboliza a passagem de fronteiras como forma de vida”, afirmou em Estocolmo o secretário da Academia Sueca, Mats Malm.

“Herdeiro de Goethe” para os académicos suecos, Peter Handke é premiado por uma obra “repleta de ingenuidade linguística que explora a periferia e a singularidade da experiência humana”. Autora de uma dezena de livros, Olga Tokarczuk, 57 anos, é considerada na Polónia a escritora mais talentosa de sua geração. As suas obras estão traduzidas em mais de 25 idiomas.

O portefólio de obra vai do conto filosófico ao romance policial de tom ecológico, passando por um livro histórico de 900 páginas, “Os Livros de Jacó” (2014). “Estou surpresa e feliz, e é importante para mim receber o prémio no momento em que a Academia sueca inicia uma nova era”, declarou a escritora à agência sueca TT.

Identificada politicamente com a esquerda, ecologista e vegetariana, a escritora, que geralmente usa dreadlocks, não hesita em criticar a política do actual governo nacionalista conservador do Partido Direito e Justiça (PIS).

Igualmente engajado, Handke, 76 anos de idade, publicou mais de 80 livros e é um dos autores de língua alemã mais lidos e traduzidos do mundo. Publicou sua primeira obra em 1966, “As Vespas”, antes de se tornar famoso com o livro “O medo do goleiro diante do pénalti”, em 1970.

Handke também é um intelectual que luta contra as convenções, ao preço de enormes polémicas, principalmente por causa de suas posições pró-sérvias. Em 2006, causou alvoroço ao participar do funeral do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, acusado de crimes contra a Humanidade e genocídio. “O Nobel de Literatura? Deveria acabar. É uma falsa canonização que não representa nada para os leitores”, afirmou Handke há alguns anos.

No entanto, segundo a Academia que telefonou para ele hoje, o escritor afirmou estar muito feliz e assegurou que iria buscar o prémio de o equivalente a 830.000 euros, uma medalha e um diploma, durante a cerimónia que acontecerá a 10 de Dezembro próximo, em Estocolmo.

O último vencedor do Nobel de Literatura foi o autor Kazuo Ishiguro. Ele foi escolhido em 2017 porque os seus “romances de grande força emocional têm descoberto o abismo debaixo do nosso sentimento ilusório da conexão ao mundo”. O autor nasceu em Nagasaki, no Japão.