“Não há objectivos finais, continuamos a contar as nossas histórias”

Nelo Teixeira faz um balanço sobre os três meses de residência, da sua última exposição, no ELA e revela que estará de 14 a 17 de Fevereiro na Feira Internacional de Cape Town.

Angola /
06 Fev 2019 / 11:57 H.

Que balanço faz da sua exposição individual, que chega ao último dia depois de três meses de exibição?

O balanço é muito positivo.

Valeu a pena, sente que o objectivo foi alcançado?

Valeu muito a pena. Trouxe os muros para esta minha exposição individual no ELA, porque eles fazem parte de mim e deste meu projecto da Chicala, que é e será sempre o meu espaço. Hoje é um espaço que foi vendido, e sinto um muro diante de mim. Esse muro dá-me vontade de emigrar. Mas em todos os países por onde passo encontro sempre a história de alguém que quer andar e não consegue, porque há demasiadas barreiras, e são essas barreiras que nós, os artistas, tanto na pintura, como na música ou na literatura, narramos todos os dias. Não há objectivos finais, mas sim objectivos contínuos de continuar a contar estas nossas histórias que fazem parte dos arquivos e da história do nosso País.

Quantas das 22 obras expostas conseguiu vender?

Vendemos oito e estão mais cinco reservadas. Mas as obras ficarão em arquivo do ELA por três a seis meses, para continuarem a ser mostradas ao público durante 2019.

Tem ideia de quantas pessoas visitaram o ELA, por sua causa?

Em torno de 300 pessoas, menos do que seria de esperar, sobretudo por causa das férias escolares e de ser fim de ano. O ELA tem um programa de visitas escolares que vai recomeçar agora em Fevereiro.

O surrealismo está muito presente nas suas pinturas.

Pretende manter este tipo de representação e estilo artístico?

Sem qualquer arrogância, as pessoas já reconhecem a minha narrativa. O estilo do Nelo Teixeira.

Qual é a história entre o tema da exposição e o bairro da Chicala? Dizem os entendidos que o Muro Vermelho é “um gesto de solidariedade para com as muitas ‘vítimas’ da transfiguração das cidades” - da gentrificação. “É a cor da exclamação pela busca de direitos e de igualdade”. Eu acho que isso acontece hoje com a emigração. As pessoas vão à procura de qualidade de vida, mas acabam por encontrar um muro, que nesse caso são as fronteiras.

As fronteiras põe em causa o direito à liberdade?

Estamos sempre à procura dessa liberdade, mas acabamos por encontrar um obstáculo no caminho. Essa é a relação do muro da Chicala. A Chicala foi vedada por uma chapa de cor vermelha. Essa vulnerabilidade levou-me a reflexões e à necessidade de documentar este período tão importante para nós, ‘chicalenses’, na história da cidade de Luanda, que recentemente festejou o seu aniversário. Foi na Chicala que me fiz homem. E de repente temos a barreira. Tenho toda a minha vida dentro desse espaço. Tal como as minhas, agrego alucinações das pessoas que estavam dentro desse muro.

Nas suas obras, costuma observar-se um conjunto de objectos de proveniência inusitada.

O que lhe vai na alma quando os recolhe?

Trabalho com despojos, objectos encontrados, alguns reciclados outros não, mas materiais que existem à volta de todos nós. Essa reutilização é como se ultrapassasse um muro para obter tudo o que é importante para a elaboração da minha obra. Comecei como pintor de automóveis, depois fui aprender carpintaria e, mais tarde, comecei a trabalhar na União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), e hoje sinto na alma que sou artista no meu pleno direito.

Consegue visualizar à partida a obra final, ou é um processo?

A obra final é um processo. As obras para este projecto foram produzidas a partir de recortes, rasgos, colagens e camadas de ideogramas - relatos visuais e fragmentos de memória da gentrificação deste importante bairro que foram vivenciadas por mim, e que ficaram registados em acervos pessoais, que agora são acessíveis para todos. A Chicala pode ser destruída, mas vive e viverá sempre dentro de mim, das minhas memórias, na minha identidade, pelo que a Chicala fará sempre parte desse processo.

Planos para 2019?

Adivinham-se novos projectos, a participação agora, entre 14 e 17 de Fevereiro, na feira internacional de Cape Town com a Galeria TINAWC, e uma exposição a solo no Centro Camões, em Julho, com Produção da AM-Art

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