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“Não é apenas uma obra ficcional, o que torna o trabalho mais especial”

Luciana Falcon, Directora da Bienal de Curitiba, descortinou ao Mercado quais os objectivos da Exposição Itinerante da Bienal de Quadrinhos, que faz paragem em Angola e está aberta ao público, a partir de hoje, no Centro Cultural Brasil Angola.

Angola /
02 Jul 2019 / 09:33 H.

Aém de Curitiba, Luanda é a primeira cidade a receber a Bienal de Quadrinho?

Já passamos por Moçambique, onde ficamos por 30 dias. Ficaremos por Luanda até ao dia 11 de Agosto e depois seguimos para Lisboa.

A escolha do Marcelo D´Salete para protagonista desta visita à África, foi propositada...

Sim, o trabalho do Macelo D´Salete é provavelmente um dos mais extensos de banda desenhada que já foi lançado no Brasil, com mais de 400 páginas, que, além dos quadrinho, conta a história de Pamares. Essa região do Nordeste do Brasil e conta a história de fuga dos negros nas fazendas e como foram construindo Palmares. É um ponto de vista muito interessante porque é contada pela primeira vez, pelos negros, já que sempre ouvimos a história do ponto de vista dos portugueses.

Trata-se de um resgate de uma história muitas vezes diminuída?

Exactamente, é um livro muito importante, e para o autor que estudou todos os temas e regiões é deverás importante vir à Angola constactar in loco todas influências do quilombo dos Palmares. Não é apenas uma obra ficcional, o que torna o trabalho mais especial, é o facto de o autor ter ficado onze anos pesquizando a história de Palmares de quase dois séculos. Para o Brasil, “Angola Janga” já é um livro didáctico porque representa um novo olhar e leitura sobre este episódio triste que precisa ser falado.

Um testemunho na primeira pessoa que rendeu uma premiação, fale-nos sobre o prémio Jabuti?

Sendo um prémio de literatura, é a segunda vez que o prémio Jabuti contempla os quadrinhos, Marcelo D´Salete, que já lançou estes quadrinhos há alguns anos, em 2018 foi agraciado com o Prémio Jabuti, um dos mais relevantes do universo editorial brasileiro.

Em que consiste a Bienal de Quadrinhos?

É um evento que acontece em Curitiba, no ano que vem vamos realizar a sexta edição. A Bienal nasceu em 2011 em comemoração aos 30 anos da Gibiteca de Curitiba, que é mais antiga do Brasil e está localizada nesta capital. Este projecto começou com muitas actividades sobre as bandas desenhadas: Exposições, palestras, oficinas, feira com poucos expositores e um público de cinco mil pessoas e actualmente temos um público de trinta mil nos quatro dias de eventos.

O que mudou de lá para cá, no formato do evento?

O evento começou como Gibicom de nome oficial e em 2016 alteramos o nome e passou a se chamar bienal, sendo realizado de dois em dois anos. Por ser um evento privado e por não termos fôlego para torná-lo anual, demanda de produção de captação de recursos para viabilizar o evento. O formato de curadoria do evento também modificou, que até 2014 era basicamente de artistas, produtores e jornalistas ligados à banda desenhada do Paraná, posteriormente implementámos a curadoria múltipla, agregando outras referências tornando-se num evento nacional, apesar de ser realizado em Curitiba.

Verificou-se essa alteração nas temáticas também?

Em 2016 começamos com o propósito da Bienal ter uma actuação um pouco mais efectiva, no sentido de falar de quadrinhos mas com um recorte, porque até então se fazia o formato de panorama de quadrinhos daquele Biénio. Neste ano o Brasil estava a passar por um momento social delicado, principalmente para as minorias e isto foi o foco dos quadrinhos, que hoje reflecte a realidade e tem um cunho muito político. Falou-se de quadrinhos feitos por mulheres, LGBTs, feito por negros e tentar entender como estávamos a ser representados em todas diversidades.

Na edição de 2018, a Bienal trouxe todas estas temáticas nos conceitos das cidades, como elas agregam e segregam para estas minorias. Qual foi o balanço final destas representações?

Apesar do quadrinho retractar cidades fictícias, não foram cidades acolhedoras, que excluem mais do que acolhem. Não houve o retracto de cidades acolhedora, mas sim, o reflexo de que estamos num período desesperançoso, que os autores não olham para as cidades como um refúgio ou um lugar, quase que foi um evento depressivo. Mas ao mesmo tempo importante para percebermos e debatermos o conceito em que vivemos.

Como é a programação destes eventos?

Feiras, oficinas, debates e também temos mostras de filme, contador de histórias, projectos paralelos que antecedem o evento: Duelo HQ, Bienal Publica. Esta última, consiste em publicar autores independentes que nunca tenham publicado que é distribuído gratuitamente durante os eventos. M

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