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Brunch With...Ricardo Guerra

Empresário na Região de Benguela, mas um produtor de bebidas destiladas, acima de tudo que ama a produção. Conheça o empreendedor apaixonado pela cultura da Cana de açúcar.

Luanda /
12 Dez 2019 / 16:05 H.

Nasceu em Portugal, na região Demarcada do Douro, onde se produz o Vinho do Porto. Está em Angola há nove anos, três em Luanda e os outros no Lobito sempre como empreendedor. A sua infância foi passada no Douro, junto do Rio e da terra rodeada de vinhas que era a maior fonte de rendimento daquela região. O culminar do seu ofício herdou do avô materno, produtor armazenista de vinhos, e paterno angolano que era Engenheiro da INEA no Bié, onde desde pequeno lhe era contado as histórias da abertura das estradas, durante a Guerra civil, por isso de bem cedo se tornou evidente a curiosidade, que se acentuou numa paixão pela terra de Angola, pela comida e pela produção.

Sobre os desafios de viver em Angola, Ricardo descreve que não é para todos, porque em Angola às vezes o fácil se torna difícil e o difícil parece ser mais fácil. A questão é que nem todos estão preparados para abdicar do fácil de uma forma tão ligeira, desistem ou se acomodam, pode até parecer clichet, mas Angola ou se ama ou se detesta. ‘‘Já viajei e tenho tido a oportunidade de viajar muito pelas províncias e conhecer por dentro a realidade daquela que é Angola profunda’’, acrescenta. Na questão de ser empreendedor em Angola, argumenta que há dez anos atrás era mais compensador e motivante, mas hoje temos de ser criativos e resistir aos tempos que nos pedem para ser comedidos, ter rigor e qualidade no que fazemos. ‘‘A margem de erro para os empresários diminuiu drasticamente o que é bom porque nos obriga a sermos melhores’’.

Experiências Profissionais

Caxaramba, como gosta de ser chamado, depois de passar pelo curso de Engenharia Biotecnológica, em Bragança, com o aparecimento do seu primeiro filho, teve necessidade de começar a trabalhar, optando pela produção de vinhos, onde criou as Marcas Quinta das Hidrângeas e Bons Anos, e em simultâneo pediu transferência para o Curso de Enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Com as primeiras marcas de vinhos, criou uma empresa de distribuição de vinhos, que hoje em dia são distribuídos não só em Angola, mas também noutros Países pela Lusovini Distribuição. Depois de dedicar-se ao vinho há mais de dez anos, teve a ambição de querer crescer cada vez mais, no contexto de ligações óbvias e familiares apanhou o avião para Luanda, onde passou o Natal de 2010. ‘‘O meu Padrasto que nunca deixou Angola, natural do Bié, dizia-me sempre num tom carinhoso: tu estás bem aí na Quinta a produzir o nosso vinho... eu dizia-lhe eu quero é ir para ai produzir... Por acaso não queres investir em mais umas barricas para envelhecer a Caxaramba? Olha que te dá mais dinheiro que no Banco...’’, contou sorrindo.

Começou por comercializar os seus vinhos e de outros produtores do Douro que trazia de Portugal, assim como comprar contentores de cerveja à Vinalda do João Carvalho. Abandonou Luanda e fixou-se no Lobito com o sonho de produzir made in Angola e como resultado disso fundou a empresa que hoje dá o nome pela ‘‘Caxaramba’’, que quer dizer Aguardente de Cana. Defende que sempre foi muito bem comportado e certinho, trabalhou sempre com bebidas alcoólicas desde produção à distribuição, mas acredita de igual modo, o que lhe mantem os pés no chão e lhe dá perespectiva do negócio é por já ter vendido garrafas de Luis XIII que podiam custar 800.000 Akz que não eram produzidas por ele, e vender Aguardente de cana Caxaramba de 2500 Akz por garrafa. O mais importante nas empresas é a Marca, o resto é investimento imobilizado e passivo quase sempre.

Perspectivas e Ambições

O nosso convidado apresenta perspectivas para as suas actividades, no longo prazo não se imagina a viver noutro lugar que não seja Angola, ajudar a conhecer a Região de Benguela através da Cultura da cana e da produção da Caxaramba Aguardente do Lobito, ‘‘e que os Lotes de Aguardente de cana que transformamos hoje sejam guardados para as gerações futuras, pois só vendemos um terço do que produzimos’’. A curto prazo, tem como objectivos contribuir para a diminuição dos milhões de litros que são importados todos os anos, através da qualidade do produto real que elabora. Tem como modelo de vida a descrição sobre o respeito pelo próximo, a paixão pela profissão, valorização da família e amor à terra, assim como a admiração pelos que trabalham.

O empreendedor confessa nesta edição que o momento mais alto da sua vida foi aos 20 anos com o nascimento do seu primeiro filho. Explica ainda que, na carreira quando se faz o que se gosta e com motivação, os melhores momentos ainda estão para vir. ‘‘Mas tenho dois momentos que podem não serem os maiores, mas são os mais marcantes, primeiro quando produzi o primeiro vinho do Porto e o segundo quando fiz a primeira experiência com cana da Zona da Catumbela’’ regozijou-se.

Adepto em leitura, o produtor de vinhos, recomenda ‘‘Le Petit Prince de Saint Exupery’’, talvez por ainda o ter feito muito jovem e ter sido oferecido por alguém muito especial, acrescenta que é sem dúvida um livro que todos deveriam ler, a grandeza da vida está na simplicidade da mesma e a diferença está no detalhe e no pormenor. Quanto a situação actual do País, é de opinião que precisamos de investir forte na educação de base, o ensino profissional deveria ser uma prioridade para formar quadros nacionais nas várias áreas e não estar tão dependentes no futuro. Não temos de ser todos Doutores e Engenheiros, temos sim de ser bons profissionais empreendedores nas diferentes áreas.

Quanto aos líderes, os tempos continuam a ser de esperança, a credibilidade internacional se conquista e para isso as pessoas devem aprender com o passado, olhar para o presente e perespectivar o futuro. Para o cidadão comum é gratificante ver políticos com espírito de missão que também existem em Angola, finaliza.