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Brunch With...Leonor Simões

Valoriza princípios como a honestidade e a lealdade. É curiosa, tem convicções fortes, preza amizades verdadeiras e é muito pragmática, não se deslumbrando com facilidade. Um breve retrato da benguelense que lidera a área jurídica da Contidis.

Angola /
15 Jul 2019 / 09:59 H.

Acarismática advogada é esposa e mãe, é uma pessoa sensata que gosta de viver tranquilamente com a família e aproveitar tudo de bom que a vida oferece.

Trabalha actualmente como directora jurídica da Contidis, a empresa que explora as marcas Candando, Wammo, Cremme e Cuida +, um desafio profissional que assumiu há quase um ano.

Tem como objectivo continuar a trabalhar com a mesma entrega e dedicação e, sobretudo, fazer parte de projectos empresariais impactantes, que sejam uma mais-valia e ajudem o País a alcançar a sustentabilidade económica e social.

É inspirada por pessoas que agregam valor, que mudam o mindset e aproveitam o sucesso para impulsionar a sociedade e contribuir positivamente para o desenvolvimento ao seu redor.

“Pequenas mudanças fazem um mundo melhor, há muitos pequenos heróis ao meu redor, que eu admiro e que me inspiram”, refere a jurista que tem na obra Rainha Ginga, de Eduardo Agualusa, um dos livros de vida. Teve muitos momentos altos na vida, mas o mais intenso foi a maternidade. “A plenitude materializou-se diante dos meus olhos.

Construir uma família ao lado do meu esposo tem sido maravilhoso”, confessa Leonor Simões. Já o momento mais alto da sua carreira, até ao presente, foi em 2015, quando assumiu a Direcção Jurídica da Biocom, a maior empresa de agronegócio do País que, na época, tinha dois mil trabalhadores, sendo a única mulher a ser convidada para uma posição de topo, após um ano na companhia.

“Tinha dois bebés quando dei o salto ao nível de carreira. Viajei com frequência para Malanje e São Paulo, no Brasil, e tive de aprender a conciliar o desafio que me foi proposto com a vida familiar”, lembra, acreditando que está no caminho certo para continuar a somar sonhos e conquistas.

Dos sonhos à realização

Nasceu em Benguela, em Agosto de 1979, filha de pai do Cuanza Norte. Recorda que teve uma infância muito feliz e, de certo modo, privilegiada, na cidade de Benguela, sempre rodeada de parentes e amigos.

Apesar das dificuldades da guerra civil que o País atravessava, nada a impediu de brincar nas ruas descalça, apanhar mangas e passar muito tempo na praia e em casa dos vizinhos. “Tínhamos as escolas públicas a funcionar, alimentos frescos provenientes do mar e das quintas junto ao rio Cavaco, e até uma fábrica de açúcar e de rebuçados, que eram a nossa relíquia”, lembra, sorrindo.

Desde cedo sonhou ser útil à sociedade, ajudar pessoas a encontrarem soluções, o que a levou trilhar, quase intuitivamente, o caminho da advocacia. “Interajo diariamente com todas as áreas da empresa e com os stakeholders institucionais e, desta forma, ajudo a resolver questões que optimizam os resultados”, afirma a jurista.

Começou o ensino básico no sistema público, em Benguela. Aos 14 anos foi viver para o Algarve, Portugal, onde frequentou o ensino secundário, e licenciou-se em Lisboa, na Universidade Autónoma, no curso de Direito.

Vem de uma família ligada ao sector industrial e ao comércio, pelo que a escolha jurídica não foi absolutamente natural. “A escolha pela formação jurídica fez-me todo o sentido. Tive como formação de base letras e humanidades, e o curso de Direito foi muito de encontro às minhas características pessoais”, explica Leonor. Em 2006 regressa a Angola, decidindo ficar por Luanda, mas não voltou igual à Leonor que partiu.

“Não tenho qualquer dúvida que a pessoa em que me tornei hoje resulta, para além da formação, destas mudanças de países e cidades ligadas às interacções multiculturais”, avança. A directora jurídica da Contidis considera o seu percurso profissional muito interessante e dinâmico. Teve a oportunidade de trabalhar em reputados escritórios de advogados e em excelentes empresas.

“Tenho alguma facilidade em sair da zona de conforto e aceitar novos desafios, desde que acredite no projecto e saiba que me vai agregar valor”, sublinha. Como profissional, diz que a sua característica é ser pragmática e manter total foco na solução e nos resultados.

Regresso difícil

No início da carreira superou a pressão e a competitividade de um escritório de advogados de topo. Depois, foi o desafio do regresso ao País, com todas as dificuldades associadas à mudança.

Não foi fácil reiniciar a vida em Luanda e entrar para um mercado de trabalho totalmente desconhecido. Em 2008 conciliou a advocacia com um projecto dos Jesuítas financiado pelo ACNUR que dava suporte jurídico a refugiados, onde lidou com refugiados legalmente fragilizados e teve a honra de receber em Luanda António Guterres, actual secretário-geral da ONU.

A experiência mais recente, fora da rotina da advocacia, tem sido leccionar aspectos jurídicos do agronegócio numa pós-graduação de Agribusiness promovida pela Academia BAI.

“Tem sido uma experiência enriquecedora, porque fui obrigada a fazer uma pesquisa profunda sobre os conceitos e a legislação do agronegócio, e conheci grandes produtores, o que me permitiu ter o privilégio de constatar o real crescimento do sector em Angola”. Defende que, por cá, sobre a nova geração de gestores e líderes, os gestores de topo já têm formação especializada em business e ganham maior consciência dos riscos do negócio. É uma geração que procura estar rodeada de bons profissionais a todos os níveis, afirma.

Quanto à situação actual do País, a jurista acredita que, apesar das dificuldades, continua a ser muito atractivo para o investimento, e que, se o Executivo implementar as políticas certas e apostar fortemente nos sectores da agricultura e indústria, certamente que será possível vislumbrar um crescimento económico sustentado.