Brunch With...Henda Traça
A artesã conta, que quando criança, os seus sonhos tinham asas, queria ser hospedeira e bailarina, mas nunca chegou a sonhar com uma carreira nas artes.
Filha de mãe colombiana e de pai angolano, Henda Traça nasceu em Cali, no departamento do Valle del Cauca, República da Colômbia. Por consequência da conjuntura política no nosso país, a primeira parte da sua infância foi vivida fora de Angola, passando por países como a Jugoslávia, Argélia e Zâmbia.
Em 1977 começou a escola primária, onde fez os primeiros amigos e abriu os olhos para um “mundo novo”. Passando alguns anos, foi em família para a Jugoslávia por razão duma formação militar do seu pai. ‘‘Aí abriu-se um mundo assustador,mas enriquecedor para mim, tive de aprender Serbocroata para continuar os meus estudos’’, afirma.
A nossa convidada conta que, quando criança, os seus sonhos tinham asas, tal como hoje e considera-se uma pessoa um pouco inquieta e que se apaixona facilmente, mas defende que nem todas as paixões viram sonhos e nem todos os sonhos se tornam realidade. Tinha o sonho de ser hospedeira e bailarina.
‘‘Sempre gostei das actividades que envolviam trabalhos manuais, mas nunca cheguei a sonhar com uma carreira nas artes’’.
De regresso à Angola fez o Puniv e em 1991 foi para Lisboa por intermédio de uma bolsa. Aí os seus sonhos e aspirações foram ganhando asas e mudou de curso mesmo antes do inicio da faculdade. Estando inicialmente para fazer Psicologia, acabou por mudar de curso para Relações Internacionais, mostrando-se satisfeita.
Experiência profissional
Quando terminou a licenciatura, teve a primeira experiência no mercado laboral em Portugal, dentro da sua área de estudos.
No entanto, ela não poderia aceder aos principais concursos pois não tinha a nacionalidade portuguesa. A escolha parecia ser entre desbravar o mundo desconhecido das artes ou empregos em que nenhuma paixão despertavam nela oupara os quais nem sequer daria utilidade à sua formação, porém o dilema não durou muito tempo, alugou um atelier e começou a explorar várias áreas de artesanato.
Em Angola criou o seu atelier NhaLuany montado e já trabalhando com vidro, que é talvez a paixão mais duradoura que tem. Foi convidada para ser curadora da galeria do nosso pavilhão na EXPO 2010 em Shanghai. “Esta foi outra experiência enriquecedora e absolutamente inesquecível!
Os desafios são diários e conjunturais. Acesso à água da rede, energia eléctrica estável pois trabalho com fornos de fusão de vidro”.
Em 2011 criei com uma amiga, a Verena Góis, um projecto que muito nos orgulha até hoje: Feira de Artesanato Urbano de Angola. Este projecto teve a sua génese em 2 momentos distintos. Um deles foi as pequenas mostras/vendas de artesanato que a Verena já organizava no seu quintal e posteriormente a formação dum grupo no facebook chamado “Artesanato em Angola”. A ideia do grupo era congregar num espaço virtual os artesãos angolanos a produzir artesanato em Angola ou na diáspora.
Mas para além destes desafios conjunturais que são comuns a todos angolanos, alguns com mais acesso que outros, pensa que enfrentou um desafio “inesperado”, o da mentalidade.
Perdeu a conta das vezes que foi questionada se “ainda não estás a trabalhar?” Ou “mas tu não queres trabalhar?” ou ainda “sempre a fazer essas “coisinhas?”, mas gosta de pensar que as mentalidades têm vindo a mudar e o artesanato seja encarado como qualquer outra trabalho, digno, útil.
Questionada de como é ser artesã em Angola, a artista adianta que costuma dizer-se que “quem corre por gosto não cansa”. Porém, para ela, não é bem assim, mas posso dizer que trabalhar naquilo que se ama é muito recompensador.
Segundo ela, “a necessidade é a mãe da invenção” é um adágio que nos descreve muito bem a todos angolanos. Adianta que a reciclagem, o reaproveitamento e o improviso são sem dúvida uma consequência positiva da carência de materiais.
Por outro lado, acrescenta ser notório que as mais novas gerações de gestores, empresários e líderes desafiam os padrões estabelecidos. “Não posso deixar de mencionar o número crescente de mulheres líderes na sua área, sem descurar de constituir uma família. Vemos cada vez mais empresários em áreas que até há bem pouco tempo nem sequer existiam”, vinca a empreendedora.
Quanto ao País, vislumbra muitas dúvidas e incertezas que vieram a reboque do fim da era do petróleo, mas “felizmente as épocas de crise são também aquelas em que várias oportunidades nascem ou se tornam visíveis”, acredita.
Emoções, gostos e desafios
Considera-se uma pessoa sensível (leia-se chorona) que adora estórias sobre a condição humana, biografias, mas também livros de crescimento pessoal. “A história duma gaivota e do gato que a ensinou a voar”, de Luís Sepúlveda, marca-lhe pela sensibilidade e ternura. Outro livro que a marcou foi Siddhartha de Hermann Hesse. “Hoje em dia leio muitos livros sobre empreendedorismo e crescimento pessoal”, adianta.
Já os seus gostos musicais são muito eclécticos e a música que ouve varia muito consoante o seu estado de ânimo. “Mas posso dizer que gosto muito de kizomba, zouk, de muitas nuances do que se chama world music, música soul, salsa, musica sensorial e de meditação”, confidencia. Um dos seus principais objectivos é poder ter mais estabilidade financeira. “Tal não é algo que acompanhe sempre uma artesã, infelizmente. Poder continuar a fazer o que amo mas melhor e poder c criar um futuro melhor para os meus filhos é algo que procuro a todo o custo”, almeja Henda Traça.