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Brunch With...Cristina Câmara

Um mundo mais verde é a aspiração da arquitecta que crê poder reduzir o impacto negativo dos homens sobre as paisagens. Saiba mais sobre a profissional que esteve envolvida em diversos planos de requalificação da capital “Kianda”.

Lisboa /
02 Jan 2020 / 15:20 H.

A nossa convidada para esta edição do Brunch With é a arquitecta paisagista, Cristina Camara, igualmente conhecida por Lueji Dharma, no contexto da literatura, enquanto escritora.

Formada em Arquitectura Paisagista e Sistemas de Informação Geográfica, possui especialização em Planeamento Regional e Urbano, além de actuar na sua área de formação, Cristina abraçou o desafio da docência para garantir que o testemunho da sustentabilidade ambiental se perpetue para geração vindoura, por essa razão admite estar a realizar o seu sonho de contribuir para um mundo melhor.

Tem como ambições e objectivos profissionais continuar a desenvolver as suas actividades, porém com mais sucesso na implementação. Acredita que esta depende maioritariamente de um aumento do patriotismo e do amor ao próximo por parte dos gestores e políticos.

A arquitecta considera o sinónimo de lazer e descanso àquele passado a viajar pelas paisagens rurais. A grande satisfação resulta da ideia de registar os pensamentos e os factos, de tal modo que, parte da sua criatividade e imaginação advêm do comprometimento com a leitura. Um bloco de notas e a caneta são os companheiros inseparáveis.

Vários livros marcaram a sua vida e foram autênticos conselheiros para momentos desafiantes, mas destaca o livro de Pepetela intitulado “Lueji, o Renascimento de um Império”, mas é na Bíblia que encontra a maior fonte de inspiração para ultrapassar as dificuldades.

Cristina revela que o seu momento mais alto foi o “ser mãe”. Para ela, todo o processo foi uma redescoberta e uma verdadeira felicidade como nunca sentida. “A minha filha tornou-me uma pessoa mais forte, mais compreensiva e mais flexível”, conta emocionada.

Envolvida em emoções, Cristina descreve as linhas que constroem a sua trajectória académica e profissional, levando-nos numa viagem pela cartografia do seu passado e pelos caminhos que a conduziram para luta por um mundo mais verde.

A infância e o percurso académico

Nasceu em Calonda, Lunda Norte, no conturbado momento do 27 de Maio de 1977, onde a insegurança era um tema constante. “Quase nasci no carro devido ao recolher obrigatório. Lembro-me de passar por um longo internamento devido ao surto de sarampo no Hospital do Lucapa”, recorda.

A sua infância foi passada entre um lar na Lunda Norte com os seus pais e irmãos e, posteriormente, com a sua avó paterna em Santa Cruz. Embora tenha tido momentos maravilhosos, lembra que a sua infância também teve muitos contratempos e desafios, assim como, aos seis anos de idade, altura em que devido ao carro onde seguia com uma das suas vizinhas ter sido atingido por balas, os pais optaram por enviar-lhe para Portugal.

Apesar dos vários desafios, nada impediu Cristina de brincar nas ruas de terra vermelha de Lucapa, apanhar mangas e cozinhar em latinhas. Na verdade, a infância e todas as pessoas que rodearam aquela fase de sua vida tornaram-se numa verdadeira fonte inesgotável de inspiração e, ao escrever o “Aldeia de Deus” encontrou um caminho para voltar a esta infância perdida e retribuir o carinho de muitos.

Na sua tenra idade, Cristina sonhava de forma ingénua, à semelhança de muitas crianças, em ser médica ou bailarina. Mas todos estes sonhos da infância foram maturando na adolescência num denominador comum: o sonho de um mundo mais justo, rico e humano.

Quanto à formação, a nossa convidada iniciou a primária com os cinco anos em Lucapa, na Lunda Norte, e deu continuidade, um ano depois, em Santa Cruz na Madeira, Portugal. No secundário frequentou a área de saúde. Teve boas notas, mas, segundo a paisagista, a pressão para decidir por um curso superior acabou por fazê-la reduzir o rendimento escolar. Parecia não haver um curso que a interessasse, entretanto, acabou por escolher um que reunia arte, ciência e ambiente. “A entrada na Universidade Técnica de Lisboa – ISA, em 1995, foi um grande desafio, pois, tive de aprender a viver sozinha”, regozijou-se. Logo após concluir a licenciatura, em 2001, inscreveu-se no Mestrado de Sistemas de Informação Geográfica no Instituto Superior Técnico.

Desafios profissionais

Enquanto estudava, Cristina trabalhava para os serviços sociais em part-time, como seu primeiro emprego para ajudar a pagar a faculdade. Após terminar a licenciatura foi de seguida estagiar no Instituto da Conservação da Natureza, mas a vontade de experienciar os conhecimentos adquiridos fez Cristina mergulhar para o Designer Village, o maior atelier de arquitectura da Europa na altura, onde participou num projecto gigantesco. Entretanto, não terminou por lá, decidiu culminar a seu percurso profissional em Portugal trabalhando na Câmara Municipal.

Feito isso, regressa definitivamente para Angola em 2009, começando por prestar serviços de consultoria em Sistemas de Informação Geográfica na Total e na Sonangol como cartográfica.

Em 2011 foi contratada pelo Gabinete Técnico de Reconversão Urbana do Cazenga para trabalhar na sua área de formação. “Tive a oportunidade de ajudar a traçar o Plano Director do Cazenga, Sambizanga e Rangel, funcionando como chefe de planeamento urbano, que foi premiado nacional e internacionalmente”, revelou.

Em 2013 recebeu uma bolsa para a especialização profissional em planeamento regional e urbano na MIT, Estados Unidos. Ao regressar altamente motivada a partilhar o que aprendeu, abraçou um novo desafio profissional, o de garantir que o curso de Planeamento Regional e Urbano ganhasse mais alunos. “Foi um desafio que me levou a dar aulas e a realizar um documentário sobre Arquitectura em Angola com os alunos do Núcleo de Estudos Arquitectónicos, no Instituto Superior Metropolitano de Angola”, lembrou.

No capítulo da opinião sobre os novos “gestores e líderes”, avança que estes títulos só devem ser aplicados àqueles que com sacrifício, entrega, trabalho e partilha colocam pedras na construção de empresas, equipas e resultados.

Em conclusão, caracteriza que o País só se pode desenvolver com quadros patrióticos, experientes e com conhecimento. Crê que a meritocracia é o único caminho para o desenvolvimento.