Tempo - Tutiempo.net

“Ainda não tenho o retorno do investimento”

Nas vésperas do concerto intimista que acontece hoje à noite no Epic Sana, organizado em parceria com a Jazz In, conversamos em exclusivo com a cantora Katiliana sobre o seu repertório musical, a carreira e projectos.

Angola /
03 Ago 2019 / 09:00 H.

Que músicas está a incluir no repertório para este show intimista?

Normalmente não dou detalhes sobre o repertório, porque pode-se perder um pouco da parte estética do concerto, se é que posso usar essa expressão. Até mesmo para deixar alguma curiosidade, e deixar para surpresa. Não quero matar a surpresa do que tenho para apresentar. Mas de uma forma muito sucinta, vou viajar, pelas sonoridades do blues, jazz, soul e de alguns temas nacionais que há algum tempo já tive possibilidade de cantar e vou passar um pouco também pela bossa Nova. Acho que também por ser um show intimista em que o foco é a artista e um instrumentista, então eu preferi colocar temas que acabassem por tentar dar uma outra visibilidade ao nível local.

Percebemos que se mantém equidistante dos holofotes, houve algum motivo profissional que a fez adoptar uma postura mais low-profile?

Uma postura mais low profile, Sim. Mas não me considero uma artista low- profile, independentemente de fazer jazz e viajar muito por outras sonoridades, para além do jazz, blues, soul e new soul. Mas em palco, não me considero uma artista low profile. Já tentei ter esta postura, mas não tem nada a ver comigo, porque divido muito o que sinto no palco. Mas não estou distante dos holofotes, continuo a fazer eventos, mas de uma forma mais madura, porque no início da minha carreira tive os holofotes muito concentrados para a minha pessoa. Talvez pelo estilo que eu faço acaba por não dar muita visibilidade cá em Angola, e talvez possa parecer que fico um pouco distante dos holofotes.

Uma vez que herdou da família a veia musical, que influências a terão marcado mais?

Sim, tenho esta veia musical da família, mas os meus familiares não tiveram inicialmente uma grande influência. Porque era muito pequenina quando faziam música. Tive noção da importância que tinham para a música angolana muito depois. Nomeadamente, os meus tios avós, Elias Dia Kimuezo, Lurdes Van-Dunem e Nelson Santos. E, depois de eu ter contacto, obviamente influenciaram. O tio Elias, foi uma influência importante na questão da língua nacional Quimbundo. E, até hoje continua a ser. Dificilmente artistas da sua geração conseguem igual a pureza e fluência no Quimbundo cantado pelo Rei da música Angolana. A tia Lurdes foi uma pioneira, entre as mulheres que começaram a cantar nos conjuntos, portanto me sinto influenciada por ela ter sido a que deu ênfase para que outras cantoras surgissem no mercado. O tio Nelson, sempre me deu abertura para aprender e continuo a aprender. E não podia deixar de falar de outras influências da música angolana, tais como Filipe Mukenga, Filipe Zau, Mito Gaspar, os Mingas, Teta Lando, Artur Nunes, David Zé e Urbano de Castro, então viajo muito por aí e transporto tido isto para o Jazz.

Já passaram alguns anos desde a sua participação, no OT2, até que ponto o concurso foi importante para a sua afirmação na carreira musical e lhe deu visibilidade?

Com certeza que me deu muita visibilidade, embora a base de tudo tenha sido a Rádio Pió, foram os primeiros passos no mundo do espectáculo. Nessa altura tive a oportunidade de trabalhar com os saudoso Man Borrô, Lucas de Brito (actual Maia Cool) e Nila Borja. A Operação Triunfo acabou por ser o ponta pé de uma firmação que já tinha, basicamente só veio somar todos os esforços para lá estar e conseguir a posição que consegui no programa. Foi claramente um marco importante na minha vida. Aí tive a oportunidade de conhecer o Showbiz e como se faz um programa em directo. Hoje levo comigo esta e muitas outras experiências com carinho e acabo por ser muito autónoma, tanto que no meu primeiro concerto cá em Angola, no Instituto Camões, fui a produtora do meu próprio concerto.

Conhecemos uma Katiliana versátil, será que já definiu um estilo musical?

Obrigado por me considerar versátil. Bem, fui educada assim, e isto mais uma devese a Operação Triunfo por me dar essa possibilidade de explorar todas essas vertentes da minha versatilidade e ao meu esforço, claro.

O JAZZ, soul, blues é já para si uma música que a define enquanto artista ou é só uma das suas facetas musicais, que prepara para este concerto?

Sim, define-me. Adoro o jazz, apesar de ter entrado para a minha vida mais tarde, até então considerava-me uma soul singer, ou blues singer. Eu tenho estas vertentes na minha alma e há quem possa confundir com o gospel, mas não é longe disto se formos estudar a história do jazz.

Que projectos musicais tem em carteira?

Qual será a próxima paragem? Prefiro ainda não adiantar, porque seria prematuro adiantar já algo. De momento estou focada na minha afirmação. Ainda assim, apesar de já ter conquistado o meu público, ainda assim não tenho o retorno do público do investimento que dê vasão a novos investimentos, como um álbum por exemplo. Tirar uma obra discográfica não pode ser só porque as pessoas querem. Sinto muita pressão, mas as coisas têm de acontecer no tempo certo. Isto porque os apoios são muito limitados, eu quase não tenho apoios, especialmente para o meu estilo. Sou uma artista independente.

A música já é para si uma carreira que quer levar adiante ou pensa fazê-la em paralelo?

Nem uma coisa nem outra. Além da música sou licenciada em Hotelaria e Viagens, mas desejava fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas a música neste momento tem uma importância maior na minha vida. Mas futuramente, gostaria de abrir projectos na minha área de formação e continuar a cantar desde que uma não prejudicasse a outra.

Inglaterra, foi mais uma base importante para a sua educação ou crescimento musical?

Sim. Desde o profissional ao pessoal, porque carreguei sempre Angola no coração, Portugal foram as bases necessárias mas a Inglaterra fez-me mulher, porque tive um crescimento muito grande ao nível pessoal e moldou a forma como encaro a vida. Aí estive sozinha, sem os meus familiares e tive que trabalhar para pagar as contas. Portanto, senti realmente a responsabilidade de uma cidadã. E por isso terá sempre um lugar especial no meu coração, pela educação e experiência de vida