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“A arte para mim funciona não só como um escape, é a minha profissão”

Guilherme Mampuya, artista de renome, lança no mercado a sua nova exposição intitulada “A Origem”, onde destaca a importância da Ciência e da Religião.

Luanda /
24 Ago 2021 / 11:01 H.

Há quanto tempo desenvolve a arte plástica?

Tornei-me profissional das artes plásticas em Novembro ou seja, Outubro a Novembro de 2006, quer dizer estou a quinze anos nesse trabalho.

Quando descobriu a vocação artística?

Cobri a vocação artística, desde pequeno sempre fui bom em desenho, mas só que quando me tornei profissional, sou jurista de formação, sou defensor oficioso e pronto, estar no escritório é aquela rotina, aquele padrão diário acabei por quebrar e eu achei que tinha que ressuscitar aquela veia artística e eu trabalhei no sentido e de repente já estava nos palcos a expor quadros.

Já participou de exposições internacionais?

Já participei em muitas exposições internacionais, a primeira foi em Bruxelas em 2007, fui em conta própria e quis expor, mostrar um pouco de Angola fui aceite e a partir daí de 2007-2008 já participei em várias exposições internacionais já representei Angola no Centenário do Museu da Faculdade de Ciência de Coimbra que foi festejado no Museu Afro-Brasileiro de São Paulo em 2014, já estive na Expo-Milano, Expo-Shangai e agora vou para a Expo-Dubai 2021.

Se sim, qual foi a experiência de expor para uma plateia internacional?

É sempre boa uma vez que é parte do país, parte da nossa cultura que acabamos por expor ao estrangeiro é uma maneira de vincular a nossa cultura nas artes plásticas.

A que se deve o título ‘A Origem’ à exposição?

O título da ‘origem’, eu quis realçar a questão, esse debate cientifico e religioso, esse debate entre ciência e religião, quem prevalece, eu quis unir os dois conceitos quando se diz na bíblia que deus disse “haja luz”, é considerado como o Big Bang quando deus diz que criamos os seres vivos, eu acho que o jurássico, essas grandes eras, são duas coisas, eu acho que a lógica bíblica e cientifica não difere lá tanto é apenas uma lógica confirma a outra. Portanto, a ideia é dizer ao mundo que os debates devem existir mas não pode ser causa de separação porque o que nos une é o planeta, dai nessa mesma exposição eu ter feito uma homenagem aos povos da terra, ao povo do mar, do deserto, do gelo, das florestas, porque temos uma urgência, o planeta tem perigo, os mares estão poluídos, o deserto está a ganhar muito espaço, o efeito de estufa está a fazer derreter o gelo, os incêndios nas florestas o desmatamento, portanto essas questões urgentes é que deveriam unir os religiosos e científicos.

‘A Origem’ é a primeira aparição artística de Guilherme Mampuya neste ano?

A origem esse ano acabou por ser a minha primeira aparição individual, embora que eu tive outras colectivas, neste ano é a primeira porque anualmente faço questão pelo programa do ateliê, exponho sempre individualmente.

Existem instituições ou organismos que patrocinam as tuas exposições?

Patrocinar, dificilmente hoje se patrocina mas nessa exposição tive o apoio do vinho Esporão, tive o empurrão do Belas Shopping, tive também o apoio do Zwela, enfim, trabalhamos com o próprio ateliê Guilherme Mampuya, também ou seja foram 4 os organismos a suportar essa exposição ‘A Origem’.

A arte pode funcionar como escape para manter o equilíbrio emocional?

Depende, a arte para mim funciona não só como um escape é a minha profissão, imagina escape é aquela coisa que nós fazemos para aliviar algo que em nós não está bem, no meu âmbito já é diferente, ou seja há momentos que o meu quadro é muito pessoal que eu quero por em casa e funciona mas se não tenho de cumprir com certos padrões de qualidade, de requerimento do cliente, o cliente quando diz “Olha Mampuya quero um retrato da minha família, Mampuya quero que tu pintes sobre Angola, sobre a amizade, a paixão, ai tenho que me despir daquele lado emocional que tenho e ir ao encontro do que o cliente quer, claro que tem de ter sempre aquela componente emocional, espiritual de Guilherme Mampuya, isso não falta.

O artista plástico hoje é valorizado como devia ser?

Acho que as artes plásticas em Angola mudaram muito, quando eu comecei em 2007 até 2014-2015 onde a maioria dos meus clientes eram os estrangeiros, hoje em dia há uma inversão dessa tendência, porque depois desse tempo todo houve muitas paredes, a imobiliária expandiu-se, estamos a falar de centralidades, estamos a falar de condomínios, estamos a falar de gente que acendeu socialmente, que já construiu casa e gente que viaja, gente que vê a internet que vê a televisão e gente que percebeu que a pintura ou quadro numa casa faz parte do património e isso fez com que houvesse uma mudança, eu dizendo que é valorizado, é uma faca de dois gumes, porque temos que ver que ainda não temos leis que dão força ao artista plástico mas do outro lado temos o consumidor, temos o consumidor da alta, da média e que também acaba por consumir esse mesmo produto e a demanda está mesmo elevada. É só conferir o número de centralidades que temos em todo o país, em Luanda só vamos falar esses metros quadrados essas pessoas precisam de quadros, as pessoas pedem quadros então o artista plástico já começa a ser considerado como alguém importante da necessidade da sociedade.

Quais são as principais dificuldades que enfrentam um artista plástico?

As dificuldades que os artistas têm é o material, o material de qualidade todos vêm de fora o país não produz ainda tinta acrílica nem de óleo, portanto há uma componente que é a tinta esmalte sintética que é uma vertente mais industrial que muitas vezes aqui a malta usa para colmatar essa falha mas a grande preocupação é o material, felizmente há uma loja que vai colocando no mercado mas também não é permanente há momentos que tem falha, há falta daquele material, é o que eu faço pra pra prevenir isso, ir fora e trazê-lo pra cá.

Como os artistas plásticos sobreviveram aos efeitos da COVID-19?

Como sobrevivemos ao COVID, bem, com o fecho das galerias houve muita actividade de contacto mas graças a deus tivemos o mundo virtual e eu basicamente consegui me safar através disso, produzia em casa e publicava nas redes sociais, no facebook, no instagram e outras que estão por ai, no whatssap e isso permitia que as pessoas dessem conta do trabalho e soubessem que o atelier continuava em activo, o que é que eu fazia, eu produzia e mandava levar com todo o respeito daquelas regras de biossegurança e é assim que o atelier sobreviveu e graças a deus essa tendência já está a começar a mudar, as coisas já estão a abrir e eu acredito que mais dia menos dia vamos voltar nos tempos de ouro. Obrigado.