Transparência

Por muito tempo propalou-se a ideia de que “o segredo é a alma do negócio”, com o objectivo de não deixar todas as vertentes do business às claras. Tese, no entanto, em desuso e corrosiva. Relações que se querem de longo prazo, entre governos, empresas e parceiros mantém-se por via da transparência.

Angola tem ainda um longo caminho a percorrer, no que diz respeito à transparência da administração e gestão da coisa pública e à sua relação com o privado. Nesse campo, os actores confundem-se. Os deveres e interesses de uns e de outros interlaçam-se há décadas. O que resulta desta salada, que nada tem de original, é sempre o mesmo – a corrupção, o nepotismo e os monopólios. Com efeito, há que saudar sem dúvidas a dinâmica que o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, promete desde 26 de Agosto de 2017, no discurso de investidura, e depois reiterada em diferentes ocasiões, dentro e fora do País, voltando a fazê-lo no sábado passado, no encerramento do VI Congresso Extraordinário do MPLA.

O senhor Presidente eleva cada vez mais a fasquia da promessa de lutar contra esses males, assim como as expectativas das famílias e dos empreendedores honestos. Pois será necessário mais do que coragem e tempo para que Angola saia da 167.ª posição no ranking de 180 nações mais corruptas, analisadas pela Transparency International. “Para a resolução dos principais problemas da nossa sociedade, da economia e dos cidadãos”, como refere no seu discurso de 8 de Setembro, e “restaurar os danos causados à nossa economia, afectando a confiança dos investidores, porque minaram a reputação e credibilidade do País”, será necessária uma governação transparente, dando finalmente total e efectiva independência ao poder judiciário. João Lourenço disse ainda que “o partido continuará a apoiar o sector empresarial privado, enquanto suporte vital da economia, para que continue a contribuir para o desenvolvimento nacional, aumentando a oferta de bens e de serviços de produção nacional, diversificando a economia e reduzindo as importações de bens essenciais, criando e aumentando a oferta de postos de trabalho”.

Isto vai acontecer se for dado tal apoio ao empreendedorismo honesto e arduamente diligente. Este, sim, pode salvar o País da dependência de factores externos.

Mas o combate à cultura do “segredo do negócio”, que entretanto fez nascer os monopólios e o nepotismo, seja uma prática regular nesta sociedade. E que os visados não sejam só os peixes que estão perto da costa, mas também os tubarões nas profundezas. Essa cultura promovida por quem sempre teve acessos (informação e recursos) privilegiados foi a égide de um reduzido grupo que liderou, nas duas últimas décadas, o assalto ao erário e colocou em risco todo o sistema financeiro do País.

Comentários