Padrão Cultural? ou Mentalidade mesmo?

Angola /
08 Fev 2019 / 11:57 H.
Naiole Cohen

Precisamos de investimento estrangeiro. Pode não ser uma verdade absoluta, mas é uma necessidade reconhecida. Angola é um país rico, é uma “verdade” que precisa de uma melhor conjugação. Angola é um país potencialmente rico. Façamos o exercício mental e leiamos alto: Angola é um país rico. Angola é um país potencialmente rico! Soam diferente! Soam, porque requerem uma mentalidade mais modesta e mais receptiva. Não defendo o discurso barato da humildade, apenas o natural reconhecimento de que há uma distância a percorrer entre o potencial e a realidade.

Não me atrevo sequer a falar em mentalidades. Aliás, padrão cultural, que é um conceito mais chic e utilizado pelos cientistas sociais, é descrito como...”predisposição psicológica que uma pessoa ou grupo social tem para determinados pensamentos e padrões de comportamento.” Trocando por miúdos, é uma forma de ser e de estar, que pode e será decisiva na criação do ambiente de negócios, atracção e retenção do investimento (nacional e estrangeiro).

Na reflexão em voz alta ressoam mensagens que sempre estiveram “no ar” como por exemplo, ...sempre a subir, ...nós temos petróleo. Eles precisam de vir trabalhar cá.., e devagar, devagar (leia-se) malembe, malembe... Enfim! Em tempos de transformação, a mentalidade, ups desculpem, o Padrão Cultural tem que se reinventar numa atitude mais conducente à parceria, à colaboração. Não vale a pena assobiar para o lado. A forma de ser e de trabalhar dos países são dimensões de investimento e de gestão. Mesmo que aparentemente silenciadas. O Padrão Cultural percepcionado altera o risco e a confiança do negócio e para o negócio. Que o digam países de rigor, pontualidade e disciplina, como são as referências da Alemanha e do Japão. Nos EUA predomina o “hard work” e o “yes we can”. Um bom exemplo em África é Cabo-Verde cujas lições de governança o colocam bem percepcionado quanto à seriedade da gestão. O que está em causa é um conjunto de valores que definem como o investidor e o gestor se deve comportar no país que pretende investir.

No reposicionamento geoeconómico de Angola, é relevante que haja um processo transformacional da mentalidade, que se quer de competitividade e critical thinking. O investidor internacional, no seu assessment, para além dos impostos, taxas e riscos de investimento, tem bem em conta a “distância cultural”. Esta distância cultural é na realidade uma expressão técnica das idiossincrasias do país no qual o investidor pretende fazer negócios. Há necessidade de um novo mantra, que ajude a criar um padrão de comportamentos e atitudes de que juntos vamos e podemos mais. Mantra de valorização do trabalho e conhecimento como base da criação de riqueza.

Isto podem ser ideias interessantes para quem de facto ambiciona atrair investimento estrangeiro, mas o que realmente podemos esperar em Angola? Nós que “somos ricos”? Fui buscar uma potencial resposta ao velho filósofo alemão Friedrich Nietzsche que, num dos seus livros, afirma: “... Tudo evolui. Não há realidades eternas, tal como não há verdades absolutas.” E portanto, encaro o futuro com optimismo de que a história coloca Angola numa nova oportunidade para o ajustamento da direcção “mental” e do trend económico, para que potencialmente ricos possamos mobilizar todos aqueles que tenham energia positiva e a queiram tornar numa realidade absoluta.