O BNA e o carteiro de Mario Balotelli

Rui Malaquias

Até porque estamos em clima de Copa de Mundo, é importante trazer esta analogia para a nossa realidade actual. O nosso Banco Nacional de Angola, nesta fase, deveria aprender mais com Mario Balotelli do que com Alan Greenspan ou Ben Bernanke, pois, depois de tudo o que já vimos por cá, é melhor deixar o silêncio fazer barulho.

Por diversas vezes chamámos a atenção para o facto de o BNA estar mais preocupado com o mercado ou a posição cambial dos bancos comerciais do que com a supervisão dos bancos em si, e entendemos que as medidas que o BNA adoptou, principalmente a tão propalada alteração do regime cambial para encapotar a desvalorização do kwanza, ordenada pelos liberais do FMI, não resultaram na estabilização cambial como se esperava.

Foi, na verdade, o “empurrãozão” que o preço do barril de Brent deu ao governador do BNA, rumo a um mandato cheio de rosas, pois agora entram mais divisas e assim é possível o suster melhor a procura por moeda estrangeira e acalmar o mercado e desta forma fechar o gap entre o mercado cambial oficial e o paralelo.

Não foi a banda cambial, os instrutivos no BNA, ou medidas de política do ministro das Finanças, muito menos as medidas engenhosas do FMI, mas, sim, o mercado, o preço do barril nos mercados internacionais está a fazer de governador do BNA, ministro das Finanças e de FMI ao mesmo tempo.

E, como já tínhamos dito, o problema cambial de Angola não se resolve com bandas cambiais e desvalorizações administrativas, mas sim com mais dólares e euros, o tempo está a dar-nos razão, pelo que esperemos que quem ficar com os louros do trabalho do mercado seja um pouco mais humilde quando apresentar os seus feitos e conquistas.

Mas voltemos ao carteiro, porque o BNA, aliviado com a acalmia cambial actual, decidiu fazer o que lhe pedimos para fazer há muito tempo, olhar para o mercado, ser o supervisor de que a economia precisa, e, claro está, descobriu a pólvora e de forma sonora, pois todos ouvimos e vimos os foguetes.

O BNA “gastou” alguns minutos do seu tempo e olhou para o balanço de um dos 30 bancos comerciais da nossa praça e rapidamente entendeu que não havia condições para continuar a operar, o BNA agiu como qualquer outro supervisor, sem menções honrosas ou feitos extraordinários, teria agido.

É o trabalho do BNA na personificação do carteiro, o BNA supervisiona a banca tal como o carteiro entrega as cartas e como Mario Balotelli marca os golos, é trabalho, apenas trabalho, não vemos necessidade de o BNA estar a comemorar como se conseguisse colocar a nossa taxa de inflação abaixo de 1%.

E mais, o trabalho do BNA, do carteiro e do Mario Balotelli já se faz por aí afora, existem limites em termos de solvabilidade e liquidez que os bancos não devem ultrapassar, sob pena de porem em risco os depósitos dos seus clientes e trazerem a contaminação ou efeito de contágio ao sistema.

As regras de Basileia são claras e não são de ontem, portanto, ninguém descobriu a pólvora, o que pensamos é que o BNA está de facto a fazer o trabalho para que foi mandatado, e dizer antes tarde do que nunca é dizer quase nada, importante é dizer que se continue a trabalhar, porque, pelo que entendemos, esta novela é mexicana e apenas estamos no início do trailer.

Entendemos que tudo começou com uma intenção real de fazer os bancos voltar a emprestar a economia, mas isso só se faz com bancos capazes, pois, se os bancos apenas emprestam o dinheiro dos seus depositantes e dos seus accionistas, é importante que sejam bancos criteriosos na escolha dos projectos e empresas a financiar.

Os que não foram criteriosos no passado foram chamados a recapitalizar-se, e esta recapitalização deverá, numa primeira instância, provir de fundos próprios, pois apenas desta forma os bancos estarão em condições de captar depósitos, ou seja, de serem capazes de guardar e investir dinheiro dos clientes, assim funciona o negócio da banca comercial.

Ao BNA cabe garantir, em nome do Estado, que protege o dinheiro das empresas e das famílias que confiam as suas poupanças aos bancos, que estas poupanças estão a ser bem guardadas e bem investidas, garantido através da fiscalização do cumprimento das regras e procedimentos por si criados, de uma supervisão directa e indirecta do mercado e, principalmente, por meio de uma análise criteriosa das contas destes bancos.

Apenas desta forma o BNA terá ideia concreta sobre quais são os bancos que estão em condições, ou não, de operar ou de captar dinheiro das famílias e empresas. Claro está que muitos bancos estão abaixo dos limites exigidos, então o BNA deverá ter mão pesada, mas não no sentido de fechar o banco como se fosse uma barbearia ou uma loja de ferramentas.

Os bancos não podem pura e simplesmente fechar, pois lá deverão estar depósitos ou poupanças de famílias e empresas, e quando os bancos estão com problemas, é porque emprestaram mal estas poupanças; e se o banco encerrar portas, estas poupanças esfumar-se-ão, e perde-se a confiança no sistema financeiro como um todo.

Por mais pequeno que pareça o banco, se cem dos seus dois mil ou três mil depositantes forem fazer levantamentos e o banco disser que não tem disponibilidade para satisfazer, estes 100 passarão a palavra para os outros clientes, que na mesma hora estarão à porta deste banco e certamente também não serão atendidos.

Neste instante, todo o mercado já sabe que existe um banco que não consegue satisfazer os seus clientes, o pânico instala-se no mercado, e os clientes dos outros bancos irão levantar os seus depósitos, e como os bancos não mantêm os depósitos dos seus clientes imóveis nas contas à espera dos levantamentos, mas são aplicados ou emprestados a outras famílias e empresas, então o sistema implode porque banco algum terá como fazer face aos levantamentos.

Aí estamos perante o efeito de contágio e caos social, resultando na perda total da confiança no sistema bancário, e o colchão voltará a ser o cofre mais seguro numa economia destroçada. É exactamente para isso que os países têm bancos centrais, para prevenir a queda do sistema e manter a confiança nas relações entre os bancos e os seus clientes.

Contudo, há uma ressalva que muitos estudiosos fazem sobre a intervenção dos bancos centrais nos bancos comerciais ou de investimento, não os deixando fechar colocando dinheiro dos contribuintes para recuperar o banco. Muitos defendem que os bancos são geridos de forma inconsequente porque, no fim do dia, o Estado irá injectar dinheiro público.

Por esta razão, defendem-se penalizações mais pesadas para os gestores, e deixar alguns (mas muito poucos) bancos falirem é um caminho, mostrando que nada está garantido, pois os principais culpados pela queda dos bancos são sempre os seus accionistas, que são responsáveis pelas comissões executivas que nomeiam em assembleia-geral, por este motivo estes (os accionistas) são os primeiros a serem chamados aquando da recapitalização.

Daí entendermos que o BNA não descobriu o sexo dos anjos ou coisa parecida, é apenas trabalho, e esperemos que continue a fazer o seu trabalho, entregando cartas e marcando golos de forma sossegada e regular, para que o sucesso faça o barulho e a sociedade atribua o mérito aos bons quadros que a nossa supervisão tem.

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