Fábrica de USD sem divisas

14 Mai 2019 / 16:46 H.
Ricardo David Lopes

A falta de combustível com que lidámos na última semana revela mais do que “falta de diálogo” entre a Sonangol e o Governo, como a Presidência da República afirmou nesta semana em comunicado.

O problema revela dificuldades de planeamento, num sector onde os stocks estão sempre ‘no limite’, mas, sobretudo, constitui uma surpresa que a Sonangol alegue dificuldades na obtenção de divisas para pagamento das importações.

Se a maior empresa do País, que vende petróleo em dólares, não tem divisas para comprar refinados importados às empresas que lhos fornecem, das duas uma: ou não está a receber as receitas a que tem direito, porque não lhe pagam lá fora, ou recebe mas não vê a cor do dinheiro, que fica retido em contas do Estado para outras importações, por exemplo, ou para pagar dívida pública ao exterior - ou as da companhia à banca internacional.

Se faltou diálogo, depreende-se que a empresa - a nossa principal fábrica de dólares - não tinha dinheiro e não avisou ninguém, o que é estranho. Não é a primeira vez que faltam combustíveis, mas, desta vez, a situação agravou-se. E vai agravar-se de novo, sempre que a Sonangol não conseguir pagar, atempadamente, as dívidas que tem para com as empresas que lhe vendem gasóleo e gasolina.

Numa altura em que queremos atrair investimento estrangeiro, é trágico que se verifiquem estas situações. Dá a ideia de um país onde já sabemos que falta electricidade que mantenha a indústria em funcionamento, mas falta também combustível (o que não sabíamos) para os geradores que as fábricas são obrigadas a ter. Mais do que diálogo, tem que haver planeamento e antecipação dos problemas – para que eles não surjam com tanta força.

O que se teme é que o discurso da falta de divisas venha a servir para justificar os aumentos anunciados nos combustíveis. Mas, seja essa ou não a justificação, é bom que nos preparemos, porque dificilmente eles vão tardar.