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Ética & Compliance: a dimensão deontológica da ética nas empresas

04 Out 2019 / 13:28 H.
Benjamim M bakassy

Quando confrontada com a realidade, a ética empresarial é, para as empresas, o chapéu sob o qual jazem todas as competências e exigências organizacionais.

Segundo Aristóteles, “o valor fundamental da vida depende da percepção e do poder de contemplação ao invés da mera sobrevivência.”

Quer na sua dimensão mais académica ou científica, a análise e planeamento, execução de planos estratégicos, e monitorização de resultados, são frutos da ética empresarial.

O que é a ética empresarial? Simplesmente, o estudo das acções humanas, contemplando a busca da excelência, como sendo o propósito virtuoso das organizações comerciais.

As palavras não são minhas mas da escritora brasileira Clarice Lispector, que disse: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”

O aprofundamento sobre o universo estudado e percepcionado pela ética empresarial levariaa que toda a ciência da gestão fosse projectada, no entanto a sua fragmentação permite reflexões interessantes e práticas para gestores, líderes, e profissionais de todas as esferas – académicas, comerciais, ou institucionais.

Mui recentemente a dimensão deontológica da vida das empresas tem vindo a ganhar mais atenção. O que é a deontologia no panorama empresarial? A deontologia é, resumidamente, a dimensão legal, vulgo compliance, que deve reger as empresas tendo em conta o enquadramento geográfico aonde as mesmas exercem actividade.

A deontologia é uma das várias dimensões empresarias para as quais a ética empresarial explora as possibilidades de criação (ou alienação) de valor humanamente mensurável.

No paradigma deontológico ideal, a deontologia, em si mesma, bastaria para que a excelência humana fosse alcançada. Isto é, tendo como ponto de partida que a deontologia em vigor fosse em si mesma perfeita o suficiente para o alcance da excelência mínima desejável. Contudo, a deontologia, enquanto meio para um fim que se quer positivo, bom, e não maligno, não é atributo satisfatório para que as acções humanas sejam excelentes.

É deontologicamente reprovável se um indivíduo proceder à subtracção de uma manga, de uma mangueira, de um mangal, que não lhe pertença, mesma que o único motivo seja matar a sua fome – mesmo que o motivo possa constituir uma atenuante, em caso de flagrante de delito, deontologicamente a acção do indivíduo é punível e reprovável.

Um dos principais motivos para a relevância da ética empresarial é a complexidade que a humanização e vivência real humana – necessária e desejável – exige que não seja esquecida ou simplifica como forma de simplesmente passar uma ideia vaga sobre a realidade. A busca pela simplicidade sobre a complexidade que é a vida, e a vida empresarial, deve ser uma busca que vá na direcção das palavras de Peter Drucker: “A simplicidade tende ao desenvolvimento, a complexidade à desintegração.”

A ética empresarial é a base sobre a qual são estabelecidos os alicerces das organizações e interdependência entre agentes económicos e sociais.

Da mesma forma que um músico – por mais virtuoso que seja – não pode tocar todas as notas de um instrumento simultaneamente, também a ética empresarial constrói peças que precisam ser tocadas de forma inteligível mas prática, virtuosa mas humana, cuidadosa mas eficientemente.

A deontologia empresarial é um dos caminhos através dos quais a ética empresarial tenta moldar itinerários para que os profissionais cujos direitos e obrigações devem ser claros, possam ter uma percepção decifrável, daquilo que são as consequências possíveis, das suas acções, e as responsabilidades da sua existência, ou agência.

Mais do que importante, a dimensão deontológica empresarial é um marco , na vida das empresas porque, estabelece um paradigma ético sobre direitos e deveres, punições e retribuições, que durante milénios eram descartadas como não sendo úteis à criação de valor económico e social.

Acima de tudo, a vida das empresas não deve fazer da deontologia ou compliance a sua bandeira, mas sim uma ferramenta essencial. Porquê?

Porque como afirmado no exemplo da manga, mangueira, e mangal, a ética nas empresas deve ser encarada como um puzzle, com várias peças, cuja importância entre elas não deve ser impedimento para a sua coexistência.

Ao mesmo tempo que o enquadramento legal é, e deve ser, uma prioridade inegociável, a reflexão e execução de acções (empresariais) deve conjurar um contributo que, conduza à harmonização entre humanização, criação de valor social, e criação de valor económico.

Quando Freeman propôs a hoje unânime teoria de stakeholders, a sua proposta abriu – através da ética empresarial – a porta para uma dimensão sobre as empresas que, trouxe oportunidades comerciais e de criação de impacto social (e ético).

Contemplar a dimensão deontológica, através dos olhos da ética, é lançar um sopro de esperança que, exige que a mesma – deontologia – seja um marco essencial, mas não um polo absoluto porque se o for, retira o mérito e enquadramento das virtudes morais enquanto essência da vida humana.

“A virtude moral é uma consequência do hábito. Nós nos tornamos o que fazemos repetidamente. Ou seja: nós nos tornamos justos ao praticarmos actos justos, controlados ao praticarmos actos de autocontrole, corajosos ao praticarmos actos de bravura.” Acrescentaria: Ser ético não é lei (deontologia), mas é o humano.