Analogias & Schopenhauer: Maestros ou Líderes?

Angola /
11 Jun 2019 / 15:20 H.
Benjamim M bakassy

Ser maestro é – literalmente – não ser, o melhor músico. Segundo Arthur Schopenhauer “a música não exprime nunca o fenômeno, mas unicamente a essência íntima de todo o fenômeno, numa palavra a própria vontade. Portanto não exprime uma alegria especial ou definida, certas tristezas, certa dor, o medo, os transportes, o prazer, a serenidade do espírito; exprime-lhes a essência abstrata e a geral, fora de qualquer motivo ou circunstância. E todavia nessa quinta essência abstrata, sabemos compreendê-la perfeitamente.“ Liderar é – literalmente – perceber o que disse Schopenhauer. Porque é que alguém que ama música decide ser maestro, em vez de ser o melhor músico? A resposta é simples, apesar da sua óbvia complexidade.

Ser maestro é perceber a essência da música tocada, é conseguir ouvir todas as notas de uma sinfonia antes de ouvi-las aspergidas, é abraçar o desafio de levar a que os melhores músicos sejam também a melhor música. A essência da liderança e da arte da regência de um maestro entrelaçam-se, mesmo com as suas diferenças.

É perfeitamente razoável que o (a) líder de uma empresa seja igualmente um dos membros mais competentes da organização que, pela ausência da capacidade de multiplicar-se em funções acaba por delegar tarefas para as quais ele ou ela seria a pessoa mais qualificada.

Contudo, a pessoa mais competente tecnicamente pode não ser a mais habilitada para assumir posições de liderança.

Liderar implica perceber a essência abstrata que os grandes líderes percebem perfeitamente.

Liderar é influenciar pessoas a contribuírem com o seu melhor em prol de um objectivo comum.

Parafraseando Schopenhauer: A liderança – a que se apela na analogia com o regência de um maestro – é como o amor: não pode ser obtida pela força. [Schopenhauer dizia: “A fé é como o amor: não pode ser obtida pela força.”]

Igualmente verdade é o facto de nem todos os maestros serem necessariamente “boas pessoas”.

Talvez o caso mais mediático tenha sido o do Maestro italiano Riccardo Muti cuja própria orquestra começou a deixar de querer tocar “simplesmente” porque o estilo possessivo do maestro quebrou o seu espírito.

Não é possível ser maestro sem orquestra, nem líder sem seguidores.

No caso de Muti, o final da história terminou com a sua renúncia da posição de Maestro do mítico Teatro Alla Scala aonde durante décadas tinha sido o imperador supremo, algo quase inédito – a relação de forcas entre maestros e todos os outros tende, historicamente, a pender para o lado dos maestros.

Com algum grau de incerteza – mas não muito – arrisco dizer que nas organizações o mesmo pode ser verdade.

Mas voltando à frase inicial: não conheço nenhum maestro que não seja também um músico brilhante, mesmo que não seja o melhor no contexto da sua orquestra.

O maestro não é apenas um regente, é igualmente um interprete que por escolha própria decide que o seu papel mais importante no seu contexto é reger.

O ser maestro é uma escolha consciente. Consciente dos benefícios e trade-offs. Nesse sentido, liderar implica trade-offs que podem ser fundamentais para alguns “líderes”, como por exemplo delegar em vez de estar “no centro” da acção ou a subtil arte de ser o vento sob as asas e não a própria águia cujas garras dilaceram presas.

Algo que caracteriza os grandes líderes é a capacidade de gerar resultados.

Ninguém se torna maestro por perceber muito de música.

Os grandes maestros são sempre e invariavelmente aqueles cujas orquestras são igualmente as melhores. Claro que se os músicos forem os seus maiores fãs, tanto melhor. Mas no final do dia, o que fica para a história, são os resultados, que o diga Riccardo Muti.

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