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A importância das seguradoras na economia

Luanda /
01 Nov 2019 / 10:37 H.
Paulo Bracons

As companhias de seguros podem substituir-se aos agentes económicos no financiamento directo , investindo em títulos ou outros activos financeiros as provisões técnicas dos segurados que adquiriram apólices de seguro.” (*)

Foi recentemente realizada em Luanda, pelo Banco Nacional de Angola (BNA), uma importante conferência sobre Financiamento doSector Privado, no Museu da Moeda. Iniciativa altamente meritória,muito participada,com grande

interacção entre os participantes e palestrantes.

Foi uma excelente iniciativa do BNA,que poderia ter sido mais bem sucedidas e o sector segurador

não tivesse sido quase esquecido.

Nas economias em que o sector segurador está mais desenvolvido,é um grande investidor institucional, contribuindo para o desenvolvimento de grandes projectos, em particular, de médio e longo prazo, contribuindo para

o financiamento da economia e desenvolvimento dos países. Daí que as seguradoras sejam consideradas como o grande investidor institucional na economia,ao investirem neste tipo de projectos.

Mas, como poderão os seguros ajudar no financiamento da economia?

Os seguros contribuem para o financiamento da economia - e fazem-no de várias formas. Estabilizando a economia, ao pagarem sinistros, em particular nas áreas de seguros patrimoniais, pessoais(vida e saúde) e de responsabilidades. Estamos assim a falar quer de seguros não vida, quer de vida.

Falamos na reposição de um bem que foi danificado, na recuperação física de uma pessoa,no pagamento de uma indemnização,por morte ou invalidez,no pagamento de um impacto colateral numa pessoa ou actividade (responsabilidade civil).

O sector segurador funciona, assim, como estabilizador da economia ou, em casos menos comuns,e que podem também dar origem a sinistros de âmbito e natureza mais catastrófica.

Pode ser o caso da poluição de uma determinada zona, causada por uma entidade que tem, por exemplo, um seguro de responsabilidade civil ambiental.

Pode ser o caso de um grande acidente automóvel, de um acidente aéreo, etc..

Mas são os seguros de vida,em particular os que pagam capitais por vida e/ou morte/invalidez,os seguros de poupança e reforma,que são contratados a médio/longo prazos, que mais contribuem para o financiamento da economia, porque colectam as poupanças/capitais de muitos aforradores (particulares ou empresariais) que as aplicam em seguros de vida a oito, 10, 15 ou 20 anos,e que,desta forma,apoiam grande sprojectos de financiamento da economia.

E em Angola, pode este papel ser desempenhado pelo sector segurador?

Pode, mas, para que tal aconteça, é necessário criar condições para o desenvolvimento do ramo

vida e dos fundos de pensões. O sector segurador em Angola é, em mais de 95% dos casos, representado pelos ramos não vida, em particular nas áreas de patrimónios e responsabilidades. O ramo vida é pouco representativo e vende-se hoje, fundamentalmente, através de canais bancários, com seguros de vida que pagam capitais por morte e invalidez e que estão associados a créditos bancários.

Por outro lado, em Angola, apesar da existência de fundos de pensões, ainda não se vendem

efectivas soluções de reforma e de poupança/capitalização, que também passam pela estabilização da economia(enquanto as políticas cambiais não forem mais estáveis e previsíveis, haverá dificuldade em avançar neste campo), por criar incentivos,para que particular e se empresas aumentem os níveis de poupança.

Haverá, assim, que criar condições para que a estabilização da economia possibilite a dinamização da oferta de títulos e activos financeiros a médio/longoprazo,equepermitamàsseguradoras cobrir as provisões técnicas que têm que constituir quando os clientes adquirem apólices de seguro de vida (risco, poupança e reforma). Isso implica também uma maior dinamização do mercado de capitais,o que já se começa a verificar com o trabalho da actual Comissão do Mercado de Capitais (CMC) e da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (Bodiva). É ao nível destas duas entidades que entra o papel do Estado como influenciador e regulador das políticas públicas de investimento e captação de poupanças, criando condições para o financiamento da economia.

Importa ainda referir que, havendo seguros que se compram (por exemplo o seguro automóvel, porque é um seguro obrigatório), há outros, como os de vida - quer sejam vida tradicional (pagamento de capitais por morte e invalidez), quer de reforma/capitalização/poupançaque se vendem. E, para isso, é necessário haver canais de distribuição.

Nos mercados mais desenvolvidos, os agentes de seguros têm um papel importante na dinamização e venda de seguros de vida. Em Angola, para um mercado de quase 30 milhões de habitantes, há aproximadamente 500 agentes de seguros registados na ARSEG, o que é um número relativamente baixo.

Será, assim, importante que se criem condições para o recrutamento, formação e desenvolvimento dos agentes de seguros, em particular de seguros de vida. E este é um papel de todos os actores de mercado, em particular das companhias de seguros.

Em síntese/conclusão, poderemos dizer que a importância das seguradoras na economia do País e no seu financiamento já é elevada,mas pode ser muito mais significativa.

Em Angola, tal é urgente e imperioso, pois as necessidades de financiamento da economia são grandes e o Estado não está em condições de o fazer neste momento. Mas pode ajudar, e muito, como influenciador e regulador das políticas públicas de investimento (CMC e Bodiva) e captação de poupanças, criando condições para o financiamento da economia.