A curva de rendimentos do mercado angolano

Por: Ednilson Sousa 

Actualmente, em Angola, a negociação no mercado secundário de renda fixa engloba exclusivamente títulos públicos. São considerados instrumentos de renda fixa porque o seu rendimento pode ser definido no momento da compra.

Porém, antes de efectuar algum investimento, é importante levar em conta um dos preceitos básicos do mundo financeiro: o dinheiro tem valor no tempo; isso porque, de acordo com o prazo e o momento de análise do investimento, esse valor tende a alterar-se.

Para tal, o indicador utilizado para precificar cada instrumento de renda fixa é a taxa de rendimento até ao vencimento. Quando uma entidade emite títulos com pagamento de juros, sejam estes títulos públicos ou corporativos, é mais ou menos semelhante a quando a entidade arrenda uma casa e paga para poder utilizá-la.

O dinheiro seria mais ou menos como a casa, que a entidade recebe como empréstimo e utiliza. O rendimento seria a taxa de renda a ser paga pela utilização da casa durante um período. Ao final do arrendamento, o que se espera é que a casa seja devolvida; o mesmo acontece com o investimento em títulos. É comum que nesta situação a entidade que emitiu o título vá pagando a “casa”, ou seja, o dinheiro que tomou emprestado adicionado de juros.

Os títulos públicos são instrumentos emitidos pelo Tesouro Nacional que representam uma forma de financiar a dívida pública e permitem que os investidores “emprestem” dinheiro ao governo, recebendo em troca uma determinada rentabilidade.

Esses títulos têm características atractivas como a previsibilidade de retorno e baixo risco de crédito. Ainda assim, num país com 28 milhões de habitantes, o número de investidores em títulos públicos ainda é ínfimo, o que é uma pena, pois os títulos públicos podem proporcionar boa rentabilidade com excelente segurança, mas poucas pessoas entendem como eles funcionam.

Em análises financeiras, os títulos públicos são utilizados como referência para o que se chama de “investimento livre de risco”, ao passo que é comum que títulos públicos façam parte da carteira de investimentos de investidores enquadrados em diversos perfis de risco, desde os mais conservadores até aos mais arriscados.

O mercado primário, por via de leilões exclusivos a instituições financeiras, determina inicialmente a taxa de rendimento anual de cada título, sendo posteriormente disponibilizados parte desses títulos no Portal do Investidor. Porém, a inclusão dos diversos agentes económicos no mercado secundário permite que as negociações das taxas de rendimento de diferentes maturidades se comportem de maneira quase independente.

O que faz bastante sentido, pois é normal que os investidores cobrem rendimentos diferentes de acordo as suas estratégias e o tempo de investimento. É importante que essa informação seja disponibilizada de maneira clara, possibilitando assim obter uma melhor noção de como o mercado tem precificado o risco de investimento de acordo com o tempo.

Ao passo que a estrutura de referência nos é ilustrada por uma das principais ferramentas de infra-estrutura do mercado – a curva de rendimentos. Mas o que é realmente a curva de rendimentos? Simplificando a complexidade dos conceitos económicos e financeiros, a curva de rendimentos é um gráfico ilustrativo da relação entre o rendimento de títulos de idênticas características, excepto pela maturidade.

Geralmente, é usada pelos investidores e analistas como ponto de referência para previsão de mudanças económicas, precificação de instrumentos de renda fixa e elaboração de estratégias de investimento. Imaginemos um cenário em que o cidadão vá a um mercado informal de produtos alimentares e deseja comprar batata-rena para usar ao almoço.

Sabemos que, em regra geral, a batata nacional é mais barata que a importada, e naturalmente terão preços diferentes. Mas, certamente, o cidadão irá deparar-se com diversos (as) vendedores (as) dos mesmos tipos de batata-rena a praticar diferentes preços. Se o cidadão for daqueles que compram logo à primeira, sem procurar saber o preço praticado pelos concorrentes, poderá incorrer numa compra desvantajosa.

Agora imaginemos que logo à entrada do mercado esteja disponibilizada uma tabela com o preço médio praticado para cada tipo de batata. Isso proporciona ao cidadão maior poder de negociação, permitindo que não se deixe acomodar pelo primeiro preço que encontre, por menos absurdo que aparente ser. Essa tabela é semelhante à curva de rendimentos.

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