A ‘ciência oculta’ das reservas de petróleo

Angola /
06 Fev 2019 / 10:43 H.
Rui Amendoeira

Qual é o país que tem as maiores reservas de petróleo no mundo? Suponho que a maior parte dos leitores pensará, imediatamente, num país do Médio Oriente, provavelmente a Arábia Saudita. Outros apostarão na Rússia, seguindo a lógica de que o maior país do mundo deverá possuir as maiores reservas.

Os EUA serão outra possibilidade, ou não estivesse o país à beira de atingir a independência energética, como anuncia repetidamente o presidente Trump. E admito que os leitores mais atentos à industria petrolífera já tenham ouvido o presidente Maduro afirmar que, afinal, é a Venezuela quem tem as reservas mais generosas. Qual é a resposta certa? Todas e nenhuma. Ou seja, ninguém sabe ao certo onde se situam as maiores reservas mundiais de petróleo.

Desde sempre, a quantificação das reservas tem sido um tema envolto em mistério, incerteza, informações contraditórias ou propositadamente enganadoras, em que a ciência se mistura com a política e os interesses económicos, e a verdade e a ficção são os dados disponíveis têm origem apenas nos respectivos governos, sem verificação independente, e logo são facilmente manipuláveis. É assim que a Arábia Saudita, por exemplo, anunciou exactamente o mesmo nível de reservas recuperáveis durante mais de 30 anos, como se se tratasse de uma lei imutável da natureza, não obstante todo o petróleo extraído durante esse período, e as novas descobertas realizadas, para não falar dos significativos progressos tecnológicos que permitem explorar recursos outrora inacessíveis.

No caso da Venezuela, há uns anos o malogrado Hugo Chavez decidiu anunciar, com pompa e circunstância, a descoberta de que as reservas do país são as maiores do mundo, logo quantificadas no numero redondo de 300 mil milhões de barris, o suficiente para ultrapassar a Arábia Saudita, que reclamava 265 mil milhões.

A revelação venezuelana nunca foi objecto de qualquer verificação independente, sendo que vários especialistas consideram o valor de 300 mil milhões de barris “largamente exagerado”. Curiosamente, o maior grau de incerteza parece existir nos EUA, não por falta de verificações independentes ou com origem no sector privado (companhias petrolíferas), mas devido à fluidez inerente ao tipo de reservas que devem ser consideradas.

Se atendermos apenas às designadas reservas convencionais de petróleo, os EUA parecem situar-se a grande distância da Arábia Saudita e da Venezuela, com cerca de 40 mil milhões de barris de reservas. Mas, se adicionarmos as abundantes reservas de shale, o número multiplica várias vezes, e pode mesmo ultrapassar os 300 mil milhões. Situação semelhante ocorre no Canadá, comummente classificado como o terceiro país com maiores reservas, mas em que é difícil apurar a real dimensão do petróleo pesado nas areias betuminosas da província de Alberta. Há quem afirme que, numa análise rigorosa e comparável entre os vários países, é afinal o Canadá que terá as reservas mais abundantes do mundo.

A confusão é agravada pela ausência de critérios universalmente adoptados quando à definição de “reservas recuperáveis”. Em principio, as reservas recuperáveis são aquelas que, estando identificadas, são susceptíveis de serem extraídas em condições de rentabilidade económica utilizando a tecnologia actualmente

existente. A “rentabilidade económica” é o elemento (fortemente) variável. Sobretudo nos países produtores de petróleo não-convencional, e portanto de exploração mais cara, a variação no preço do petróleo pode fazer flutuar significativamente o volume de reservas recuperáveis de ano para ano.

O mesmo país pode ter as maiores reservas mundiais com o barril a valer 100 USD, e quase nenhumas reservas recuperáveis se o preço cair para 30 USD. Acresce que alguns países reportam volumes de reservas que, ao dia de hoje, não são verdadeiramente recuperáveis, porque a tecnologia actual não permite a sua extracção, mas ainda assim são contabilizadas porque se conhece a existência dessas reservas ou as mesmas são fortemente prováveis. É caso para dizer que há “reservas” para todos os gostos, consoante o interesse e a circunstância de cada país. É neste contexto que a Arábia Saudita decidiu realizar, pela primeira vez desde a nacionalização da sua indústria petrolífera, uma certificação independente, efectuada por uma firma norte-americana, do seu volume de reservas recuperáveis.

O resultado foi anunciado recentemente e aponta para um volume de reservas de 268,5 mil milhões de barris, ou seja um pouco mais do que o valor anteriormente (e durante 30 anos) considerado. Este exercício de transparência, pouco habitual num país especialmente opaco quanto à sua indústria petrolífera, parece ser motivado pelo plano de realização de um IPO (dispersão do capital em bolsa) da companhia nacional Saudi Aramco. Se o IPO da Saudi Aramco se concretizar (facto ainda bastante incerto), a existência de informação fiável quanto ao volume de reservas exploráveis pela companhia é uma condição necessária para o sucesso da operação. Afinal de contas, comprar uma participação na Saudi Aramco significa comprar uma participação nas reservas de petróleo da Arábia Saudita. E Angola? Qual é o volume de reservas recuperáveis do País? A incerteza que existe noutros países também existirá em Angola. Em todo o caso, as informações mais fiáveis apontam para um valor entre 8 e 9 mil milhões de barris. No entanto, a efectiva recuperabilidade de uma parte destas reservas, quase exclusivamente offshore, dependerá em grande medida do preço do barril. Esse será tema para um outro artigo.