“Não se pode aplicar este crédito como no Angola Investe

O presidente da Associação Industrial de Angola, José Severino, diz estar de acordo com a medida imposta pelo BNA, mas alerta para que o destino que será dado ao financiamento não seja o mesmo que foi dado aos financiamentos aprovados no âmbito do Programa Angola Investe.

Luanda /
13 Abr 2019 / 13:56 H.

Qual é a posição da AIA sobre o Aviso N º 04/2019 que o obriga os bancos a conceder 2% à economia real? Estamos de acordo. Também temos falado com a Associação Angolana de Bancos (ABANC), particularmente com o seu presidente, e achamos que é uma via que está traçada, e que vai ter o seu caminho. É preciso também perceber como é que se vai aplicar. Tal como o dissemos ao senhor governador do BNA, se vamos aplicar esse dinheiro como se fez com o Angola Investe aqui em Luanda, e um cheirinho nas províncias, não vale a pena. Temos que levar esse dinheiro ao interior do país. Por outro lado, temos que olhar para a questão das pequenas e médias empresas (PME´S).

É preciso que se crie um mecanismo de conforto, senão boa parte do crédito, mais uma vez, vai ficar com as grandes empresas. Essa foi a análise que nós fizemos, e naturalmente os bancos vão poder satisfazer melhor os seus próprios clientes. Nós havíamos feito uma proposta, que assentava na questão tributária, e penso que isto terá ajudado o BNA, que era o seguinte: Os impostos subiriam de 30% para 35%, e os 5% eram exactamente para financiar a economia, ou seja, conceder crédito aos clientes do próprio banco que teriam uma contrapartida igual a do próprio Estado. Deste valor, que incidiria sobre os lucros de todos os bancos, por exemplo, se os 5% representassem 100 milhões USD, o Estado entraria com os outros 100 milhões USD, mas os bancos iriam financiar os seus próprios clientes.

Em contrapartida, os bancos podem deduzir os 2% nas reservas obrigatória... O próprio Estado, de certa forma, abdica das reservas obrigatórias. Primeiro elevou as reservas, agora vai permitir que os bancos possam baixar a sua obrigatoriedade perante o Estado. Ou seja, ao se manter esta obrigatoriedade, os bancos estariam diante de uma situação que causaria um certo desconforto.

Do ponto de vista do negócio bancário, a taxa de juro de 7,5%, incluindo as comissões, imposta pelo BNA é viável? É viável na medida em que o Estado vai continuar a vender títulos de dívida aos bancos, e agregados ao dólar, isso dá conforto. E os bancos vão sentir-se satisfeitos porque vão ver a economia real a crescer. E a economia real a crescer são os

seus clientes.

Os bancos reclamam, em termos agregados, dos níveis de incumprimento. Mais crédito na economia não pode significar também mais malparado. Ou a redução da taxa de juro pode ajudar a baixar os níveis de incumprimento? Claro que sim. Porque o crédito malparado é justificado também pela elevada taxa de juro, além de outras ineficiências. A taxa de juro é extremamente alta, e tivemos um problema que foi a desvalorização que agravou tudo isso. Portanto, vamos dizer que há conforto para todos. Agora, os que forem financiados, têm que ser projectos bem dimensionados, bem estudados, e isso não vai ser o CAP (Crédito Agropecuário) que tivemos no País.

Qual é a sua opinião sobre os períodos de carência dos empréstimos defendidos pelos agricultores? Estes são bancos comerciais e não bancos de desenvolvimento. Agora é uma questão de negociação entre o investidor e os bancos. Não estamos a falar de um BDA, onde temos de ver os períodos de carências, taxativamente colocadas. Por serem bancos comerciais, devem estudar os melhores projectos. Isto não vai ser crédito de abrir a bolsa a qualquer um que chegue, mas sim a empresas que particularmente estão com actividades, e não nega a capacidade de receber propostas de projectos de raiz, mas isto é muito mais uma espécie de reforço do cash-flow.

FA