Kassav de volta aos palcos angolanos no festival de zouk

Por: Lueza Espírito Santo 

Os antilhanos Kassav regressaram ao País, fruto da sua participação, no passado domingo, no Festival Zouk Angola, na Baía de Luanda, e o veterano Jacob Desvarieux desvendou alguns dos segredos do êxito desta grande banda.

Vocês têm uma ligação muito forte com Angola, estão constantemente por cá. Como e quando começou esta relação?

Já começou há muito tempo, mas posso afirmar que foi em 1985. Mas, para nossa felicidade, os angolanos gostam da nossa música. Nós somos de uma pequena ilha perto dos Estados Unidos. Somos cerca de 403 750 habitantes e quando chegámos a África e partilhámos um estádio com 50 000 pessoas foi fantástico. Nós pensávamos que éramos o centro do mundo, mas, ao pisar o continente africano, apercebemonos de que somos um número muito pequeno em comparação com a grandeza deste continente. Gostamos de Angola porque os angolanos gostam da nossa música, e fazer música é justamente isto, dar amor que depois é devolvido.

Que grandes recordações têm dos espectáculos realizados cá?

Todas as recordações são boas, mas não posso deixar de evocar um momento, no qual estávamos a actuar num estádio e víamos todos os espectadores com armas apontadas para o céu e muitas viradas para nós, foi assustador, mas à parte desse episódio temos grandes recordações tanto de espectáculos em Luanda como em Malanje, durante a guerra, e em outras partes de Angola.

O povo angolano recebe-vos sempre de uma forma calorosa e canta todas as vossas músicas, qual é a sensação?

Acho que é a mesma que tenho sempre que vou cantar fora do meu país. As pessoas não entendem o que nós dizemos, mas cantam. Para nós, funciona da mesma forma quando ouvimos uma música angolana: não entendemos o que dizem, mas cantamos. A língua não é uma barreira, e a música não tem fronteiras.

O Jacob elevou essa relação para o outro nível e tem várias colaborações com músicos angolanos, com destaque para o Nelo de Carvalho e a Yola Araújo…

Certo dia recebo uma mensagem que dizia: sou uma cantora angolana e gostaria de fazer uma colaboração consigo. Nesse momento pedi-lhe que me enviasse a música para que pudesse ouvi-la, e de facto ouvi, gostei e avançámos. O mesmo com o Nelo, mas confesso que não trabalho com mais músicos angolanos simplesmente porque não tive essa oportunidade e, como estou constantemente em tours, tenho pouco tempo, mas, se o tivesse, sem dúvida teria todo o prazer em colaborar.

Qual a vossa opinião sobre a música angolana?

Existem grandes músicos e cantores em Angola. Durante a guerra, talvez houvesse menos produtores, mas, quando a guerra terminou, houve uma grande explosão de músicos. Ouvi dizer que muitos deles, pela influência dos Kassav, mas o vosso país está repleto de bons músicos, e não foram os Kassav que trouxeram a música para aqui. Posso dizer que os angolanos misturam e criam músicas a partir do que gostam, e muito do crescimento do zouk deve-se mais aos angolanos que aos de Martinica. A nova geração de cantores em Martinica tenta assemelhar-se muito aos americanos, mas vocês são os que verdadeiramente cantam o que compomos.

Desde 1979 juntos… Qual o segredo do sucesso e da longevidade?

Não existe nenhum segredo. Todos sabem como fazê-lo. Todos acham que supostamente é fácil fazer as coisas sozinho mas, no fundo, sabem que, se fizermos as coisas em grupo, é ainda melhor. Se tens um grande ego, normalmente procuras trabalhar a solo para que sejas tu a brilhar. Nós, quando fizemos castings para decidir quais seriam os componentes da banda, procurámos sempre, para além de grandes músicos, pessoas que soubessem trabalhar em equipa, porque as melhores coisas da vida são feitas em grupo. Posso dizer que alguns membros do grupo já tentaram trabalhar a solo, mas no final acabaram por voltar, porque sabiam que juntos faríamos algo melhor.

O zouk de hoje é melhor de se ouvir do que o feito nos anos 80?

É como no jazz, o rock ou qualquer outro género musical, que começa de uma forma e, se tem sucesso, todos vão querer fazer o mesmo. Dentro desse grupo existem músicos com muita criatividade e que depois de alguns anos vemos que permanecem. Nós temos quase 40 anos de existência e, se compararmos com outros estilos de música com centenas de anos, o zouk continua a crescer. A minha geração quer continuar a fazer música, a inovar, e sabemos que um género musical precisa de progresso, pois não podemos continuar a fazer as coisas como eram feitas antes. O zouk de hoje não é melhor nem pior que o de antes, e a nova geração tem mesmo de procurar fazer algo novo.

Que mensagem tem a transmitir à nova geração de músicos?

A única coisa que posso dizer é que a vossa diferença é a chave para o sucesso. Acho que todos os músicos angolanos podem tocar música americana, chinesa ou de qualquer outra parte do mundo, mas não tem sentido querer ser e fazer o mesmo que outras pessoas fazem. O que devem fazer é utilizar essa experiência para criar um estilo próprio e que, se os ouvirem em qualquer outra parte do globo, possam dizer: este é angolano.

Qual é o segredo do vosso êxito?

Muito sinceramente, não sei dizer. Podia dar-lhe inúmeras explicações e dizer que é porque eu tenho este casaco preto e a barba feita desta forma, mas a verdade é que as pessoas felizmente gostam da nossa música. Quando produzimos uma música nova e achamos que é óptima, esperamos que as pessoas também a gostem de ouvir, e quando ela toca na rádio ou na TV e o feedback é positivo, a sensação é fantástica.

Vocês estão a preparar algo novo?

De momento, não, mas no próximo ano, 2019, celebramos 40 anos de existência e vamos comemorar com um grande show em Paris e logo depois faremos uma world tour, e provavelmente nesse momento lançaremos algo novo, mas quem sabe?

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