Brunch with… Helena Morais

Por: Karinne Manita | Fotografia: Njoi Fontes 

Helena relembra: “Nasci e cresci em Luanda, no bairro da Maianga, tive uma infância muito rica.” E, como todas as crianças, Helena e os sete irmãos tiveram os seus momentos de traquinice: “Era irrequieta, os vizinhos do prédio chamavam-me de metralha, eu era mesmo terrível” (risos). Os seus pais, muito rigorosos na educação dos filhos, mantiveram a religião como base da educação, o que não foi uma tarefa fácil para uma família tão numerosa.

Durante a infância, Helena teve vários sonhos, desde ser cientista, cirurgiã, aeromoça, e por volta dos 8 anos interessou-se por diplomacia. Concluiu o ensino primário na Escola Pioneiro Zeca, em Luanda. Nostálgica, com um brilho nos olhos, recorda a escola que já não existe: “Foi uma grande escola.” Na 5.ª classe, o pai matriculou-a no Colégio Elisângela Filomena, e aí concluiu o ensino pré-universitário em 2002, no curso de Ciências Sociais. Ingressou no ensino superior em Angola, na Universidade Lusíada, no curso de Direito, mas, como o curso não tinha línguas, acabou por trocar para Relações Internacionais, e assim continuou a desenvolver o nível linguístico que pretendia ter.

Durante a sua formação académica, foi encontrando fontes de inspiração, e, na faculdade, Evandra Martins foi a sua musa inspiradora. Era recém-licenciada e ajudou Helena na tomada de decisão em ir estudar para a Rússia, dando-lhe muita força e coragem com estas palavras: “Vai, o diploma é teu, e será uma mais-valia que o concretizes no exterior.” E assim foi, em 2003, Helena seguiu para a sua tão esperada formação académica, e assim a Rússia passou a ser a sua nova morada. Mas, entretanto, depois de estar na Rússia, voltou a mudar de curso e matriculouse em Direito na universidade estatal de Voronezh, onde foi integrada em regime de bolsa numa cooperação dos dois governos, e mais tarde tornou-se bolseira integral do INABE até 2007. Mas durante esse período nem tudo foi fácil, os hábitos e costumes, a introversão dos russos com relação ao Ocidente, a xenofobia e o racismo visíveis naquela altura não a inibem de dizer: “Tenho boas recordações de ter lá estado.”

Terminada a formação, cinco anos depois, chegou o momento tão esperado, o regresso à pátria! Mas diz Helena: “Voltei para Luanda, e aqui começou o meu pesadelo.” Cheia de sonhos, projectos e sedenta de desafios, trabalhar na sua área de formação inicialmente foi muito difícil, e aproveitou para se especializar em direito internacional.

Na altura, as candidaturas às vagas do Mirex eram muito complicadas, era preciso muita sorte para conseguir ingressar no ministério, e, desapontada, sentiu-se esquecida pelo Estado. Como era bolseira do INABE, pensava que teria um enquadramento mais célere no mercado de trabalho, mas, infelizmente, não foi assim, o seu primeiro emprego foi como auxiliar de tesouraria na empresa de despachantes de uma amiga, em 2009, mas tinha de começar por algum lado. “O início é sempre o mais difícil, depois é que vêm os proveitos.”

Na procura de uma oportunidade de trabalho mais promissora, foram várias entrevistas, umas melhores que outras, e tam
bém alguns empregos, até que Helena foi entrevistada por um grupo que recrutava para instituições financeiras. Aí, finalmente, começa a trabalhar no Banco Valor, como secretária executiva, em 2010, e, apesar de estar grávida, isso não foi uma condicionante para não ficar com o emprego: usufruiu da licença pós-parto e no regresso foi indicada para a posição de assistente jurídica. Aí teve de fazer um estágio em Luanda no escritório de advogados SDHP, para ter a sua carteira profissional reconhecida como advogada.

Finalmente, em 2011, foi nomeada compliance officer, função que desempenha até hoje. Com a crise financeira, “o País foi obrigado a ser regido pelas boas práticas financeiras internacionais e a implementar instrumentos jurídicos para as fazer cumprir”, e, após a publicação da lei contra o branqueamento de capitais, o Banco Nacional de Angola criou regulamentos que respondessem às exigências da mesma para as instituições financeiras bancárias e não bancárias.

Para se tornar na compliance officer de referência que é, foram necessárias horas de formação e dedicação, pois esta era uma profissão nova para o mercado financeiro angolano. E como a mesma diz: “A minha meta é ser uma profissional de referência.” Após alguns anos, Helena voltou à Rússia para fazer um estágio no banco WTB, para aprimorar os seus conhecimentos sobre a posição que iria ocupar.

Durante a nossa conversa, falámos de inspiração, motivação e de apoio, e Helena não hesitou em falar dos seus três mentores: a dra. Helena Jardim, que na altura era uma advogada de referência que trabalhava com o BNA, o dr. Rui Miguéis, que nesse desafio da banca foi a pessoa que lhe deu as boas-vindas, sempre muito correcto e respeitador, e a dra. Helena Prata, que foi a advogada tutora que a acolheu durante o estágio. Helena ressalva: “Foram todos muito rigorosos comigo, o que alicerçou esta qualidade que é inata na minha personalidade.”

No ramo pessoal, tem como hobby a música, e quando tem um tempinho dedica-se ao rap, que é o seu estilo musical preferido. A sua exigência estende-se às amizades. Amiga dos seus amigos, determinada e rigorosa, diz-se simpática, apesar de à primeira vista não parecer. Gosta de ler dramas e romances, apreciando a arte em todas as suas vertentes.

Ficou bem clara nesta entrevista uma mensagem de Helena para todos nós: “Nunca desistam dos seus sonhos”, e percebe-se que, para sermos vencedores, é fundamental não mudarmos para agradar os outros mas, sim, sermos nós próprios. Para Helena, “nada acontece do dia para a noite, devemos ser cada vez mais pacientes”. “E, se bem me apercebo, a juventude de hoje quer as coisas para já e não consegue obedecer a etapas. E depois, claro, não usem outras pessoas para fazerem de escadas.”

Helena acredita que não exista desafio maior que viver e manter-se vivo. Os obstáculos e desafios que se impõem no caminho de cada um de nós surgem simplesmente para testar as nossas capacidades, e cabe a nós saber como enfrentá-los, pois os mesmos só nos fortalecem com o passar do tempo, transformando-se em lições de vida.

Comentários