Rúbio Pimentel: “Nenhuma empresa ainda está preparada para o IVA”

O CEO do Grupo Sanzel acha que nenhuma empresa está preparada para o Imposto sobre o Valor Acrescentado, pressiona os bancos a deixarem de ser casas de câmbios e espaços de “amiguismo”, e avança que, sem quadros qualificados, não é possível fazer um upgrade tecnológico à indústria nacional.

Por Ejaíl dos Santos fotos Njoi Fontes

Como avalia o desempenho do sector empresarial nacional?

Actualmente existe uma instabilidade no sector empresarial, temos visto muitas empresas a abrir, e mais ainda a fechar, nota-se um abrandamento do investimento na economia real, afectando o sector empresarial. Acredito que isso se deva a mudança de presidência, nova dinâmica, novas políticas implementadas, impérios antigos consolidados a serem obrigados a refazer as suas estratégias, novos impérios irão ser criados, tudo isso cria a actual inconstância no mercado.

Os investidores nacionais e internacionais estão receosos, estão em modo stand by, a tentar perceber a dinâmica do mercado, como irá caminhar, quais as mais-valias, quais as áreas propícias para investimento. Em Angola, o principal “pagador” das empresas privadas sempre foi o Governo, com a nova gestão, este padrão tende a mudar, estamos perante a uma mudança drástica de paradigma. Com a subida do preço do petróleo nos mercados internacionais, também já se começa a ver uma facilidade na obtenção de divisas, fazendo com que o antigo importador comece novamente a importar, dificultando a vida dos produtores nacionais. Infelizmente, a actual pauta aduaneira só protege o produtor nacional caso o mesmo consiga cobrir uma boa tranche das necessidades do mercado, acredito que necessita de ser acima dos 50% da produção nacional, ora, nesta senda, o produtor nacional de pequeno e médio porte tem sempre dificuldade de singrar no mercado. Sou da opinião de se trabalhar por quotas, mesmo que os produtores só consigam cobrir 10% a 20% das necessidades do mercado, deve-se limitar a importação a 90% ou 80%, obrigando o mercado a consumir o que é nacional, só assim o produtor nacional, conseguirá manter-se no activo, crescer, tornar-se mais competitivo, aumentar a sua capacidade produtiva, e de diminuir os atuais números.
O mercado em si está com taxas de inflação elevadas, taxas de juros elevadas, nível de endividamento acima dos 40% do seu PIB, portanto, não é o melhor cenário, mas é passível de se prosperar.

Têm sido aprovados vários diplomas legais que vão alterar o ambiente empresarial como a Lei da Concorrência e a Lei do Investimento Privado. Qual a sua opinião?

Relativamente à Lei da Concorrência, é uma mais-valia, como já tivera dito, existiam impérios que foram afectados, e tiveram de sair da sua zona de conforto, e foram obrigados a lidar com os problemas dos demais players do mercado, contudo, precisamos de estar atentos, precisa de haver instituições, entidades reguladoras, que assegurem a não criação de novos monopólios. Mas, de forma geral, a concorrência é um bem comum de qualquer sociedade moderna, é fundamental para a inovação e competitividade em qualquer economia de mercado. Relativamente à nova Lei do Investimento Privado, devo admitir que ainda não tive tempo para rever ao pormenor, contudo já estive presente em alguns debates, em que um dos tópicos mais conversados foi o facto de uma empresa estrangeira já não necessitar de ter um sócio angolano, e isso é uma faca de dois gumes, ora, é benéfico para a redução do desemprego, mas, em contrapartida, existem muitos negócios pequenos que passarão a ficar na mão dos estrangeiros, coisas que os angolanos facilmente poderiam fazer.

A pretensão do Governo é que o IVA seja implementado já em Janeiro. Vê alguma pressa nisso, ou acha normal a entrada do novo imposto? O Grupo Sanzel está preparado?

Acho que nenhuma empresa ainda está preparada para o IVA, é algo novo, e o seu processo de implementação foi muito rápido. Como bem disse, é já em Janeiro, acredito que tiveram mais ou menos um ano para legislar. Contudo, o IVA é um imposto usado em todas as economias, não devemos ter receio do mesmo, devemos nos preparar para a sua implementação, e é isso que estamos a fazer. Agora é preciso, sempre que se implementa novas legislações, que se adapte à realidade angolana, parecendo que não, somos um mercado muito peculiar, e diferenciado, então temos sempre de rever os conceitos ocidentais, a nossa veracidade africana. Acho supernormal a sua entrada no mercado, e, aquando a sua entrada, como qualquer outra empresa, teremos de estar preparados.

E o trabalho da AGT? Muitos empresários têm reclamado sobre a carga de impostos…

A AGT deve procurar adaptar-se à realidade do mercado. Deve procurar aumentar a sua base de dados de contribuintes, pois existem muitas empresas a não pagar os seus impostos, fazendo com que a AGT penalize as poucas que o fazem. Vejamos o seguinte cenário, uma cantina de bairro que importa copos plásticos só paga os direitos aduaneiros, e não os restantes impostos legais, automaticamente o seu preço será mais barato que o do produtor local, que, para além de pagar todos os impostos, ainda tem de pagar salários às várias famílias que lá trabalham. Isso tem consequências danosas, o produtor local deixa de conseguir vender, deixa de conseguir empregar, obriga-se a fechar e, quiçá, ainda com dívidas por pagar. Já o Governo perde com isso, é menos um contribuinte que sempre pagou, que deixa de pagar, e aqueles que nunca pagaram continuam sem pagar. Outro assim é o facto de se aumentar os impostos, com vista a resolver os problemas do País. Acredito que a solução, mais uma vez, é aumentar o número de pessoas individuais ou colectivas a contribuir, e não penalizar os poucos que o fazem.

Qual a sua apreciação sobre a banca e o financiamento à economia?

Acredito que finalmente os bancos estão a ser pressionados a deixar de ser meramente casas de câmbios, e espaço de “amiguismo”, e estão a ser chamados para prestar serviços financeiros ao mercado. Hoje, já temos gestor, que antigamente não atendiam as nossas chamadas, porque tinham coisas mais importantes para fazer, são os mesmos que agora ligam a solicitar que o cliente volte a trabalhar com o banco. Isto deve-se ao facto de o regulador, BNA, ter começado a exigir mais dos mesmos, o que é salutar. Agora, precisamos que as outras instituições também sejam mais céleres, como, por exemplo, os tribunais, de forma a facilitar os bancos a activarem as garantias, pois temos muito crédito malparado. Importa dizer que crédito malparado dificulta os bancos a refinanciar a economia. Mas acredito que, com a nova gestão no BNA, as coisas melhorarão. Relativamente ao número de bancos na nossa praça, acredito ser um exagero, ainda espero ver mais fusões e/ou aquisições. Quanto ao financiamento à economia, é na verdade a sua verdadeira missão, contudo, com as actuais taxas de juros, acredito ser muito difícil tal feito, mas, como sou extremamente optimista, e por gostar tanto de apostar em Angola, quero acreditar que os magnatas financeiros irão arranjar uma solução.

O Grupo Sanzel tem investimentos em vários sectores como o turismo, transportes e indústria. Que lições dariam aos empresários que pretendem investir nesses ramos?

Relativamente à Sanzel, as coisas vão andando bem, mas preferia não comentar sobre a Sanzel.

Na indústria, têm dado passos largos, e a aposta no sector da reciclagem já dá resultado. O que falta afinar e em que áreas vão apostar futuramente?

Vamos la ver, a RIGS – Rede Industrial Grupo Sanzel é uma indústria de transformação de plásticos, nós temos como portefólio a produção de copos de café, de água e de refrigerantes, temos também palhinhas de caipirinha e de refrigerantes, temos películas aderentes caseiras e industriais, e temos sacos de alça, sacos em rolo, sacos do lixo, sacos de gelo, entre outros. Das nossas linhas de produção, temos a vertente reciclagem, pois o nosso projecto foi desenhado para perdas zero, e em prol do meio ambiente, não enviamos nada para o lixo, ao contrário das demais fábricas. Relativamente à reciclagem, que é a pergunta, temos como objectivo ampliar o nosso leque de operações, queremos trabalhar com a comunidade local, de forma a recolher o lixo (plásticos) da rua, e reciclar. Ao contrário do que se diz do plástico, é um produto fantástico, tudo aquilo que se pode reutilizar vezes sem conta é fantástico, faz com que precisemos menos de recorrer aos nossos tão escassos recursos naturais. Agora é preciso a intervenção do Governo, no sentido de sensibilizar a população a ser mais responsável e ética para com o meio ambiente, saber onde depositar, e o mesmo, após ser depositado, deve ser tratado e reciclado, e não deixado ao ar livre.

Que investimentos mais estão previstos?

A RIGS (Rede Industrial do Grupo Sanzel) está dividida em três fases, sendo esta ainda a primeira fase, com um valor global de 6 milhões, para o término do projecto completo, ou seja, para as três fases, necessitamos agora do equivalente a 25 milhões USD. Para 2018, não diríamos, mas para 2019, queremos implementar a segunda fase, com um investimento que ronda os 15 milhões USD.

Esse investimento trará aumentos percentuais da vossa produção?

A expansão do projecto irá basear-se em aberturas de novas linhas de produção, e não propriamente ao aumento de capacidade do já existente. Contudo, e se até ao início das próximas fases a demanda de algum produto estiver em alta, ou requerer a expansão, aí, sim, iremos colmatar tal necessidade com a expansão. Neste momento, temos uma capacidade de produção diária de 55 copos, 1 milhão de palhinhas, 1000 películas aderentes: 6 mil sacos em rolo, 8 mil sacos de alça e 2 mil sacos de lixo. Dispomos de um capital humano de 31 trabalhadores, sendo apenas um expatriado. Após a implementação da segunda fase, queremos chegar aos 110 trabalhadores, com cinco expatriados.

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