“Encaro com confiança e positivismo continuar a investir no nosso País”

Domingos Vunge foi um dos nomeados para ‘o’ empresário do ano em 2018. Não ganhou. Irrelevante. Disse-o na altura e repete-o nesta entrevista que o que o honrou foi a nomeação. Numa longa conversa, o empresário que acaba de lançar a sua rede de cafetarias Matabicho, fala do élan da nova geração de empresários angolanos, das lojas do futuro, da resiliência e da visão estratégica quando se pensa um projecto que pode e deve mudar o País. E por isso corre riscos. Calculados. Como o compromisso de um dia contar a sua história, de A a Z, como tantas outras que considera de leitura obrigatória de empresários de sucesso

Luanda /
13 Abr 2019 / 16:12 H.

Um país sobrevive se investir para ganhar competitividade. Se não somos competitivos, somos dependentes. A frase é do empresário Belmiro de Azevedo e traduz mais do que um sentir, uma regra três simples. Como é que o empresário Domingos Vunge analisa a actual realidade económica do País?

Bom, os últimos indicadores macroeconómicos disponíveis evidenciam alguma melhoria devido à recuperação do preço do petróleo, porém ainda insuficiente para inverter o elevado défice de investimento que se mantém refém das altas taxas de juro vigentes no mercado. Com estes níveis de taxas de juro, a ponderação de risco empresarial conduz a que muitos investimentos economicamente viáveis e relevantes para a economia nacional fiquem na “gaveta” por razões estritamente financeiras, o que retira competitividade ao País e daí mantermos uma forte dependência em relação ao exterior. Há alguns sinais recentes que parecem induzir, em futuro próximo, uma baixa do custo de capital, o que, a confirmar-se, a par de outros factores favoráveis já sentidos no contexto económico e empresarial, me leva a encarar com confiança e positivismo continuar a investir no nosso País.

É essa confiança que tem feito emergir uma nova geração de empresários no país? Sente que faz parte deste movimento de ‘turnaround’ da classe empresarial?

Em qualquer País, por natureza, as novas gerações, incluindo a empresarial, trazem inovação que se traduzem em acrescidas capacidades na abordagem ao empreendedorismo. Em Angola, abre-se agora um nova oportunidade aos mais jovens empresários que resulta da lei da concorrência e de outras medidas tomadas pelo Governo, visando abrir a actividade empresarial até aqui muito fechada e circunscrita a um número reduzido de actores. Faço parte deste novo ciclo em que a livre concorrência é um facto e que o mérito vingue acima de todos os condicionamentos ilegítimos e, como tal, prejudiciais ao desenvolvimento empresarial e económico do nosso País.

E com níveis sempre tão baixos a nível do doing business, há resiliência que resista?

A resiliência constitui um requisito fundamental para se ser empresário, mormente em Angola. Vivo essa experiência de empresário há mais de dez anos, em condições nem sempre fáceis que, entretanto, reforçaram a minha capacidade de resistir às adversidades e, assim, olhar o empreendedor não como um simples “comerciante” de negócios de curto prazo, mas como um empresário com uma visão a longo prazo em que a resiliência joga um papel decisivo.

Vamos ser pragmáticos. De facto, o melhor empresário do mundo pode não conseguir sê-lo em África. Que características realmente deve ter um empreendedor em Angola?

Qualquer mercado tem as suas características particulares, pelo que o empresário deve trazer novas valências e adaptar-se à realidade específica desse mercado. Hoje, no mundo global em que vivemos, tudo é mais acessível e os próprios mercados regionais se tornaram globais. Se quisermos distinguir alguma característica específica em Angola, é a resiliência e a visão de longo prazo sublinhadas anteriormente.

Aprende-se a ser empreendedor? Aprendeu?

Há quem atribua condições inatas à qualidade de empresário. O “cheiro” para o negócio, a capacidade para reunir equipas de grandes profissionais na gestão, a ambição e a visão, parecem constituir alguns dos “ingredientes” necessários para se ser bom empresário. Acrescentaria a humildade que nos leva a aprender com o insucesso e a não nos deslumbrar com o sucesso. E, neste contexto sim, penso que se pode aprender a ser um melhor empreendedor.

E volto a perguntar...aprendeu?

Claro, nunca se deixa de aprender, de evoluir com todas as experiências que vivemos, livros que lemos e música que ouvimos...

Que livros é que lê e que música é que ouve?

Gosto de biografias de grandes homens que revolucionaram a Humanidade. Fazedores. Jack Welch, Reagan, Gandhi, Mandela, Steve Jobs...e quanto a músicos Miles Davis, Toni do Fumo, Eliás Dia Kimuezo, Diana Krall. Da nova geração Pérola e Gari Sinedine.

E entre a cultura e os negócios, e mui directamente, o que faz um empresário dos media alargar o seu core, quando e porquê tomou a decisão de abraçar novas áreas de negócio para além dos media?

A área de media constitui uma “paixão” de há vários anos alicerçada num compromisso meu em contribuir para a (in)formação e o consequente desenvolvimento económico e social do meu País. Foi aí que tudo começou, há mais de dez anos. Depois entrei em áreas de negócio em que, sem desprezar a componente social, relevam objectivos de natureza financeira e inerente rentabilidade dos capitais investidos.

E sendo áreas tão distintas como as lavandarias 5àSec, a Casa dos Frescos e as cafetarias Matabicho, como mantém o foco...delegando?

Progressivamente tenho vindo a delegar a gestão das empresas “ Faço parte deste novo ciclo em que a livre concorrência é um facto e que o mérito vingue acima de todos os condiciona- mentos ilegítimos e, como tal, prejudiciais ao desenvolvimento empresarial e económico do nosso País a equipas de profissionais altamente qualificados. Hoje, só excepcionalmente, intervenho na administração corrente nas empresas em arranque, pelo que cada vez mais a minha condição é de accionista e assim garantir toda a autonomia aos órgãos de gestão nomeados.

É difícil delegar um projecto que nasceu na sua cabeça e cresceu nas suas mãos?

Logo de início na concepção e lançamento de qualquer projecto, reúno-me de bons profissionais e, por isso, existe logo uma grande partilha de objectivos e execução na implementação. Depois, é deixar que cada um faça o seu trabalho e assuma as suas responsabilidades, sempre com grande profissionalismo, prestando contas ao investidor dentro das melhores práticas empresariais.

Saber delegar é uma arte nem sempre fácil. Acha que esse pode ser um dos problemas da geração dos empresários mais velhos e não me refiro só em Angola, mas também...

Na verdade, por experiência de casos conhecidos noutros países, a passagem da empresa a novas gerações, nomeadamente familiares, nem sempre é pacífica ou se faz no tempo certo. Aqui, por razões históricas e tratando-se de um empresariado menos maduro, tais casos podem ser ainda mais constrangedores, mas a verdade é que, face à nova fase que Angola está a viver, abre-se a oportunidade e a necessidade de sucessão na classe empresarial, agora mais urgente do que nunca.

Uma percepção que resulta, provavelmente, de mais de dez anos de experiência empresarial, como aliás já referiu. O que sente quando olha para trás?

Sinto que valeu a pena, bastando pensar que se tratou de uma década em que a conjuntura sofreu altos e baixos muito fortes e onde vivenciei experiências muitíssimo ricas e válidas para o futuro. Colhi muitos ensinamentos, nomeadamente, como constituir núcleos accionistas dotados de verdadeiro espírito empresarial, colocando o interesse da empresa acima do seu interesse individual, além de reforçar a minha percepção de risco e visão de longo prazo nos investimentos, bem como do exercício de profissionalismo à imagem dos grandes grupos internacionais.

E se recuarmos mais ainda. Para lá dos dez anos. Quando é que, na verdade, percebeu que seria um empreendedor?

Já como estudante universitário em Portugal, lia muito sobre os empresários de referência naquele País, entre outros, Belmiro de Azevedo, Américo Amorim e Alexandre Soares dos Santos, e assim foi nascendo o “bichinho” de empreendedor e sonhando um dia poder seguir os seus exemplos em Angola. Mais tarde, tenho seguido atentamente os sucessos de Phil Knight, fundador da Nike, Warren Buffet, Steve Jobs e Jeff Bezos que me inspiram no meu dia-a-dia, enquanto empreendedor e gestor.

Entretanto criou uma holding pessoal. Qual o seu mind set, como é que o seu presidente a descreveria?

A minha holding assume-se como uma gestora de participações financeiras, um fórum para o arranque e a dinamização de startups, bem como um centro mobilizador de sinergias nos produtos e nos investimentos/custos dos projectos do grupo.Aí se reúne uma visão global e estratégica da actividade do grupo, em que os seus membros também fazem parte dos órgãos de gestão das participadas para reflectir na holding a realidade do negócio e potenciar as sinergias antes referidas. O controlo de resultados de cada unidade de negócio, representa outra vertente de intervenção, numa lógica accionista e, consequentemente, conferindo toda a autonomia aos órgãos de gestão das participadas. Assim, o seu mindset, que marca o ADN do grupo, é, a um tempo, estratégico e operacional, procurando que o todo seja sempre maior que a simples soma das partes.

E se lhe pedir para destacar, assim de repente, três marcos importantes na história da sua vida empresarial....

Realço o lançamento do jornal Expansão e da revista Estratégia, da cadeia de distribuição alimentar Deskontão/Mel, ambos os projectos inseridos no Grupo Score, e o relançamento da Media Rumo em 2015.

Foquemos no presente, no seu mais recente projecto. Existem em Angola cafés e pastelarias. Ao criar algo de novo é para acrescentar valor...o que tinha em mente quando ‘desenhou’ as cafetarias Matabicho?

Este projecto nasce com base em modelos que são casos de sucesso no estrangeiro, como por exemplo, a Padaria Portuguesa, Jeronymo, Costa Coffee e Starbucks. É algo de inovador em Angola, pois funda-se num conceito de rede de distribuição com mais de 50 lojas, numa primeira fase em Luanda, e depois alargar-se a todo o País, proporcionando uma qualidade de atendimento dentro de padrões internacionais. Queremos que o nosso cliente se sinta como se estivesse num café europeu, mas com um sabor angolano.

De facto, o comunicado de lançamento é muito explícito em dois pontos: excelência de serviço e qualidade dos produtos. Como é que providencia o primeiro ponto, quando há escassez de quadros formados na área da restauração?

Proporcionamos formação na Europa aos nossos colaboradores e temos, periodicamente, especialistas internacionais ao nosso serviço quer na confecção dos produtos quer na afinação dos equipamentos que são da última geração.

Não teme falhar nesse particular, ou faz parte do processo?

Preparamos tudo para não falhar, mas temos consciência de que as condições das infraestruturas e, em geral, de contexto estão longe de se assemelhar a outros países, designadamente países europeus. Mas, naquilo que depende da gestão, estão criadas as condições para tudo correr bem e estou convicto que vai correr bem, competindo com concorrentes há longo tempo no mercado, é certo, mas em que o nosso conceito, tal como aconteceu nesses países, vai sair vencedor.

A aposta no produto nacional está alinhada com o momento que o País vive. Diminuir importações. Qual a estratégia?

Servimo-nos de produtos angolanos, prioritariamente, até porque a nossa facturação é em moeda nacional. Tendencialmente, no funcionamento corrente, a nossa actividade dependerá quase exclusivamente de fornecedores nacionais.

Quais os riscos de se lançar em novos negócios em tempo de contenção, de crise até, com o kwanza a desvalorizarse...

Em geral, o lançamento de negócios em tempo de crise beneficiam do facto de, contrariamente a épocas de “boom”, sermos mais prudentes, organizados, flexíveis e consistentes nos investimentos previstos, garantindo, assim, melhores condições de viabilidade e sustentabilidade. Por outro lado, a crise cria também oportunidades e, no caso, o menu dos nossos produtos corresponde igualmente, a uma necessidade mais sentida agora, pela conjuntura, na alimentação das pessoas.

E como é que vislumbra, qual a sua visão de um café “tecnologicamente” correcto, numa era em que o digital domina?

Temos de usar de “open mind” em tudo o que se refere com o digital. Estão a acontecer coisas impensáveis há dez anos atrás. Não é por acaso que sou um seguidor de Jeff Bezos e outros arautos da modernização com base no digital. Bom, já existe o Café Digital...Por outro lado, já há bancos na Europa a reunir os seus clientes em cafés...Também aqui estamos atentos às grandes mudanças neste domínio que só uma cadeia de grande dimensão como a nossa poderá atender e aplicar.

E da estratégia para os números, quais as suas expectativas, em termos de break-even?

O projecto assenta num business plan elaborado com todo o detalhe e numa base conservadora, onde se prevê atingirmos o “break-even point” e o “pay back” em períodos de tempo relativamente curtos.Exigindo investimentos elevados, dispõe, entretanto, de boas condições de rentabilidade e de geração de “cash-flows”, reduzindo significativamente o respectivo risco de recuperação e de dependência de capitais alheios.

Bom, então porquê a abertura de 30% do capital a oferta pública? Há preferência por investidores em termos de nacionalidade?

Por razões estratégicas. Mais do que um investidor, será um parceiro que trará “apport” ao negócio, de nível internacional, quer na formação de pessoas quer de apoio técnico e fornecimento de mercadorias.

Outra forma de rentabilização é o franchising. A marca está pensada para dar esse pulo?

É um tipo de actividade que tem todas as condições para ser exercida em regime de “franchising”, o que valoriza ainda mais o nosso projecto. Quisemos lançar a 1ª loja e demonstrar à evidência, e não em simples estudo, o que é este projecto na realidade, havendo necessariamente ainda que afinar (fine-tune) processos e procedimentos em função da experiência na fase de investimento e agora de funcionamento. Vamos chegar a um modelo definitivo, embora sempre flexível e adaptável às circunstâncias concretas do momento, e então sim avançar com o protótipo de “franchising”, aliás tendo em conta a experiência que já dispomos no projecto “5àscec”.

E a internacionalização? O termo ‘matabicho’ tem eco em África, pode ser uma realidade em outros países do continente?

Vamos primariamente estender o Matabicho a todas as cidades de Angola e depois a outros países em África em que a figura do “franchising” pode vir a ser explorada com sucesso.

Na mesma semana inaugura o primeiro Matabicho e anuncia adjudicação da segunda unidade à construtora Griner. Time is money, como se costuma dizer...quer comentar?

Quando anunciamos um projecto de rede de distribuição, não podemos, após a 1ª loja, demorar na implementação da 2ª e assim sucessivamente. Esta construtora dá-nos garantia de qualidade, solidez e execução em tempos curtos, assegurando a concretização do nosso plano de abertura de lojas dentro dos “timings” projectados.

Está tudo pensado, tudo by the book. Considera-se um empresário ‘politicamente’ correcto’? Conduzo-me por princípios de interesse nacional e desenvolvo as minhas relações em base institucional. Não faço parte de grupos de pressão ou facções a favor ou contra o mainstream. O exemplo concreto é a área de media em que temos uma revista (Rumo) e os jornais (Mercado e Vanguarda) que não estão hipotecados a qualquer grupo económico ou partido político, muito menos foram capturados por interesses inconfessáveis. Os nossos jornalistas exercem a sua missão com total autonomia e são orientados para uma informação objectiva e dentro de princípios institucionais e do interesse nacional.

Há quem diga também que tem alma de jornalista... interfere na gestão dos seus títulos, gosta de sentar-se na cadeira do repórter?

Foi assim que iniciei a minha actividade empresarial. Acho que é uma actividade nobre e indispensável à democracia. Detém o seu risco e eu sou um “homem” de risco que procuro que seja controlado. Cada jornalista sabe o que fazer e eu respeito isso integralmente.

Mas é relutante em dar entrevistas...porquê?

“Em casa de ferreiro espeto de pau...”. Gosto de usar da maior descrição e dar o espaço aos outros...

Temos exemplos de empresários que se movimentaram para a política, porque sentiram esse apelo, um misto entre desejo e necessidade face aos desafios do país. É o caso de Donald Trump, de Michael Bloomberg...é uma possibilidade para si? A política fascina-o?

Nunca digo que desta água não beberei...Mas não está no meu horizonte. A minha prioridade está em consolidar este forte grupo empresarial, na convicção de que poderei, por essa via, muito contribuir para Angola e para os Angolanos.

E, ainda assim, é possível separar o poder económico do político?

Ao poder político o que é da política e ao poder económico o que é da actividade empresarial. Nos países mais evoluídos, essa separação é muito nítida e é aí que devemos colher o exemplo, certamente percorrendo um longo caminho, mas também sem alternativa ou retorno.

Menos Estado, essa é a sua visão, portanto?

Decorre do ponto anterior que não advogo mais Estado. Há funções que competem ao Estado no campo de serviços públicos e infraestruturas, podendo até incluir parcerias com o privado. Em tudo o mais, cabe ao sector privado assegurar, naturalmente observando escrupulosamente as regras de regulação e supervisão estabelecidas.

Foi nomeado no ano passado para ‘Empresário do Ano’ nos Prémios Sírius. É uma responsabilidade até para com quem está a dar os primeiros passos no empresariado. Já se sente um ‘mais velho’ capaz de dar conselhos? E o que diria...

Foi uma honra estar incluído na lista dos nomeados. Para mim o ser “velho” não é ter muitos anos de experiência (esse é “antigo”), mas ter vivenciado muitas experiências, em pouco mais de uma década. O que aconselharia aos mais novos, com toda a humildade, é serem ambiciosos, dinâmicos, rigorosos, focados no negócio e apostarem no melhor que tem uma empresa: o capital humano.

Quem o conhece diz que é um excelente coacher. Revê-se neste epíteto?

Sou um adepto fervoroso da formação e procuro incentivar todos a melhorar no dia a dia nos seus conhecimentos teóricos e práticos. Seremos um dos grupos angolanos que investe mais em formação, incluindo no estrangeiro.

E depois disto tudo impõe-se perguntar: a entrada em bolsa é uma perspectiva e liderar um unicórnio (empresa avaliada em mais de mil milhões de euros) um objectivo?

Um passo de cada vez. Ser ambicioso significa avançar com determinação, exercer uma grande força de tracção, ser inovador, sonhar com o futuro, mas dar passos bem assentes no terreno. Certamente que terei oportunidade para dar uma outra entrevista lá mais para a frente e aí poderei responder mais objectivamente à sua pergunta.

Jeff Bezos diz que devemos contar a nossa história. Aceitaria contar a sua, num brunch with, numa esplanada solarenga...

Claro, de preferência na esplanada do Matabicho...