Paulo Carvalho: “Angola deve aproveitar as receitas dos recursos naturais para um mundo pós-petróleo”

Expert em Planeamento por Cenário, Estratégia e Inovação aponta, entre outras soluções para o desenvolvimento da economia angolana, tendo como ponto de partida alguns dos seus recursos naturais (minerais, energéticos, agrícolas), a criação de clusters estratégicos em áreas de elevado potencial de crescimento futuro.

China /
05 Ago 2019 / 08:23 H.

Defende haver uma tendência da economia global para formar multipolos. Que lugar deverão ocupar as economias menos pujantes?

Na minha apresentação [no Fórum sobre Competitividade e Inovação, nesta semana, em Luanda] descrevi quatro cenários possíveis para a economia global no horizonte 2040. Num desses futuros possíveis, que denominei Mundo Multipolar, a economia global deixa de ser comandada pelos EUA, passando a haver uma liderança partilhada entre os EUA e a China, e com outros pólos regionais a assumirem uma posição geoeconómica muito importantes, como a Índia e a União Europeia. Neste cenário, será fundamental que as economias menos poderosas consigam ultrapassar os seus problemas estruturais, e que simultaneamente sejam capazes de ter uma visão para o seu futuro na economia internacional. Ou seja, pensarem de forma proactiva no papel que poderão assumir a uma escala regional, e que parcerias estratégicas e decisões deverão tomar para aproveitar algumas das oportunidades e desafios que irão transformar as sociedades e economias.

Como é que Angola pode posicionar-se neste cenário?

Em primeiro lugar, será fundamental que Angola continue a trabalhar de forma persistente no sentido de resolver alguns dos seus problemas estruturais, sem o quais não será possível ambicionar ir mais longe.

Estou a falar de questões como o funcionamento das instituições e melhorar os sistemas de Justiça, Saúde e Educação.

No entanto, penso que, a par destes desafios que são geracionais, Angola poderá explorar um conjunto de oportunidades e tomar um conjunto de iniciativas de natureza estratégica.

Quais seriam essas iniciativas estratégicas?

Em primeiro lugar, Angola deverá ser capaz de ter uma visão estratégica para o futuro a longo prazo que seja distintiva, clara e facilmente apropriada. Embora seja um princípio óbvio, a verdade é que, muitas vezes, os países - e as organizações - nem sempre têm esta visão claramente definida e partilhada. Realizar um ambicioso processo de reflexão estratégica para 2040 ou 2050, envolvendo os seus principais actores - políticos, empresariais, academia, sociedade civil -, deverá ser uma prioridade. Esta visão deve ser acompanhada de uma forte ambição. Liderar e gerir em ambientes de elevada imprevisibilidade e turbulência exige que os líderes políticos e empresariais sejam ambiciosos e afirmativos. Não no sentido de serem aventureiros e não medirem o risco das suas decisões, mas de serem capazes de mobilizar a sua população e os actores chave em torno de algo que gere esperança.

O País depende muito de uma commodity em declínio, mas que continua a ser essencial para a economia.

Que precauções deve tomar para gerar receitas sem petróleo?

Penso que Angola deverá aproveitar as receitas geradas por alguns dos seus principais recursos naturais, incluindo o petróleo, para se preparar para um mundo pós-petróleo, ou seja, um mundo em que esses recursos deixem de ter a relevância que têm hoje. Não sendo possível nem desejável replicar, Angola deveria olhar para os investimentos massivos e sustentados que países como, por exemplo, os Emirados Árabes Unidos fizeram ao longo dos últimos 20 anos no sentido de se tornarem relevantes numa economia global pós-petróleo, transformando algumas das suas cidades e regiões em hubsempresariais, logísticos e financeiros a uma escala internacional. Outra questão que Angola deverá reforçar, tendo como base de partida alguns dos seus recursos naturais - minerais, energéticos ou mesmo agrícolas -, é a criação de clusters estratégicos em áreas de elevado potencial de crescimento futuro. Só desta forma será possível ir além da mera exploração desses recursos, criando as condições para que se desenvolvam no País verdadeiras cadeias de valor e de fornecimento.

Que vantagens pode tirar da posição geoestratégica e que estejam pouco exploradas?

Pensar a posição geoestratégica de Angola no continente africano será outra questão fundamental, a qual deverá ser trabalhada através de parcerias com diferentes países e regiões do mundo.

Estas deverão ser acompanhadas por múltiplas parcerias com actores globais - empresas, universidades, fundações, etc. -, fazendo crescer a centralidade e atracção regional, continental e global de Angola.