“Na agricultura, pagamos o combustível mais caro do País”

O empresário afirma, que só continuam a apostar no sector, aqueles que têm amor. Outra situação crítica que requer atenção é a relação de débito entre o camponês e as grandes superfícies comerciais, devendo contar com a participação da banca.

Angola /
03 Jan 2019 / 16:19 H.

O que significou para si pelo o segundo ano consecutivo, estar entre os candidatos ao prémio Gestor do Ano, depois de ter concorrido para Empreendedor do ano em 2017?

Quando apareço num prémio que é patrocinado pela Deloitte, já sabemos quem são os potenciais vencedores. A gente que está na agricultura não trabalha com estas companhias. Você mesmo viu quem foram os vencedores, petróleo, bancos. Nós trabalhamos com as localidades onde estamos inseridos e queremos ser um pólo de desenvolvimento nas regiões onde estamos inseridos. Não estamos preocupados com prémios. Quero apenas dar o meu contributo ao meu País.

Em resumo, quando e como abraçou a vida empresarial?

A minha história, como empresário começa depois de deixar o Estado. Comecei a trabalhar para o Estado com o algodão em 1973. Depois da independência criamos a secretaria do Estado da Agricultura, éramos todos jovens e eu fui o primeiro director da ENCODIPA, que era a empresa nacional de comercialização de produtos agrários. Fazíamos a comercialização e a distribuição dos meios de produção aos camponeses. Através desta empresa conheci, praticamente o País. Estávamos em quase todos os municípios, para além das delegações provinciais. Depois de algum tempo entendeu-se que a empresa tinha que passar para o Ministério do Comércio. E nessa altura tínhamos uma empresa financeiramente pujante. E também comercializávamos café e outros produtos. Tínhamos uma actividade enorme. Ainda hoje fala-se do trabalho que a ENCODIPA desenvolveu. Mas o Ministro

não quis que eu fosse ao Comércio e como prémio entregou-me a gestão uma das piores empresas que o Ministério da Agricultura tinha, a Empresa Nacional de Mecanização Agrícola (ENAMA). Foi a escola da minha vida, como empresário. Lá eu aprendi muito, porque tinha uma série de pequenas empresas dentro, foi com aqueles operários que aprendi. Depois da ENAMA fui nomeado para Vice-Ministro da Agricultura. Depois pedi para sair em 1989, porque não estava de acordo com determinados princípios que chocavam com os meus. Foi assim que passei para o sector privado.

O anúncio da saída da economia planificada para de mercado ajudou de alguma forma?

Não deu muita ajuda, porque tentei afastar-me ao máximo da agricultura, apesar de continuar ligado ao sector, experimentei outras áreas. Mas, sabe que naquela altura para se conseguir alguma coisa tínhamos de estar ligado ao Estado. Mas, um certo dia encontrei-me ocasionalmente com o então, Ministro Carlos Fernandes, que convenceu-me a voltar para a agricultura. Então fui à procura de fazendas. Entretanto, já se tinham distribuído as melhores. Curiosamente, eu participei na Comissão Nacional Agrária, que em 1975/1976 fez a proposta de confisco. Mas por ironia do destino, quando eu pretendi uma fazenda já não havia. E portanto, um amigo que estava no Waku Kungo sugere que eu fosse a Cassongo. Nós estamos a 44 km de distância do Waku e perto de 70 km de Cassongo. Mas, nessa região travou-se guerras intensas e havia muitas minas. Há mais ou menos 10 anos (2008 e 2009). Lá fui, tivemos que fazer estradas, foi um sacrifício muito grande. A Acquasolo importava sementes de feijão, milho e outras graminhas. Mas eu tinha de produzir também. Começamos a multiplicar as sementes, e no início tive a resistência dos trabalhadores que diziam que eu estava a

dar um tiro no pé.

Hoje as pessoas começam a perceber que as terras no País não são assim tão férteis, também teve que fazer correcção de solos?

Tive sim. Quando as pessoas dizem que os nossos solos são ricos não têm noção. Temos que fazer correcções.

Para além das estradas e grandes distâncias que outras dificuldades enfrentam?

Para alem de outras dificuldades com que o sector se debate, nós enfrentamos o preço do combustível. Em Camangala, o preço do combustível é 250 kz o litro. Na agricultura, pagamos o combustível mais caro do País. Com este custo, estradas horríveis, porque temos de as arranjar várias vezes, só mesmo para pessoas que têm amor pelo sector, porque houve muitas desistências. Se for para aquela região, todos terrenos têm dono, mas poucos fazem alguma coisa, grande parte está abandonado. Há também um problema grave. Os índices de roubos no campo são impressionantes.

Que culturas são produzidas neste momento?

Neste momento, estou a multiplicar milho semente e milho para ração, 400 hectares num sítio e cerca de 200 hectares no Wako Kungo. Temos variedades de feijão que estamos a recuperar. Para ajudar a recuperar alguns hábitos alimentares que se perderam. Estamos a produzir quantidades razoáveis de soja, 200 hectares, e vendêmo-la à Aldeia Nova. E este ano há perspectivas para uma boa campanha. Introduzimos novas sementes, estamos a trabalhar no massango e na massambala, para rentabilizar a actividade. Estas culturas são muito consumidas no País. Vendemos na Huíla, a FAO também compra para as populações, o Ministério da Agricultura. Estamos também a fazer multiplicação de sementes de ginguba, cinco hectares para aproveitarmos a semente. Agora começamos a fazer um feijão catarino excelente.

Que projectos empresarias a holding Acquasolo detém?

A Acquasolo está ligada à indústria de hotelaria, nas pescas, mas diminuímos a actividade consideravelmente; importação, produção e comercialização de sementes; fabrico e venda de mobiliário. Produzimos ração em fase experimental para os pássaros, que é uma combinação de milho, massango e massambala. E estamos a auscultar o mercado para perceber melhor como podemos comercializar estes outros subprodutos embalados.

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