“Mostramos que é possível investir em Angola dentro das boas práticas internacionais” - Tiago Laranjeiro

Angola Capital Partners lança o seu primeiro relatório de impacto económico e social, resultado de dez anos de gestão dos fundos FIPA e FIPA II que apoiam pequenas e médias empresas com projectos sustentáveis, diz o seu director geral.

Angola /
26 Nov 2018 / 10:22 H.

Dez anos depois do início da sua actividade, a Angola Capital Partners apresenta o seu primeiro relatório de impacto social e económico. Porquê agora?

O Relatório de Impacto Económico e Social é uma análise destes 10 anos de actividade de investimento em Angola, através dos Fundos de Investimento FIPA e FIPA II. Para se fazer um estudo desta natureza é primeiro necessário construir um trabalho, ter um histórico. Depois, olhar para trás, fazer uma reflexão e nortear o futuro. Também Angola, neste momento, virou uma página, e tenta apostar no seu desenvolvimento económico e na diversificação da economia abrindo-se ao mundo, ao investimento externo. É por isso importante podermos ter casos positivos a mostrar internamente e também externamente. Mostrar que é possível investir em Angola dentro de parametros de melhores práticas internacionais.

Quais os resultados mais ‘gritantes’ desse estudo?

O resultado mais gritante é este estudo poder comprovar, nesta ocasião, que o sector privado é o motor do desenvolvimento dos países. Que são as empresas e as pessoas, através do engenho da sua iniciativa e capacidade, que fazem as coisas acontecer, e que com isso criam riqueza para a sociedade. Principalmente as empresas que se focam para atingir bom resultados financeira, social e eticamente. Do estudo, salientar os seguintes indicadores de impacto dos investimentos da ACP: 1600 novos postos de trabalho criados, dos quais mais de 30% são empregados primeira vez; 30% de representação feminina no portfólio ACP em 2017 (aumento de 23% em 2012); 8 milhões de pacotes de produtos alimentares frescos fornecidos aos clientes por anos; 5 milhões de materiais de construção que permitem novas 1700 casas por ano; 160 toneladas de peixe capturado durante o período de investimento que alimentam 1,8 milhões de consumidores por ano; e 60 milhões USD do total de impostos e taxas governamentais pagos.

Como foi mensurado esse impacto nas diferentes vertentes económica e social?

O estudo apresentado resulta do trabalho da EBS Advisory, uma empresa internacional líder na consultoria ambiental, social e de governação corporativa em África. Além de ter sido recolhida e feita uma análise da informação económico-financeira das empresas, foram feitos inquéritos aos seus trabalhadores para aferir o nível da sua evolução em termos de formação, de progressão profissional, salários, condições de trabalho e satisfação, igualdade de género e saúde. Os resultados foram depois medidos em relação à sua contribuição para os objectivos de desenvolvimento nacional constantes no plano do governo de Angola e em relação à sua contribuição para os objectivos de desenvolvimento sustentável tais como os definidos pelas Nações Unidas.

O FIPA foi o primeiro fundo de private equity dedicado exclusivamente a Angola. Que overview faz da sua execução?

Há 10 anos atrás, quando começámos as nossas actividades e tentámos angariar capital para investir em Angola, muitos não acreditaram que era possível. Questionavam se um Fundo de Investimento podia operar no país seguindo os melhores standards internacionais de governação corporativa, de transparência, de controle financeiro. Se havia empresas e empresários com qualidade para fazer este tipo de parcerias. Se se conseguiria atingir resultados. Hoje, e com a ajuda deste Estudo consegue ser demonstrado que isso foi e é possível. É possível investir em Angola para o desenvolvimento. O Relatório de Impacto Económico comprova também o papel do capital de risco como um catalisador para o desenvolvimento do país.

Estamos a falar do primeiro fundo angolano. Tem, todavia, capital estrangeiro. Quais os inputs dessa presença internacional na gestão de um fundo nacional?

A Angola Capital Partners é uma sociedade gestora fundos de investimento que resulta de uma parceria entre o Banco Angolano de Investimentos e a Norfund (fundo de investimento do Estado da Noruega para países em desenvolvimento). A equipe de gestão foi potenciada pela experiência em gestão de fundos de capital de risco trazida pela Norfund e pelo conhecimento do BAI do mercado local, dos empresários e das especificidades do mercado angolano. Ao nível do capital disponibilizado para investir, este proveio (além do BAi e Norfund) de fundos institucionais como o Banco Atlântico e as instituições de desenvolvimento da União Europeia, Dinamarca, Espanha e SADEC.

Em termos de compliance e governance, por exemplo, num país que tem o seu Doing Business ainda em níveis baixos, houve choques? Que avanços foram feitos?

Angola avançou muito desde o fim da guerra até que a crise se instalou em 2015. Nesse período Angola tinha ganho credibilidade, e a muito custo, tinha-se já posicionado como um destino internacional de investimento. Tinha a seu favor também um ambiente seguro ao nível de risco cambial que resultava do uso liberalizado do dólar americano na economia. Havia também uma crescente abertura ao exterior e um esforço das instituições, nomeadamente o BNA, para convergirem nos seus níveis de funcionamento e supervisão. No entanto, a partir de 2015, com a forma de gestão da crise petrolífera, essa imagem e percepção internacional perdeu-se completamente. Hoje sente-se que angola está a tentar reconquistar essa confiança. Para isso está a fazer as reformas e a tomar um posicionamento que parece correcto. E por isso existe optimismo, mas agora de uma forma mais prudente. A questão cambial, principalmente, deixou muitas cicatrizes e o nível de segurança hoje exigido pelos investidores é mais alto. O estado terá que encontrar uma resposta adequada para demostrar que se pode investir em Angola com segurança cambial. O ACP estará na linha da frente para continuar a investir e provar que essas medidas e enquadramento funcionam. os fundos são entidades reguladas pela comissão de mercado de capital do Luxemburgo. Os fundos e as empresas do portfolio são auditados. O processo de investimento obedece às regras e standards do Banco Mundial / IFC.

Depois do FIPA I, surge o FIPA II. Que diferenças entre os fundos ou trata- se apenas de uma extensão da primeira versão?

Fundamentalmente é uma extensão. Em fórmula que ganha não se mexe. O FIPA I teve fundamentalmente como objectivo ser um fundo de demonstração. Demostrar que Angola como país era atractivo para investimento, mas também demostrar que a estratégia de investimento de capital de risco tinha sucesso. A abordagem de investimento do ACP assenta no retorno do investimento medido a três níveis: 1) viabilidade económica e retorno financeiro, 2) impacto ambiental e social e 3) boa governação corporativa e transparência.

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