José Luís Cabral:“Devemos usar recursos excepcionais para desenvolver o Turismo”

Sócio gerente da Travelgest, a única que traz cruzeiros ao País, lamenta a falta de condições para que o turismo tenha o crescimento que podia. Angolanos fazem poucas viagens de lazer pelo interior.

Luanda /
05 Mar 2019 / 10:57 H.

Como foi dar início ao longo de sete anos a aventura de colocar Angola na rota dos transatlânticos?

Foi de facto uma aventura, fazer algo inédito, pelo menos em grande escala, porque no passado já vinham cruzeiros a Angola, mas de uma forma muito tímida. Terão cá estado antes pelo menos dois ou três, em 30 e poucos anos. Nós retomamos essa actividade. Na realidade é que de alguma forma ainda não estamos preparados. Já estivemos, mas já não o estamos para a recepção de navios cruzeiros, porque os nossos portos têm uma vertente mais comercial do que turística. Foi preciso ir fazendo algumas adaptações nesse sentido e depois também a nível das infra-estruturas.

A verdade é que passaram seis anos e já vamos com uma carteira de cerca de 32 cruzeiros e 15 mil pessoas já transportadas.

Começamos por Luanda, depois chegamos também em Lobito e rapidamente, desde 2014, salvo o erro começamos a fazer no Namibe uma vez por ano. Todos os anos em Abril recebemos o navio que faz paragens nos Portos do Namibe, Lobito e Luanda. E cá estamos para mais uma época 2018-2019. Nesta época vamos ter três navios: a 5 de Março, outro a 24 de Março, e o terceiro nos dias 3,4,5 e quem sabe 6 de Abril, se optarem ficar mais de um dia em Luanda.

O que foi feito da vossa parte para que fossem criadas condições para receber esses turistas?

Houve realmente um trabalho muito profundo da nossa parte na tentativa de se conseguir com que se criassem algumas condições.

Nós não temos de facto as condições ideias e necessárias; temos as possíveis mesmo assim as existentes foram de certa forma melhoradas e isto fruto do trabalho que vimos desenvolver diante das entidades intervenientes do sector marítimo, nomeadamente o Porto de Luanda, a Capitania do Porto de Luanda, que dentro do possível foi fazendo algo que ajudasse a melhorar um pouco as condições de recepção dos navios de cruzeiros de forma a proporcionar-se melhor conforto aos turistas quer no desembarque quer no embarque.

E do lado do Porto de Luanda?

O Porto de Luanda fez realmente um esforço e isso permitiu que até determinada altura essas condições fossem melhoradas.

Infelizmente, penso essas condições começaram novamente a diminuir porque havia áreas dentro do porto que consideramos ideais para a recepção dos navios de cruzeiros e essas foram ocupadas para outros fins, apesar dos vários alertas dados ao Porto e às entidades governamentais.

Infelizmente o nosso apelo não foi ouvido e refiro-me muito concretamente a uma moagem que foi construída dentro do Porto. Isso retirou 90% da capacidade que o Porto teria de construir nessa zona específica, para a recepção de navios cruzeiros. Na minha óptica é tão mais absurda a construção dessa moagem dentro do Porto; na cidade de Luanda; na Marginal; num ponto de interesse turístico; numa das poucas entradas da cidade com todos os inconvenientes daí resultantes: poeiras, cheiros, assim como a movimentação de viaturas pesadas.

Esta situação pode levantar questões de segurança?

Tudo isso condiciona o nosso bom trabalho no Porto e também a circulação dos passageiros. Mas não está em perigo a circulação ou a segurança dos passageiros, já que são tomadas medidas adequadas nesse sentido, quer pelo Porto de Luanda, quer pelo terminal onde habitualmente os navios atracam, no entanto as condições essencialmente diminuíram em cerca de 60% enquanto esperávamos o contrário.

Como é feita a recepção dos turistas quando os navios acostam?

Os navios após todos os procedimentos gerais em que está sujeito e todos apoios internos e no mar são testados pelo Porto e pelo Terminal atraca e são compridas todas as formalidades migratórias, sobem em abordo diferentes entidades, nomeadamente o SME, polícia fiscal, a alfândega, a saúde e mais algumas entidades, que fazem a conferência de toda a comunicação a bordo e depois o SME faz todo o trabalho conjunto com o navio e normalmente num período que vai dos vinte aos trinta minutos, os turistas estão a sair do navio. É um processo expedito porque ao abrigo de um acordo internacional, os turistas de navios cruzeiro estão isentos de visto.

A partir de que momento começa o trabalho da Travel- Gest e que apoio dá aos turistas?

O trabalho começa alguns meses antes em todos os preparativos para os tours que os turistas vão fazer no dia. Às vezes mais de seis meses de trabalho, onde trabalha as visitas que vão se fazer nos locais, quantos tours vamos fazer, os horários. Portanto, tudo isso é um processo de organização de autocarros, guias. Tudo tem queser informado, para que tudo no dia esteja preparado para que se possa receber os turistas. O nosso trabalho depois é operacionalizar o trabalho que é feito ao longo do tempo com a recepção dos turistas nos diversos tours que vão fazer, uns dentro da cidade e outros fora.

E trazê-los também em segurança de volta ao navio. Esse é o nosso trabalho.Costumam ser quantos autocarros?

É variável, depende dos navios. Este em particular, depende. Nós ainda não temos os dados finais mas temos em contacto que sejam entre 12 a 14 autocarros. Já chegamos ao caso de termos 25 autocarros para navios de 1.100 passageiros, um deles ocorreu o ano passado.

Que pontos da cidade de Luanda os turistas visitam? Há novidade em termos de roteiro?

Este é um roteiro que é combinado entre o Museu e o Mercado do Benfica, para nós também se torna interessante. É fácil para os turistas se deslocarem entre os dois pontos. É um dos tours que vamos fazer neste navio. Teremos mais três, um para o Mussulo onde os turistas vão almoçar e passar algum tempo num dos resorts do Mussulo. Teremos também um sítio aqui na cidade, de alguns pontos que sejam referência turística. Tudo assim digamos mais ligeiros. Os turistas na maior parte dos casos não saiam na maior parte do autocarro e visitam alguns pontos apenas para tirar fotografia. Um ou outro ponto podem sair. É um tipo de tour para aquelas pessoas que não querem estra a entrar e a sair, querem ver a cidade apenas do autocarro com uma ou duas paragens. Portanto são estes os quatro tours para este navio.

O que significa em termos de impacto para o País a vinda regular de cruzeiros turísticos?

Felizmente tem sido de facto regular. Ainda não tivemos nenhum interregno, mas já tivemos mais navios num ano. Houve uma época, entre 2013 e 2014 que atracaram nove navios num ano, que se traduz em seis meses, porque os navios vêm de Outubro a Abril. O que isto traz para o País é uma forte divulgação, apesar de esporádica, de alguma forma abriu Angola para o turismo. Porque é um tipo de turismo que atrai outras pessoas. Mais de 98% dos turistas saem daqui satisfeitos com aquilo que viram, nos três Portos. Os turistas quando voltam para os seus países transmitem a imagem daquilo que viram; são portadores da informação e fazem o marketing. Esta informação depois circula pela internet. Isso acaba por trazer ao País uma imagem de que existem condições para fazer turismo, ainda que seja um turismo de costa.

A Travelgest é a única agência de viagens e turismo a trazer estes cruzeiros ao País. Ainda há espaço para outras?

Pensamos que sim, porque o mercado é muito recente e opotencial é enorme. Mas temos de pensar que há ainda algumas condicionantes, porque já pensamos trazer navios de maior porte, de 3 mil até 6 mil, mas chegamos a conclusão que não era a altura certa, porque temos de ser realistas. O nosso teto vai para os 1300 passageiros. Por outro lado, não deverá haver mais navios a escalar Angola, porque a menos navios a circular pelo mundo. Sei que neste momento estão em construção pelo menos 16 novos navios no mundo. Mas que não serão suficientes, porque a indústria desenvolveu-se de tal forma que não tem meios suficientes para atender a procura.

Que condições podem ser criadas para que atraquem em Angola transatlânticos de maior porte?

Além das dificuldades que já descrevi, infelizmente temos de concordar que Luanda e várias cidades do País, resultantes da guerra e de alguma desorganização, não estão 100% urbanizadas.

As cidades enfermam de várias dificuldades que não atraem o turismo, começam com a questão dos transportes públicos, a iluminação pública, limpeza das vias e a própria cidade em si, a partir de uma determinada hora, quando as empresas e os serviços fecham, Luanda fica deserta, sem vida. Não há zonas de animação (cinema e teatro) ou de restauração espalhadas pela cidade, que possam estar abertas até determinadas horas. O comércio é ainda muito insipiente, falta centros comerciais na cidade. Tudo isto faz parte do tal pacote que poderíamos oferecer aos armadores e as companhias que operam os navios de forma a podermos dar mais matéria que os faça também procurar mais o nosso País.

Há outras coisas que temos de cuidar, porque receber aqui 500 turistas é uma coisa, recebermos até 4000 mil por dia, como acontece com outras cidades é outra. É preciso, portanto, que a cidade tenha uma logística enorme para receber este número de pessoas. Quando existem condições as companhias conseguem programar estadias mais largas, de um e mais dois dias.

Que potencial financeiro pode atrair essas viagens para o País...

Obviamente que o retorno directo desta actividade é sempre relativamente reduzido, em detrimento de outras paragens.

Em Angola nós temos ainda poucos atrativos, por exemplo, se na Marginal tivéssemos restaurantes ou várias lojas, obviamente os turistas que saíssem iriam gastar mais. Mas eles não têm onde gastar o dinheiro que trazem. Levamos a alguns sítios, locais onde podem comprar coisas muito rapidamente, como por exemplo, ao mercado do Benfica, porque fica difícil na cidade estar a procura da loja A, B ou C. Não temos lojas suficientes na cidade vocacionadas para isso. Temos, salvo erro, uma ou duas viradas para o artesanato.

Portanto, há que melhorar essa parte para que o turista quando chegar possa realmente gastar muito mais no País. Lembro que no ano passado houve uma feira de fronte ao Porto de Luanda.

No ano passado tivemos a sorte de ter uma feira, que foi muito positiva a vários níveis, nomeadamente para aqueles que lá estavam a vender. Tiveram um bom retorno nesse dia. Portanto, neste tipo de coisas, tem de acontecer mais vezes para que o turista comece a gastar mais. Neste momento as opções não são muitas.

Qual é de facto o objectivo de atrair mais cruzeiros ao País?

Como disse, é a imagem de Angola que vai lá para fora e pode trazer turistas por outras vias, via aérea, por exemplo e deixar obviamente divisas. Acho que temos que olharpara a nossa iniciativa como uma acção de Marketing que de alguma forma é gratuita. Eles vão lá pra fora, sendo os próprios turistas, a tripulação ou a própria empresa a divulgarem, que Angola é bonita.

Que projectos a empresa tem em curso ou em carteira?

A empresa existe desde 2012 e para além dos cruzeiros, e o facto de sermos uma agência de viagens como outras, temos uma área de venda de bilhetes de avião,tratamos vistos de viagens, o que é habitual, estamos também a desenvolver a outra vertente do turismo nacional que é a captação de turistas para visitarem o nosso País ou para estrangeiros ou nacionais venha visitar os vários pontos que temos no País.

Em que pontos do País chegam os vossos serviços?

Estamos mais focados na zona sul, na cidade de Luanda e a zona sul, nomeadamente na província da Huíla e do Namibe (Benguela também). Temos trazido já alguns turistas, via aérea, grupos/ individuais têm vindo conhecer (as províncias supracitadas). Já temos grupos regulares que todos os anos estão a vir, e temos também individuais que estão a aparecer. Temos também que lutar para a facilitação dos vistos que também ajuda, que é um dos problemas que está a ser resolvido, não está afinada a 100%, mas que já ultrapassa algumas barreiras e realmente empenhados em desenvolver essa área do turismo que é a recepção de turistas por outras vias, nomeadamente a via aérea.

Já conseguem trazer muitos turistas por via aérea?

O número ainda não é muito expressivo, mas tem estado a aumentar numa ordem de cento e tal pessoas. Temos tonado isso, e há muita procura e também a gestão do trabalho que se faz a longo prazo, onde se desenvolve projectos agora, depois vender daqui há um ou dois anos, portanto, não é o número que nós gostaríamos, mas sentimos que a procura está a começar a abrir e notamos isso com a mudança dos vistos.

E sobre o turismo interno?

Não notamos muito. Acho que ainda não está na nossa cultura e também no nosso bolso a possibilidade para ir fazer, portanto, digamos que comparando, estamos a ter mais procura de fora de que propriamente de nacionais ou residentes que está cá, e que queira deslocar-se daqui. E mesmo assim, notamos que é mais o estrangeiro que está cá permanente ou temporariamente que quando se aventura vai conhecer. Já o angolano ainda não tem essa cultura de ir conhecer o seu próprio País, apesar de já se ver , mas também pelo facto dessa questão toda da desvalorização, as coisas estão caras, o transporte aéreo interno é muito caro, há situações em que é mais barato viajar para a Namíbia do que ir ao Namibe, portanto, isso causa-nos um constrangimentos da não abertura dessa parte do turismo.

Eu penso que se os preços liberassem um pouco mais, na parte aérea, eu penso que se calhar as pessoas aos poucos iam começando, porque a nível de hotéis, as coisas não estão assim tão caras. Já estiveram, mas baixaram.

No exercício da vossa actividade, que transtornos causa o estado actual das estradas do País?

Muitas vezes recusamos vender circuitos turísticos por causa das vias. A semelhança do que existe noutras partes do mundo faz-se muito turismo por estrada. Mas recusamos a fazer porque sabemos que teremos prejuízos.

Ou porque o carro pode vir ater problemas. Agora, se as estradas estivessem boas isto seria possível. Poderíamos ter também turismo por comboio, um meio de transporte excelente para ver paisagens as óptimas paisagens que temos aqui. Devíamos de ter aqui uma ligação ferroviária, por exemplo do Soyo ao Namibe.

Face tantas dificuldades, o que está a sustentar a sobrevivência das agências de viagem e turismo?

Acho que ainda não está na nossa cultura e também no nosso bolso a possibilidade para ir fazer turismo interno, estamos a ter mais procura de fora de que propriamente de nacionais

A teimosia, persistência, muita vontade de ajudar e no acreditar que é possível fazer. Temos consciência de que estamos a dar o nosso contributo e suporte para a divulgação, promoção e desenvolvimento do turismo em Angola. Naturalmente não fazemos sozinhos, volta e meia temos de nos socorrer de entidades ligadas ao sector que estão igualmente cheias de limitações, que pouco podem fazer.

Saíram com algum optimismo do recente encontro de auscultação que a ministra teve com os operadores turísticos?

Saímos sempre com algum optimismo destes fóruns, sentimos que a senhora ministra tem tido o interesse de se inteirar pelo sector, inclusive visita os agentes. Tivemos a oportunidade de a receber também nas nossas instalações. A parte menos boa é que a maior parte das vezes não passam de promessas do tipo: estamos a estudar; vamos elaborar; estamos a assegurar; e... quer dizer, coisas concretas acontecem muito poucas vezes. É isto que torna difícil o nosso trabalho. Sabemos que as dificuldades que o nosso País atravessa são enormes, mas também não podemos esquecer que é nesses momentos que surgem as oportunidades. Nesses momentos, devemos fazer uso de recursos excepcionais, que devemos trabalhar para desenvolver sectores como o do turismo.

Há que perceber que o turismo é transversal aos vários sectores, depende dos transportes, comércio, saúde ambiente. Portanto, enquanto outros ministérios não se juntarem e cada um fazer a sua parte as não vão fluir naturalmente.