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José Barata: “O IVA é um imposto exigente para os empresários e para o Estado”

Assumiu nesta semana os destinos da Deloitte no País, e já pôs as cartas na mesa numa entrevista, a primeira, onde fala sobre metas, conjuntura, doing business, impostos e talento nacional, a grande aposta da consultora que reforçou em 60% os seus quadros angolanos. Quanto ao IVA, deve ser visto como um desafio e uma oportunidade para todos e não como um problema.

06 Jul 2019 / 12:16 H.

O Assume a presidência da Deloitte Angola a meio do ano. É um desafio com metas traçadas?

O nosso ano fiscal inicia-se em Junho, mês em que efectuámos alguns ajustamentos na organização da firma. Um deles foi a minha nomeação para esta função, desafio que recebi com especial satisfação, em virtude da forte e longa ligação que tenho a Angola e de este ser um dos mercados onde tenho vindo a desenvolver a minha carreira nos últimos 20 anos. Trata-se de uma transição natural e alinhada com os objectivos definidos para este mercado, e estou particularmente empenhado em dar o meu contributo para o desenvolvimento do nosso negócio. O futuro será marcado pelas transformações necessárias na nossa actividade, pois vivemos numa nova era onde a mudança, sobretudo tecnológica, tem impacto nas várias áreas de negócio, nos serviços e produtos que oferecemos, nos métodos de trabalho, na forma como gerimos as pessoas e trabalhamos em equipa. Mas será também marcado pela continuidade na forma como diariamente vivemos o nosso propósito, focados nos nossos clientes e na qualidade dos serviços que prestamos.

Como se posicionam no novo contexto económico?

São 20 anos em Angola... A Deloitte é hoje uma marca incontornável em Angola, com uma elevada notoriedade junto da comunidade empresarial, académica e da sociedade. Ao longo destes 20 anos, demonstrámos um forte compromisso com o País, apostando no seu crescimento e desenvolvimento económico e social. Angola é uma das principais potências de África e, como tal, é também para a Deloitte, em termos globais, um mercado estratégico. Reiteramos a nossa aposta, nomeadamente nas pessoas, na sua capacitação e na

retenção do talento angolano, pois essa é a única forma de constituirmos um pilar efectivo do desenvolvimento económico e social do País.

Este ano anunciaram a contratação de mais 60 profissionais para auditoria, consultoria, finanças e serviços de outsourcing. É um ‘remar contra a maré’ nem fase de contracção da economia. Qual a estratégia?

Temos feito uma aposta clara na contratação de jovens angolanos e acreditamos ser este o caminho para cimentar o progresso sustentado da actividade em Angola. Temos vindo a posicionar-nos como a escolha natural dos melhores talentos, e acredito que tal se deve sobretudo à dimensão e estrutura da nossa organização, à sua sólida e alargada rede internacional, à estratégia e forte liderança. Este reconhecimento tem passado por divulgar a nossa organização aos estudantes desde o inicio do seu percurso académico, para os envolver na nossa marca e no nosso propósito. Para isso, desenvolvemos um processo de recrutamento focado na contratação dos melhores talentos, provenientes das mais prestigiadas instituições de ensino. Um dos objectivos tem passado por atrair jovens que estudaram no exterior, para lhes dar a possibilidade de contribuírem para o desenvolvimento de Angola, e assim retribuírem o investimento efectuado pelo País no seu crescimento intelectual.

Como gere a aposta nos recursos humanos nacionais, ainda aquém dos parâmetros internacionais? ensina-se a pescar, em vez de dar o peixe?

Temos uma preocupação genuína com os nossos profissionais, que são a base do crescimento e sucesso do nosso negócio. Numa empresa de serviços profissionais, não é possível atingir níveis de excelência sem os mais qualificados. Assim, desenvolver os recursos que temos na firma é um imperativo e não uma opção. A forma como o fazemos assenta em vários pilares, nomeadamente através da criação de mecanismos de aprendizagem contínua mediante a participação em cursos de formação técnica em Angola e no estrangeiro, através de capacitação on job e programas contínuos de formação online.

As consultoras, com a sua capacidade de análise em diversas frentes, são determinantes para delinear caminhos. O que é estratégico neste momento para a economia angolana?

A nossa capacidade de análise, de reflexão estratégica e de implementação é um activo ao serviço dos clientes e de Angola, e o testemunho de um padrão de excelência de que não prescindimos. Procuramos seguir o mais elevado padrão de excelência, ao apoiarmos os clientes a concretizarem as suas ambições, ao provocarmos um impacto positivo na sociedade e ao maximizarmos o sucesso dos nossos profissionais. É este foco que alicerça e alimenta o compromisso e a humanidade que colocamos em todas as nossas acções. É isto que nos torna diferentes e não apenas a nossa dimensão, onde estamos ou os serviços que oferecemos. Para as especificidades da economia Angolana, a nossa visão é que se deve garantir uma aposta clara no sector primário e em todas as cadeias de valor associadas, nomeadamente a operacionalização da cadeia logística, para a substituição de importações via fomento da produção nacional, nomeadamente dos produtos da cesta básica. Temos vindo a acompanhar com enorme interesse a implementação de vários programas, como o PRODESI, que têm dinamizado a criação de empresas e fomentado o investimento externo, melhorando o ambiente de negócios.

Qual vosso o posicionamento da nos contextos regional e global?

A Deloitte é líder global na prestação de serviços profissionais de auditoria, consultoria, consultoria fiscal, finanças, risco e outsourcing de contabilidade administrativa e consultoria geral nos mais diversos sectores. Com mais de 170 anos de actividade e com o compromisso de fazer a diferença, a nossa organização tem crescido em escala e diversidade: actualmente, com mais de 300 mil profissionais em mais de 150 países e territórios. Em Angola, contamos com mais de 300 profissionais que assumem diariamente um compromisso com a excelência. O nosso posicionamento no País está alinhado com as aspirações globais da firma, que se consubstanciam em servir os nossos clientes com distinção, inspirar os nossos talentos a entregar valor acrescentado de excelência, contribuir para a sociedade como um exemplo a seguir para uma mudança positiva e ser líder indiscutível na nossa profissão.

Ainda se nota muita relutância no doing business com Angola? E em África no geral?

Angola tem efectuado um percurso notável para alterar a percepção dos investidores internacionais quanto à facilidade de fazer negócios no País. Nos últimos anos, temos observado uma melhoria no ambiente de negócios, o que se traduz numa subida paulatina no ranking do Banco Mundial, onde se tem destacado o esforço de redução da burocracia para o sector privado. Com as políticas que estão a ser implementadas pelo Executivo, acreditamos que Angola irá apresentar melhorias substanciais neste indicador e fomentar o investimento. Quanto a África, acreditamos haver, a nível internacional, uma apetência natural para investir no continente, que se espera que continue muito apetecível em termos de rentabilidade e indicadores de crescimento.

Há uma nova geração de empresários em Angola?

É nosso entendimento que há uma dinâmica e um conjunto de objectivos que têm vindo a ser incorporados no topo das preocupações e do debate em Angola por uma nova geração de empresários, e em sentido mais amplo, de líderes angolanos, nomeadamente ligados às tecnologias de informação. É aliciante trabalhar neste contexto e com esta nova geração, na medida em que, pelas suas habilitações académicas, experiência pessoal e profissional, muitos destes líderes estão focados na imagem de Angola e na preservação da credibilidade e reputação internacionais do País. Tal realidade traduz também uma visão centrada na promoção do talento e na qualificação dos recursos humanos como mecanismo vital de resposta aos desafios dos próximos anos, áreas onde o nosso compromisso com Angola se tem vindo a reforçar ao longo dos anos, num quadro de cooperação com os principais agentes económicos nacionais.