“Índia pode superar China na cooperação estratégica com Angola”

O secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Angola/Índia dia diz que a Índia tem capacidade e pode tornar-se no maior parceiroestratégico de Angola na Ásia. Caetano Capitão aflora e aponta os caminhos para uma cooperação sólida entre os dois países.

China /
25 Mar 2019 / 09:20 H.

Que opinião tem da economia do País, que atravessa momentos difíceis?

É um período desafiante, que exige não só uma liderança empresarial forte e aberta na linha dos 360 graus. Temos de perceber e adaptarmo-nos às várias nuances do negócio do mercado angolano. O actual momento exige criatividade e empenho no estabelecimento de iniciativas mais participativas e de integração, a fim de minorar os efeitos da crise. É importante, nesta altura, a criação de blocos empresariais, que possam ajudar o colectivo a atingir os objectivos comerciais ou de investimento.

Penso que a nossa diplomacia económica tem de ser mais proactiva, para que os angolanos sejam reconhecidos na base se um novo paradigma de um mercado estável e promissor, com vista a atracção de novos investimentos.

Qual é o estado actual das relações económicas Angola-Índia?

As relações comerciais entre Angola e a República da Índia são boas e estáveis e sobretudo promissoras. Estamos numa fase de descobrimento, em que a Índia começa a perceber e a conhecer o ambiente de negócios em Angola. Os dois países estão na fase da percepção das potencialidades de ambos de cada um, a fim de se definir o que um país pode oferecer ao outro. Há boas perspectivas e vontade do dois Governos, principalmente da componente empresarial que manifestam grande interesse em incrementar os contactos de ambas as partes, com vista à formação de parcerias e de investimentos mútuos que tragam vantagens competitivas.

Como se encontra a balança comercial entre os dois países?

A balança comercial anda a volta dos 4,5 milhões USD, segundo dados de 2018. Com efeito, a Índia importa de Angola bens na ordem dos 4,3 milhões USD e os angolanos, por sua vez, importam daquele País asiático produção e bens avaliados em 235 mil USD. A grande referência nas importações da Índia tem que ver com o petróleo. Por seu lado, Angola importa sobretudo instrumentos e insumos agrícolas, nomeadamente tractores, fertilizantes, sementes e alguma maquinaria para o sector industrial, na linha de processamento agroindustrial.

Há também a importação de arroz, pois grande parte deste produto consumido em Angola vem da Índia, assim de medicamentos e equipamentos hospitalar.

Qual é o interesse do empresariado indiano em investir em áreas como como agricultura, infra-estrutura, educação, transporte e finanças?

A Índia é muito forte no sector agrícola e há um grande interesse daquele País em investir no agronegócio. É um País com grandes potencialidades na componente da agricultura, que é um dos seus motores de desenvolvimento. Na Índia se pode encontrar de A a Z as várias peças que compõem o sector agrário com capacidade de exportação, quer seja na vertente do capital humano e assistência técnica. No âmbito do investimento, existe algum interesse de empresários indianos, que querem identificar parcelas de terra para a promoção da cultura de cereais, leguminosas e outros produtos do campo, pois o índice populacional da Índia obriga a olhar para outros mercados em busca de novas oportunidades de negócios, produzindo no exterior para depois exportar para o seu País. O sector dos transportes é também um forte da índia, que pode ser aproveitado por Angola, na questão dos transportes públicos de passageiro, como no sector ferroviário.

E o que a Câmara de Comércio Angola-Índia tem feito para fortalecer as relações comerciais entre os dois países neste sector?

Nós como câmara contamos poder promover as potencialidades dos dois países para que haja algum intercâmbio neste sector, quer seja a nível da assistência técnica, bem como no fornecimento de equipamentos.

Olhando também para a realidade do nosso transporte rodoviário, fundamentalmente nas zonas rurais do País, a Índia tem soluções em termos de autocarros, camionetas robustas, fabricados localmente, que podem sempre ajudar no transporte de mercadorias a nível do campo para a cidade e vice-versa.

E em relação aos demais sectores ...

Pretendemos elevar o nome de Angola na Índia e daquele país em Angola. Neste aspecto estamos a trabalhar directamente com as embaixadas dos respectivos países e vamos procurar trazer missões comerciais e empresariais para Angola, com alguma regularidade e também o inverso. Ou seja, pretendemos trabalhar com as autoridades nacionais para que missões empresariais possam deslocar-se à Índia nos sectores da agricultura e agroindústria para beberem da experiência daquele país e o sector das telecomunicações e Tecnologias de informação, onde a Índia tem grandes soluções. Neste sector a Índia também tem soluções de A a Z, desde equipamento, assistência técnica, formação entre outros.

O sector espacial pode ser uma fonte se cooperação, uma vez que Angola esta a dar os seus primeiros passos nessa matéria, enquanto a Índia já possui largos anos de experiência e tem enviado satélites para o espaço com regularidade e está disposta a ajudar o nosso País.

Falou da intenção de trazer e levar missões e empresariais para cada um dos países. O que é que está reservado para este ano?

Para este ano temos reservado no mínimo cinco missões empresariais indianas para Angola e esperamos igualmente organizar uma missão angolana para a Índia. Consta do nosso plano de acção a participação da Índia na Filda, no sentido de expor algumas das suas potencialidades ao mercado angolano. Pretendemos também atrair muitos fornecedores de bens de produtos angolanos para a Índia. Para o próximo mês de Abril está previsto a visita de uma missão empresarial indiana em Angola.

Quais são as principais áreas de investimentos da Índia em Angola?

No País, a Índia está presente nomeadamente na área do comércio geral e na vertente de medicamentos e equipamento hospitalares. No entanto, já se pode notar algum investimento indiano na componente industrial e no sector agrário. Existem também algumas empresas em áreas como informática e tecnologia de informação, que já trabalham em Angola há vários anos. Há investimentos igualmente na componente da produção de material de limpeza e de higiene, no caso de detergentes. A Índia tem grande capacidade e pode inclusive ultrapassar a China na cooperação estratégica com Angola.

Da nossa parte, que a Câmara saiba não existem investimentos nacionais na índia. Pode sim talvez existir algum investimento ou uma unidade isolada, sem muita expressão.

E há registo grande interesse de algum dos vossos membros em fazer investimentos na Índia?

Existe sim algum interesse, acontece que estão sempre a espera de uma oportunidade. Nós (Câmara) estamos a trabalhar para isso e uma das oportunidades que pode surgir é no ramo das tecnologias de informação. Podemos, numa primeira fase, ter a montagem de várias unidades de equipamentos na Índia e em Angola, no âmbito de uma parceria em que determinados equipamentos possam ser produzidos e montados em Angola também, por exemplo.

Olhando para as potencialidades de Angola, além do petróleo o que acha que Angola pode oferecer à Índia?

Podemos começar pelos diamantes, pois a Índia tem grande interesse na compra do diamante bruto angolano, na mediada em que grande parte das pedras que circulam no mundo é lapidado naquele País asiático. Neste sector há também a vertente do capital humano, na qual a Índia, com a experiência que ostenta (na área da lapidação) pode igualmente apresentar soluções para o mercado angolano. Temos também o sector cafeícola, dos cereais, leguminosas e algum tipo de fruta que não é produzida na Índia. A madeira é uma matéria-prima que a Índia tanto necessita e eles precisam de conhecer a tipologia da madeira produzida no País, que é de elevada qualidade, para que seja mais uma variante de exportação. Eles possuem algumas referências da madeira da RDC, Costa do Marfim e olham Angola como potencial fornecedor deste produto. No caso dos materiais para a reciclagem como plástico e material ferroso é algo que também interessa ao empresariado indiano, quer como matéria de exportação ou na vertente de instalação de unidades industriais para a transformação deste tipo de matéria-prima no País.

Como é que a classe empresarial dos dois países pode contribuir para o desenvolvimento da economia nacional, que atravessa um momento de crise?

De uma forma geral achamos que deve haver maior conhecimentos de ambos os mercados.

Quer dizer que os empresários devem dialogar mais, sem colocar de parte o apoio governamental de ambas as partes.

No caso do Executivo angolano, deverá existir aquele apoio institucional para que os empresários possam estabelecer laços comerciais com potenciais investidores indianos, uma vez que o ambiente de negócios tem estado a melhorar em função também da Nova Lei do Investimento Privado.

Acredito que pelo conhecimento e potencial dos dois países, a classe empresarial deverá exercer um papel fundamental no desenvolvimento da economia angolana. Temos aproximadamente 60 empresários filiados à Câmara sendo a maioria, na ordem dos 60 empresários, angolanos.

Como encara a intervenção dos bancos a economia nesta fase?

O crédito à economia simplesmente não existe. O Governo e as instituições financeiras devem apostar no empresariado nacional para que possam criar empregos, porque a situação actual está criar várias dificuldades, como o aumento do desemprego, da criminalidade, desmembramento das famílias e empresas mergulhadas em dificuldades. Isso começa a ser um problema de Estado e passa mesmo por um diálogo inclusivo e aberto. Se o sector privado for potenciado, muitas situações anómalas c serão debeladas, começando pela produção local e criação de emprego e diminuir a dependência do sector petrolífero.

Que futuro que traça para as relações entre os dois países fruto das acções que estão a ser encetadas para a melhoria do ambiente de negócios?

É um futuro bastante promissor, considerando, acima de tudo, que existe interesse de ambos os g overnos, que vem desde o período que antecedeu à independência, da qual foram lançadas as bases para que os dois países pudessem ter relações muitos próximas e sólidas. Entretanto, nós empresários temos a grande missão de aproveitar esta base que já foi feita e fazer acontecer muitas iniciativas, uma vez que a Índia tem o substracto socioeconómico e soluções que se ajustam ao mercado angolano. É apenas uma questão de os empresários perceberem as oportunidades de negócios para que o futuro de Angola seja cada vez mais promissor. Além do capital humano e formação, a Índia pode igualmente oferecer soluções na questão das energias renováveis. No ano passado, por exemplo, foi tomado pelo governo indiano como ano do desenvolvimento da energia solar.

Há algum receio da classe empresarial indiana em investir no País, fruto da situação económica actual, e pelo facto de haver dificuldades na questão do repatriamento de dividendos?

São efectivamente desafios que ainda se colocam para qualquer investidor que pretende entrar no mercado angolano. Mas de forma geral, os empresários acreditam na actual gestão do País que fez com que o nível de confiança e de investimento estrangeiro aumentasse, ao contrário dos anos anteriores. Há mesmo um apelo que deve ser feito o Executivo para o embaraço do repatriamento dos lucros seja resolvido da melhor maneira, porque todo investidor quer ver, no fim a transferência dos seus dividendos ao seu país de origem. Há também a questões da segurança jurídica dos investidores. É importante que o empresariado encontre um ambiente jurídico que lhe seja favorável e amigo, para questões de litígio, por exemplo.

Outro aspecto interessante tem que ver com a propriedade da terra. Julgamos ser preciso que a titularidade da terra lhe seja concedida de forma célere para que seja também factor de estabilidade e garantia dos seus investimentos em Angola.

Que cenário antevê para Angola, nos próximos anos, num altura em que se aventa a provável subida dos preços dos combustíveis, de tarifas da electricidade, água entre outros?

Prevejo um cenário bastante difícil, considerando que se trata de um País que vive de importações e está atado ao sector petrolífero e das oscilações do seu preço, que tem colocado em chegue a execução do OGE, que corre o risco de ser revisto este ano. Outro tema é o facto de Angola não dispor de uma produção local que ajude a contrapor essa tendência negativa. Mais do que fazer subir os preços, urge criar um mecanismos de consulta e diálogo público, no sentido de criarmos iniciativas positivas. Temos de reflectir como os angolanos se devem posicionar face aos constrangimentos actuais e futuros. Contudo, devemos manter a calma e a serenidade porque diz-se que depois da tempestade vem a bonança.

Como o actual Executivo pode definir as metas para a resolução dos problemas sectoriais do País?

Penso que uma das formas estratégica de o Executivo poder resolver os diferentes problemas do País seria a definição de anos sectoriais.

Por exemplo 2019 poderia ser considerado como o ano do desenvolvimento agrário, industrial ou da educação. Isto iria fazer com que o próprioExecutivo e as instituições públicas e privadas focassem a sua actuação para o tema sectorial do ano em curso. Com um engajamento maior seria possível atacar o problema de várias frentes e minorá-los e depois traçar novas estratégias para o futuro.