Alfred Kalisa :“No Ruanda, alienámos empresas a quem quisesse desenvolvê-las”

Embaixador do Ruanda em Angola explica como o seu país deu a volta à economia apostando forte na educação e focando-se agora nas tecnologias. E defende que não há que ter medo das privatizações, desde que os compradores, venham de onde vierem, queiram fazer crescer as empresas e o emprego.

Angola /
14 Mar 2019 / 09:11 H.

Angola e o Ruanda?

Num momento muito bom, e têm vindo a melhorar a todos os níveis de cooperação.

Mudou alguma coisa com a tomada de posse do Governo de João Lourenço em Angola?

O Ruanda já tinha embaixada em Luanda antes, e isso naturalmente impulsionou as relações. Mas foi, entretanto, possível acelerar acordos em várias áreas, como o transporte aéreo, com as companhias dos dois países a fazerem voos diários entre Luanda e Kigali. Também se colocou em prática a isenção de vistos – e dos custos associados - entre os dois países. Esperamos que isto aumente os fluxos de viajantes.

Há muita gente a viajar entre os dois países?

Actualmente não, mas há um movimento crescente, e esperamos que, com os voos diários, o fluxo aumente nos próximos dois meses.

E há trocas comercias?

Por enquanto, não muito, mas há potencial. Por exemplo, há perspectivas de Angola exportar para o Ruanda produtos da central de LNG do Soyo. As ligações aéreas também abrem espaço a trocas futuras. Na maioria dos países da África Oriental, incluindo o Ruanda, importamos peixe e praticamente todos os produtos marítimos da Ásia. Há aqui uma oportunidade para Angola.

E que produtos o Ruanda poderia vender a Angola?

Frescos, nomeadamente frutas e vegetais, assim como carne – que já exportamos para países africanos, como a RDC. É importante melhorarmos as infra-estruturas – viárias, ferroviárias, aéreas e marítimas – para impulsionar as trocas na região. É um ponto prioritário. A agricultura, em especial familiar, tem um peso importante na economia do Ruanda. O sector agrícola de maior escala tem atraído investimento estrangeiro? Marginalmente. A agricultura familiar é uma tradição forte no Ruanda, e temos apostado na sua formação e assistência técnica ao longo dos anos, em especial em culturas como chá e café, onde já conseguimos ter as colheitas vendidas por antecipação - já temos mercado de futuros destes produtos. Fizemos agora um acordo com a Ali Baba [grupo que faz ecommerce na China] para vender online o nosso café e o nosso chá. Os nossos produtos são considerados premium devido à sua qualidade e esta expertise tem sido reforçada.

Como a adquiriram? Conhecimento local, externo?

Uma combinação de ambos. Sendo a agricultura uma actividade tão importante no país, o governo alocou recursos para a formação no sector, e hoje temos especialistas em número suficiente para as nossas necessidades. No chá, por exemplo, também adquirimos e partilhámos conhecimento com o Quénia e Ásia. A ideia tem sido fornecer competências aos próprios agricultores, para que eles entendam as suas culturas e saibam como melhorar a sua produtividade e qualidade. Temos uma densidade populacional muito alta, o que funciona a favor e contra...

Como assim?

A favor, pois é mais fácil de gerir e controlar a qualidade dos produtos; contra, pois temos uma agricultura muito familiar e precisamos também de agricultura mais intensiva. A aposta tem sido na qualidade, não tanto na quantidade, tem funcionado.

E em que indústria estão mais desenvolvidos? Temos apostado na transformação dos produtos agrícolas, mas também temos as indústrias tradicionais, como as cervejas, por exemplo. Apostamos na produção de milho, açúcar, cevada, etc., para reduzirmos as necessidades de importação. E estamos a apostar muito na indústria de hi-tech.

Como?

Já temos uma empresa que monta computadores, e o governo introduziu recentemente um programa de capacitação informática nas escolas primárias, subsidiando a aquisição de pequenos computadores para as crianças.

Essa empresa é nacional?

É brasileira, mas os ruandeses estão a ganhar conhecimento. Temos tirado proveito do AGOA [African Growth and Opportunity Act, lançado em 200 pelos EUA para promover as relações comerciais e o investimento na África subsariana] para procurar exportar para os EUA. Estamos a montar uma indústria têxtil com esse objectivo.

Como é que têm atraído investimento estrangeiro?

Desenvolvemos um pacote interessante de investimento. Temos uma autoridade para o investimento que trata de todas as licenças e processos para se começar um negócio.

É fácil fazer negócios no Ruanda...

Acho que estamos nas primeiras posições em África nesse aspecto. Também fizemos progressos na questão da paz e segurança não apenas na capital, mas em todo país. Ao longo dos anos, melhorámos na questão da corrupção, a todos os níveis. Trabalhámos muito em todos estes factores e, ao mesmo tempo, apostámos em melhorar o sistema de educação, da base ao superior, para podermos estar à altura das necessidades das empresas e das indústrias. O objectivo é criar uma população capaz de criar negócios, gerar emprego naquilo que achamos serem as nossas necessidades e metas.