Banca entre dilema do crédito à economia e o malparado

Redução do malparado e apoio à economia são alguns desafios da banca, defende Judite Correia. Sistema judicial tem que ser melhorado.

Angola /
22 Mai 2019 / 09:50 H.

O primeiro grande desafio da banca é “diminuir o crédito malparado, sobretudo de grandes clientes”, através do controlo da execução dos projectos financiados “para que não haja desvios nem uma gestão imprudente, com penalizações efectivas para os incumprimentos e passar a ter maiores exigências nos colaterais e nas garantias”, defende a assessora do conselho de administração do Banco Sol, Judite Correia.

Segundo o Relatório e Contas do Banco Nacional de Angola (BNA) referente a 2018, “o crédito vencido malparado aumentou significativamente em 12,61%, passando de 1,04 biliões Kz em Dezembro de 2017, para 1,18 biliões Kz no mesmo período de 2018, tendo o rácio de incumprimento se situado em 28,26%”. Para a bancária, que falava num evento que juntou em Luanda as câmaras de comércio e indústria que operam no País, as instituições estão ainda desafiadas a evitar o sobreendividamento, porque a taxa de esforço do total dos empréstimos no rendimento disponível deve rondar os 30%.

Para a responsável, pesa também sobre o sistema bancário uma demasiada dependência das aplicações na dívida pública, nomeadamente nas obrigações e bilhetes do Tesouro.

De acordo com o BNA, prevalece a baixa apetência por parte das instituições financeiras ban

cárias ao risco de crédito, mantendo-se a tendência crescente do financiamento ao Estado, por via dos títulos e valores mobiliários, que valiam, no período em análise cerca de 33,93% dos activos, em detrimento das aplicações em créditos (31,74%). Judite Correia diz que um dos ‘calcanhares de Aquiles’ do sector é a escassez de bons projectos, graças a ineficiente contabilidade ou inexistência de dados fiáveis, limitações no registo de propriedade e morosidade do sistema judicial, nos casos em que se revele necessário executar garantias dadas aquando da

concessão do crédito. A assessora da administração do Banco Sol sugere a melhoria, cada vez mais, do sistema jurídico, para que este garanta a segurança jurídica e a legalidade dos negócios e a penalização dos incumprimentos com maior celeridade.

Apesar dos riscos, Judite Correia vinca que a banca angolana tem que desempenhar o seu papel de conceder crédito ao empresariado nacional que reuna as condições exigidas para o efeito, para uma maior dinamização do sector produtivo, industrial e do turismo, com vista a diminuir as assimetrias regionais e sectoriais, aumentar as exportações, a substituição de importações, a riqueza e o emprego.

Os dados do banco central referem que a carteira de crédito bruto em 2018 totalizou 4,16 biliões Kz, um acréscimo de 14,97% comparativamente ao período homólogo.

O crédito em moeda nacional aumentou em 128,59 mil milhões Kz (4,49%) face ao período homólogo, correspondendo a 71,89% do total da carteira, enquanto o crédito em moeda estrangeira aumentou em cerca de 412,76 mil milhões Kz (54,58%), representando 28,11% do total da carteira.

O crédito por sector de actividade económica do sistema bancário esteve maioritariamente concentrado no sector de Comércio por Grosso e a Retalho, Reparação de Veículos Automóveis, Motociclos e de Bens Uso Pessoal e Doméstico, representando 22,29% da carteira, seguido pelos sectores de Actividades Imobiliárias, Alugueres e Serviços Prestados às Empresas e de Particulares, com 16,21% e 14,26%, respectivamente.