“São imensas as pessoas que insistem em criar ainda que nunca tenham hipóteses”

A artista plástica Isabel Baptista fala da sua mais recente exposição de pintura “A Flor da Pele”, que está patente no Camões/Centro Cultural Português. A mostra representa um tempo de pausa e balanço de uma vida intensa a procura de encontros e desencontros, como artista e como pessoa

Luanda /
16 Abr 2019 / 18:09 H.

Qual é o conceito da exposição “À Flor da Pele”?

Este trabalho resulta de um tempo que somado e assim o balanço. Agora driblo o tempo de outra forma, com mais conhecimento e uma sabedoria que só a idade nos contempla. Para poder perceber aquilo que nos serve e nos cabe e podemos optar pelo lado A, aquele que nos acrescenta e nos faz uma pessoa melhor. Passa pela família pelos amigos pelos lugares pelas situações . Pode passar pela música. Por uma bela praça numa cidade qualquer. Como uma depuração. Um processo de cura. Um vicio bom que e perseguir o que vale. E actua como um bálsamo. Afinal esse mundo não vai bem e encontrar os caminhos melhores passa por nos estarmos bem. Para sobrevivermos lúcidos. Fica se a flor da pele. Depois que o corpo se rende. Depois de tudo. Quando nos podemos escolher aquilo que nos faz sentir o mundo flor da pele.

Quantas obras estarão expostas?

Serão assim vinte obras inéditas , uma serie de um tema que envolve toda a gente. Que e Universal.

Qual é a técnica que usa?

Todas elas são acrílicos sobre tela de linho.

Quanto tempo levou a concluí-la?

Eu nunca paro de pintar... É uma rotina que trago comigo e me alimenta. Quando não posso pintar ... recorro a escrita como um exercício que trago desde há muito... E de caxexe às vezes deixo o transpirar... As redes sociais permitem nos isso e eu tento tirar partido da melhor maneira, de forma a que outras formas de arte se comunguem e misturem emolduradas por outras coisas que me são absolutamente importantes como a musica. Minha família. E todos os pores do sol possíveis. E todos os mares e marés.

Na sua última exposição, brindou o público com fragmentos de lembrança concretizados em temas diversos, que de comum têm a origem no universo feminino. Qual é foi a obra-prima para “À Flor da Pele”?

Para alem de pintar, trabalhar dentro de um atelier leva nos sempre a outras experiências criativas... todo o tempo que me resta fica distribuído por outras rotinas igualmente importantes. Falo de meu jardim que cuido desde a s primeiras obra do dia... E o fim do dia a ele pertence e entre ir as Ilhas nas imediações do Mussulo, ou ainda no Mussulo trato de com tintas pincéis e telas chamar a mim meninos que grande parte das vezes nunca viram uma tinta na vida... Partir para um exercício incrível de criatividade e muita alegria que parte de crianças que carentes de afecto atenção vivem em situações caóticas , umas ao relento em lugares onde não há escola nem pão, nem um teto de uma casinha decente. As crianças não têm medo do traço do desenho da cor nem nenhum compromisso com a estética e o resultado final e sempre brilhante! Uns telões incríveis que nos falam da vida de pessoas mínimas, heróicas porque sem nada terem dão de bandeja o sorriso sempre e emprestam nos uma energia que não me deixa parar. Me ensina o tempo, com um outro compasso de vida. O escutar. Ouvir estórias de espanto e coragem e vitória. O fazer parte de uma marginalidade boa e ser convidada para uma mesa numa casinha pobre. Mas cheia de generosidade. Como que um merecimento.

A obra prima será conseguir conforme proponho, um convite a um bálsamo. Caminhos tortos , problemas em qualquer esquina da vida umas incortornáveis a mãe natureza que às vezes é madrasta e o desconseguimento de levar uma vida em harmonia, por causa do trabalho da agua da luz e do isto e do aquilo, a esperança que emagrece e até que volte a ter saúde nos suga a alma, este tema escolhido , esta série... apresenta se como um bálsamo que se consiga amenizar nossos avessos e tropeços . Todos precisamos de Paz. É um ingrediente importante para o tempero de uma vida numa terra tão mas tão particular como esta. E que nem sempre é evidente.

É possível dissociar o seu trabalho da poesia?

A poesia a pintura a musica a dança são uma coisa os. Apenas se manifestam de maneiras diferentes mas acabam juntas, se lhes dermos espaço. A poesia pinta e a pintura faz poesia. Impossível fazer diferente.

É uma mulher que fala de si própria e do seu trabalho na terceira pessoa, como se saísse de dentro de si e se visse reflectida num espelho... Como faz este exercício?

O facto de falar na terceira pessoa resulta de inúmeras vezes em temas abordados com pessoas comuns, como a mulher que apanha mabangas doze horas por dia dentro de agua, o estudante, o funcionário do banco, a criança na lavra no lá longe... e sentir que se fala a mesma língua. Cada um de seu jeito. Dentro de suas áreas seus mundos. Esta correria desenfreada na invenção de contornarmos o que quase nos impede de chegar. É universal o lado bom quando se trata de sobreviver. Ser mulher não e evidente por aqui. Todas temos uma língua comum. Sou uma cidadã que gosto de falar com pessoas sem truques nem manias, quando se trata de falar na vida . Tiro sempre grandes ensinamentos. Não é preciso ir ao Tibete para se ter consciência do nosso pequeníssimo tamanho . A vida aqui ela é um desafio permanente que nos faz conhecer nossos limites. Não falo de astrofísica ou psicologia. Falo de vida. E sinto que eu sou o outro também.

Outrora foi promotora da antiga galeria Cenários, portanto tem uma opinião pertinente sobre as artes angolanas. Como avalia este mercado?

As artes em Angola padecem como em outras áreas de mais espaço para quem não tem amigos e lóbies e contactos ... quem não tenha na sua preciosa agenda um numero magico que abra uma porta impossível. Os amigos dos amigos . Os grupos, os clubes os guetos. As portas que se abrem apenas se mostrarmos um cartão. São imensas as pessoas que estão insistindo em “ criar” ainda que saibam que nunca terão hipótese de mostrar. Uma pena. Nem por isso param. A linguagem das pessoa detentoras do “poder” nas artes nem sempre é uma linguagem acessível ao comum dos mortais. Criam-se conceitos que ultrapassam nosso entendimento. Ligam-se “complicadores”. Que obstruem e limitam o caminho que devia ser aberto para se fazer mais e mais . Propostas na cidade surgem de enorme qualidade. Assentes em competência e conhecimento. O respeito. Mas são raros. O cenário foi uma valiosíssima experiência, com uma grande dose carolice em tempos de guerra. O objectivo era exactamente abrir portas a quem achasse que podia, que devia mostrar o que fazia... onde não se cobrava entradas, não havia porteiro , as actividades decorriam cada quinze dias entre filmes discos livros teatro pintura em permaneceria, muita musica com bandeirosa tendência para o jazz... Mas onde até ópera aconteceu. A La capela. Dirigentes estudantes cidadãos comuns, jornalistas muitos, escritores poetas escultores atletas malabaristas da vida entre as artes no seu todo eram recebidos igual, emprestava se num ambiente muito acolhedor para quem quisesse namorar o mundo das artes sem ter de ser especial, conhecido amigo do amigo. Escrita solta o ar que ali se respirava era bom e nas suas mesas na casa soberba de 1840. Temas rolavam pela sala entre um mar de amigos conhecidos como uma sala de visita da cidade. Por ali passaram grandes e pequenos. Hoje muitos vingam saudáveis. Fico feliz. Fiz minha parte.

De uma forma geral, que obras são mais caras: pinturas, esculturas ou outras?

O valor das obras depende de inúmeros itens. Desde o artista a obra do artista não se poderá dizer que a pintura é mais cara que a escultura. Cada obra é uma obra. A venda de obras de arte ultrapassa nossa compreensão por vezes virou um negócio onde pessoas pouco habilitadas para o efeito são muitas vezes os “donos” do espaço onde se mostra. “Estranhos no ninho” surgiram. Falando diferente. Exigentíssimos na sua limitação. E muito boa gente, muitíssimos artistas vão engolindo sapos para tornar seu trabalho visível. É muito triste trabalhar sabendo que jamais alguém vai ver nosso trabalho. Sem ter de ser amigo do amigo. Sobra nos o supremo privilegio de termos uns pares de artistas representando bem nosso país. Mas por vezes a sua obra não é conhecida como deveria por aqui. A educação ...a velha tecla que sem ela, a máquina não funciona direito.

Há espaço para mais galerias em Luanda?

Haverá sempre espaço para galerias . Uma cidade como Luanda necessita desses lugares para que se consiga ir buscar a magia da força que pode ter uma obra. São os verdadeiros santuários para a a alma, lugares onde se processa a beleza, o recado, se partilha um acto que pode ter sido um acto de solidão e foi feito para ser partilhado. Comungado. E isso deveria ser a nível nacional. Afinal há pessoas nas outras cidades. Havendo gente a arte flui. Desconfiem do silêncio dos criativos.