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04 Mai 2019 / 10:25 H.

Paulo Amaral: “De repente houve um boom, apareceram bastante artistas”

O Artista plástico, fala em entrevista exclusiva ao jornal Mercado sobre a sua mais recente exposição intitulada "Plovãod'escadas" de 30 obras, na galeria Thompson House, em Luanda, alusivo os 30 anos de carreira.

Porquê optou por assinalar os 30 anos de carreira com uma exposição não inédita?

Digamos que é uma retrospectiva dos últimos sete anos. Comecei a pintar em 1988, mas esses quadros são só algumas amostras. Há de acontecer uma inédita, estou a trabalhar para isso, mas ainda não tenho material suficiente. O ano passado fiz um programa que faz parte do meu calendário que é o kaluandando. Fiz também uma segunda edição, digamos que foi um ano que não tive muito tempo para grandes produções. Para isso, tem que haver a preparação físico-emocional. Certas condições têm que estar muito conciliadas, até porque eu primo sempre por me associar a uma temática cultural.

Que temáticas?

Já pintei os povos do Sul... Já pintei Luanda... Já pintei os povos Kaluanda... Já pintei os povos do leste e por isso há sempre uma associação à qualquer aspecto cultural. Gosto de fazer as coisas bem feitas de pesquisar antes de partir para mostrar algum trabalho.

O que o difere do artista de 30 anos atrás?

Tecnicamente sinto que evoluí já não é a mesma coisa, não gosto de ser eu a falar por mim gosto que sejam os outros a falar de mim mas me sinto realizado porque não tenho parado todos os anos tenho exposto e todos os anos ponho sempre uma temática nova é um conceito novo são 30 anos de muita experiência muito contacto muita relação e muitas relações humanas acima de tudo porque partilhar arte é acima de tudo partilhar parte da nossa alma do nosso espírito da nossa maneira de ser. Aconteceram todos os anos tens uma exposição de uma maneira geral 28 à 29 exposições ao longo de 30 anos de carreira há anos que não expôs mas há outros que expôs 2 ou 3 vezes por isso há aí uma relação de uma exposição por ano digamos.

Qual é a técnica que usa?

É uma técnica mista, por isso se reparar todos os quadros têm colagens e aplicações de outros materiais, papelões, chapa, ferro, eu trabalho muito com aplicações de material, faço muita reciclagem e gosto de aproveitar o que os outros deitam fora.

É mais um apelo ao despertar da consciência ambiental?

Sim, pela reciclagem. Acontece Instintivamente... Normalmente... Faço sem recorrer ao activismo. É espontâneo.

A exposição foi inaugurada a 18 de Abril, até aqui qual foi o feedback dos visitantes?

É sempre bom... Sempre agradável, partilhar a arte, de uma maneira geral, até porque é uma exposição inédita. Alias, é a primeira vez que faço uma exposição que envolve escadas. Normalmente as exposições são feitas em sítios mais amplos, devendo ser vistos e exibidos a uma certa distância. Mas nesta fui condicionado às paredes que havia, contudo estava tudo muito agradável e com um cordão humano muito interessante.

Como foi para si expor num espaço limitado?

Foi inovação, porque é uma casa que tem uma temática muito virada para a promoção da arte, para os artistas e há aqui obras de muitos outros artistas.

O material que usa é todo reciclado ou faz recursos a outros? Quais são as dificuldades dessas aquisições?

Há sempre. Nem sempre as coisas são como nós queremos, quando tenho telas, não tenho tintas. Quando tenho tinta não tenho armações. As vezes tenho umas e não tenho outras, mas trabalho muito com materiais locais. Vou me desenrascando à minha maneira de ser como artista. Tem muitas exposições colectivas no seu portefólio... As últimas trabalhei com o Álvaro Macieira fui o coordenador e o mentor do projecto Olongombe, sou o mentor do kaluandando.com, convidei 17 artistas de diferentes disciplinas, como fotografia, música, dança, teatro e grafitti. Então tem sido consequentemente uma avalanche de trabalhos com muitos artistas. O ano passado, o projecto kaluandando fiz a segunda edição com cerca de 17 ou 18 exposições colectivas.

Vale sempre a pena essa troca de experiências?

Aprendo todos os dias, com os mais velhos e com os mais novos. A vida é um aprendizado, sem barreiras, aprende-se com todo o tipo de criadores independentemente do tempo que têm de experiência ou da idade.

Como definiria o artista Paulo Amaral?

Digamos que sou um aprendiz de feiticeiro e serei até morrer porque, como disse, aprendo todos os dias. Trabalho todos os dias, no meu atelier, mesmo que não produza em determinados dias, mas estou lá à volta dos quadros, das tintas.... Arruma-se ou acaba-se um quadro ou outro.

Prevê uma 3° edição do Kaluandando?

A ideia é que aconteça todos os anos na mesma data. Claro, que isso depende de alguns recursos, de patrocínios, nesta altura nem toda a gente está disposta a patrocinar eventos culturais.

Que avaliação faz do mercado actual de artes plásticas?

De repente houve um boom, apareceram bastante artistas na praça, as pessoas recorrem muito à criatividade. Curioso, é que a criação também é uma terapia para as nossas dificuldades e estress do dia-a-dia. A crise económica e tudo mais, as pessoas estão a criar de uma maneira simpática e a improvisar.

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