Brunch With... Song Livramento

A primeira artesã angolana de chocolates, partilha o seu percurso inspirador até chegar ao próspero momento que actualmente vive e revela os seus objectivos com a marca Gourmandise .

Angola /
11 Jan 2019 / 12:44 H.

Mestre” na arte do handmade, a nossa convidada para o Brunch que decorreu no D_Cigars Lounge, é uma mulher carismática, que herdou do avó a paixão pelo cacau e deste “trunfo” fez o seu ofício. Nascida em Luanda aos 20 de Janeiro de 1984, filha de mãe angolana e pai congolês, aos nove anos de idade foi obrigada a deixar o país por razões de guerra e rumou para a Ponta-Negra, República do Congo, onde viveu com a família do pai, tendo-se mudado dois anos depois para o Gaberone, Botswana, onde a sua mãe trabalhava.

Oriunda de uma pequena família de académicos “mas muito unida”, conta que cresceu rodeada de muitos livros, sendo o seu pai um historiador de profissão. “Os meus pais sempre foram muito focadas na minha educação e do meu irmão”, e neles encontra os maiores exemplos de vida. Sonhadora, quando mais nova queria ser advogada, mas após ter-lhe sido recusada a entrada no curso de Direito, mudou de foco, “foi o melhor que me podia acontecer. Graças a Deus descobri a minha verdadeira paixão”, regozijou-se. Da sua breve vivência na terra natal na década de 1980 e início dos anos 90 guarda recordações felizes e de intenso convívio familiar, revelando que o pouco era o suficiente para “sermos crianças saudáveis e com uma boa educação”. Mas ao mesmo tempo recorda, com tristeza, da guerra em Angola: “penso que o mais triste foi ter que sair mais cedo de perto dos meus pais”. Mas garante que a oportunidade de viver em diferentes países, não só deu-lhe a chance de tornar-se numa mulher aculturada, como também tornou-a “muito flexível e que facilmente se adapta a qualquer situação”, além de considerar que o maior benefício de trabalhar por conta própria foi “aprender a ser mais independente e desenrascada”

Percurso académico e profissional

Do seu percurso que define como “longo”, recorda que começou na Escola Congolesa de Luanda, colégios da Ponta-Negra, passando pelo Liceu Francês de Gaberone- Botswana, Escola Francesa de Luanda até Cape Town (Helderberg College, Sea Point High e Progress College). De 2001-2002 fez o 1ª ano universitário de Ciências Sociais, e após uma pausa de dois anos sabáticos passados nos Estados unidos, em 2007 formouse. Iniciou-se profissionalmente na Total EP Angola onde trabalhou de 2009 a 2016 - cujos primeiros três anos ocupou a posição de assistente comercial para o projecto ALNG. “Tive um grande mentor que puxou muito por mim, pois era muito tímida e sem experiência profissional”. Posteriormente trabalhou como correspondente de Mobilidade internacional nos Recursos Humanos - coincidindo com o seu Mestrado em Gestão Global de Recursos Humanos. “Considero a Total a minha primeira escola profissional, pois em sete anos aprendi muito com os colegas. Foram exemplos de profissionalismo e know-how”, confessou. E acrescentou, que embora teve uma super experiência profissional “também tive algumas desilusões que levaram-me a pedir demissão em 2016”.

Surgimento e consolidação da Gourmandise

Ao abandonar os escritórios, passou a dedicar-se integralmente à Gourmandise Chocolates: “foi o ano em que me apercebi verdadeiramente do meu grande potencial. Entretanto, nasceu a minha 3ª filha em 2017 - e durante seis meses voltei a trabalhar para uma outra empresa”. Esse interregno fez-se acompanhar por uma outra mudança de País que lhe impôs novos desafios: “adoro um bom desafio, aceitei sem pensar duas vezes”, acentuou. “Isto teve um grande impacto psicológico em mim. Tinha largado o meu sonho, e era importante reorganizar o meu plano de negócio. Assim, passei meses a preparar um plano para um Centro de produção de Chocolates cá em Angola”, um projecto cuja solidificação contou com o apoio de um investidor que se apaixonou logo com o mesmo. Feliz por ter encontrado alguém que apostou no seu sonho, regressou definitivamente ao País onde o ano 2018 foi decisivo para implantar e fidelizar a marca.

Song vai imediatamente especializar-se em matéria de chocolates, pois toda a sua experiência estava assente no autodidactismo. Relativamente aos objectivos profissionais, e com toda a propriedade, a empresária afirma que em “primeiro lugar, nunca mais quero voltar a trabalhar para os outros”, reputa-se uma mulher ambiciosa e anseia levar a Gourmandise para o resto de Angola e do mundo. Ao passo que em termos pessoais, “quero estar sempre presente para os meus filhos, dar o meu melhor em tudo o que faço e sobretudo, ser aquele exemplo para as minhas filhas de que uma mulher pode ser mãe, esposa, filha, amiga e ainda assim, ser uma grande profissional que nunca abandona os seus sonhos, por maiores que sejam”, vincou. Rodeada de bons exemplos de jovens gestores, empreendedores e líderes, manifesta a sua admiração por eles: “penso que temos em Angola jovens com bons projectos, inovadores e com muita garra, e é nesse grupo de pessoas que tento enquadrar-me. Penso que temos um objectivo comum que passa por desenvolver o nosso país, dinamizar o mercado e deixar uma nova Angola para os nossos filhos”.